Oakland, Estados Unidos, 08/10/2006 – O governo canadense já não dá informação baseada em pesquisas sobre a mudança climática. Segundo o opositor Partido Liberal do Canadá, o governo conservador do primeiro-ministro Stephen Harper retirou de seus sites na Internet , desde o começo de julho, informações sobre o aquecimento do planeta e o Protocolo de Kyoto, convênio internacional que estabelece a redução de emissões de gases causadores do efeito estufa. Agora ao visitar a página http://www.climatechange.gc.ca os internautas encontram a seguinte mensagem: “O site sobre mudança climática do governo do Canadá não está disponível atualmente”.
No tempo relativamente curto em que Harper está à frente do governo, o primeiro-ministro canadense recebeu reiteradas acusações de seguir as diretrizes que marcam o presidente norte-americano, George W. Bush. Agora, parece ter assumido o hábito do governo em Washington de misturar ciência e política, suprimindo intencionalmente informação sobre sites oficiais relativos à mudança climática e suas conseqüências. Além disso, funcionários do governo trabalham em segredo na construção de seu plano “Made in Canadá” em matéria de meio ambiente, sem participação significativa de organizações especializadas. A apresentação do plano está prevista para outubro.
O ceticismo de Harper sobre o aquecimento planetário coincide com o de Bush, que em muitas ocasiões afirmou que não está cientificamente comprovada sua ligação com as emissões de gases causadores do efeito estufa, produto, em boa parte, da queima de combustíveis fósseis. O próprio primeiro-ministro questionou a base científica da mudança climática, ao qualificá-la de “hipótese controvertida”. Bob Mills, especialista em assuntos ambientais que assessora Harper, descreveu o Protocolo de Kyoto, já ratificado pelo parlamento canadense no governo anterior, como “um grande complô socialista”.
De acordo com uma declaração emitida no mês passado pelo Partido Liberal, a equipe de Harper “está se comprometendo em uma ciência revisionista, eliminando sistematicamente as referências às mudanças climáticas”, disse John Godfrey, especialista liberal em assuntos ambientais. “A eles não agrada a ciência, e agora querem censurá-la. Isto é orwelliano”, acrescentou. Por sua vez, o parlamentar liberal Mark Holland destacou que o governo de Harper “está estreitamente vinculado a importantes céticos sobre a mudança climática. Eles fingem estar interessados em um enfoque “made in Canadá”, mas – acrescentou Holland – o projeto é apenas um pretexto para não fazer nada.
“Antes o site sobre mudança no clima oferecia uma análise realista do problema e um relato altruísta, embora pouco convincente, do que o governo anterior fazia a respeito”, escreveu o jornalista Richard Littlemore, em um comentário publicado em julho pelo site desmogblog.com. “Eliminar uma referência a Kyoto não tem importância, mas as palavras ‘mudança climática’ foram suprimidas totalmente no site, menos em seu título”, afirmou Littlemore, que também é assessor da empresa canadense de relações públicas James Hoggan & Associados.
Holland atribuiu ao especialista norte-americano pesquisas de opinião Frank Luntz, ligado ao governante Partido Republicano, “a estratégia do governo canadense de simular preocupação com o meio ambiente enquanto desmantela programas sobre mudança climática e exclui dos sites do governo de qualquer informação que demonstre a existência do aquecimento do planeta”. Luntz, que se reuniu com Harper e seus correligionários conservadores no começo deste ano, é um pesquisador e estrategista político de alto perfil que por mais de uma década ajudou a dar forma à agenda política e às mensagens do Partido Republicano.
Hendrik Hertzberg, da revista The New Yorker, recentemente atribuiu a Luntz a criação de “inovações lingüísticas como ‘imposto da morte’, para se referir às taxações sobre a propriedade, e ‘contas pessoais', para incentivar a privatização da assistência social”. Uma seção de um conhecido memorando de 2002 dirigido por Luntz a candidatos republicanos ao Congresso tinha o título “Vencer o debate sobre aquecimento planetário: uma perspectiva geral”. Nesse documento Luntz aconselhava os candidatos a “continuarem fazendo da falta de certeza científica um assunto primordial no debate”.
O especialista afirmou que “o debate científico está se fechando, mas ainda não foi encerrado. Ainda existe uma janela de oportunidades para desafiar a ciência”. Paradoxalmente, enquanto os governos de Bush e Harper ainda se aferram a este livreto, Luntz parece ter mudado sua posição nessa matéria. Em um documentário apresentado recentemente pela rede de televisão britânica BBC, previu que “a maioria das pessoas concluirá que o aquecimento global realmente ocorre e que o comportamento humano está afetando o clima”.
Luntz afirmou que agiu com rigor quando deu seus conselhos ao Partido Republicano. Mas acrescentou que se o governo Bush ainda questiona a ciência “é sua responsabilidade. Não sou o governo. O que eles querem fazer é problema deles. E isso nada tem a ver com o que eu escrevo. Nem como o que eu acredito”, afirmou. Um comunicado de imprensa do Partido Liberal também assinala a “amizade próxima” de Harper com Gwyn Morgan, ex-presidente da companhia de gás e petróleo canadense EnCana. Morgan é “um importante cético sobre a mudança climática da província de Alberta, a quem Harper tentou, sem sucesso, designar para um cargo no governo”, segundo os liberais.
“Tudo isto tem a ver com o controle da informação e não com o controle dos gases causadores do efeito estufa”, disse Godfrey. “O governo ficaria encantado se o público canadense simplesmente se esquecesse do aquecimento planetário, e não vamos permitir que isso ocorra”, acrescentou. O governo canadense se compromete a elaborar até outubro uma exaustiva iniciativa em matéria ambiental, a qual, supostamente, incluirá programas de redução da emissão desses gases. Funcionários governamentais afirmam que se busca um amplo espectro de pontos de vista a respeito, mas segundo o jornal The Chronicle Herald, “muitas organizações ambientais dizem que foram deixadas de fora”.
“A realidade é que o público não foi consultado”, disse Ann Coxworth, da Sociedade Ambiental de Saskatchewan, uma das organizações da Rede Ação Climática, coalizão de instituições dedicada a convocar fóruns públicos e exposições sobre mudança climática em várias cidades canadenses. O governo liberal havia elaborado o chamado Projeto Verde, mas os conservadores o frearam tão logo chegaram ao poder. A apresentação de um novo programa em matéria ambiental parece seguir os passos do plano de energia do vice-presidente norte-americano, Dick Cheney.
A Força de Tarefas de Energia de Cheney trabalhou em segredo e aceitou as recomendações de empresas públicas e das indústrias do petróleo, do gás, do carvão e da energia nuclear, segundo um informe do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais. Como Cheney, Harper excluiu as organizações ambientais e trabalhou “em estrito segredo”, segundo The Chronicle Herald. “Não nos informam o suficiente sobre o que tentam fazer para que possamos lhes dar algum conselho significativo”, disse John Bennett, diretor-executivo da Rede de Ação Climática. “Precisamos ter um plano no qual todos os canadenses possam trabalhar juntos. Não se consegue um plano que se anuncia que seja feito em segredo e o divulga seis meses depois”, lamentou Bennett. (IPS/Envolverde)
(*) Bill Berkowitz é um destacado observador do movimento conservador norte-americano. Publica periodicamente a coluna Conservative Watch na revista eletrônica WorkingForChange.org.

