Nações Unidas, 05/10/2006 – Para a IPS, a família e os amigos do jornalista Alaa Hassan, 28 de junho foi um dia diferente. Pela primeira vez desde o começo da guerra no Iraque, esta agência de notícias perdeu um repórter no cumprimento de suas funções. O assassinato de Hassan foi a segunda vez em sua história que a IPS perde um dos seus por causa da violência. Em fevereiro de 1990, um grupo armado seqüestrou e matou o repórter da IPS Richard de Soysa, no Sri Lanka. Hassan recebeu cinco tiros quando seu automóvel foi alvo de uma rajada de metralhadora. Sua morte é uma estremecedora lembrança dos perigos enfrentado por muitos jornalistas independentes que informam desde zonas açoitadas pela guerra. Informes iniciais sobre o tiroteio sugeriam que Hassan não foi um alvo por ser jornalista – ou, mas especificamente, um jornalista iraquiano – mas por se encontrar “no lugar errado, no momento errado”. Mas o brutal ataque provocou declarações de condenação e chamados no sentido de serem adotadas medidas mais efetivas para garantir a segurança dos jornalistas no Iraque.
Koichiro Matsuura, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), única agência da ONU com mandato para defender a liberdade de expressão e uma imprensa livre, divulgou uma declaração denunciando o assassinato do jornalista. “Condeno a morte de Alaa Hassan. Os assassinatos são parte da trágica realidade cotidiana do Iraque hoje, e os jornalistas têm que enfrentá-la mais do que os que exercem qualquer outra profissão”, afirmou.
Setenta por cento dos 75 jornalistas assassinados no Iraque desde a invasão a esse país por uma coalizão liderada pelos Estados Unidos, em março de 2003, são iraquianos, disse à IPS Frank Smyth, representante de Washington no Comitê para a Proteção dos Jornalistas. Mas em uma declaração condenando o assassinato de Hassan, a Federação Internacional de Jornalistas (FIP) disse que são 131 os profissionais e trabalhadores de meios de comunicação mortos no Iraque, incluindo o da IPS, desde o começo da guerra.
“A morte de outro iraquiano nos enche de dor e indignação”, disse o secretário-geral da FIP, Aidan White. “Este é um país onde a violência e as mortes se tornaram rotina e uma característica intolerável da vida cotidiana na qual os jornalistas continuam se destacando entre as vítimas”. A FIP e a IPS exigiram uma completa e imediata investigação do assassinato de Hassan. “A IPS reclama do governo iraquiano que realize uma plena investigação para determinar o motivo do assassinato de um jornalistas quando realizava seu trabalho”, disse o diretor-geral da IPS, Mario Lubetkin, em carta enviada ao presidente do Iraque, Jalal Talabani.
“A IPS é uma das poucas organizações de imprensa que cobrem a invasão desde uma perspectiva iraquiana e no lugar dos fatos”, disse Lubetkin em carta enviada ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan. “Como parte desta árdua tarefa jornalística, nossos repórteres e trabalhadores têm de interagir regularmente com pessoas que vivem em um contexto hostil de violência crescente e mortal”.
Contar a história a partir de um ângulo iraquiano como jornalista não radicado no Iraque é uma tarefa perigosa. Requer ampla mobilização entre as trincheiras dos rebeldes e em outras áreas não controladas por forças da coalizão para avaliar com precisão como vivem essas pessoas e ouvir suas opiniões. “Estar destacado no local permite aos jornalistas contar a versão das tropas, mas não responde a pergunta sobre as demais partes do acontecimento”, disse à IPS Thomas Rosenstiel, diretor do Projeto para a Excelência no Jornalismo.
Como o conflito no Iraque – e, mais recentemente, os violentos enfrentamentos entre Israel e o movimento islâmico xiita Hezbollah, no Líbano – não ocorre entre dois governos legítimos, mas entre um governo, ou um poder ocupante, e uma organização rebelde, usar os jornalistas como alvo se converteu em uma nova estratégia no campo de batalha, segundo Rosenstiel. “A guerra moderna no século 21 tem a ver com a publicidade. “Algumas pessoas pensam que matar jornalistas faz parte de seu interesse militar estratégico”, acrescentou.
Para “continuar fazendo seu trabalho de informar o público sem restrições, estão permanentemente expostos á violência que, de maneira tão horrorosa, se converteu em um lugar comum”, disse Matsuura em sua declaração condenando o assassinato de Hassan. “Saudamos sua coragem, mas também devemos fazer o máximo para melhorar sua segurança, já que o trabalho dos jornalistas é essencial para devolver a democracia a um país que suportou décadas de opressão e violência”, acrescentou.
Rosenstiel disse que os jornalistas que viajam sozinhos, como Hassan, devem fazê-lo “com critério”, por causa dos muitos perigos, e que contar com proteção de uma força de segurança é caro e pode chamar a atenção, especialmente em áreas onde se misturar com a população reduz os riscos de se converter em alvo. Como iraquiano, Hassan não teve que fazer este último, mas também foi vítima de um círculo vicioso de violência que arruinou as tentativas de democratizar o país. Hassan, que tinha somente 35 anos quando foi assassinado, deixa sua mulher grávida, mãe, cinco irmãos e cinco irmãs.
Outros meios de comunicação também enviaram mensagens de condolência e solidariedade. “Nós, em Antiwar.com, estamos tristes e perplexos com a morte do senhor Hassan”, escreveu à IPS Eric Garris, editor desse popular site antiimperialista da internet. “Ele era um jornalista excelente e valente”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

