Genebra, 24/10/2006 – A Organização Mundial da Saúde lançou um plano para incrementar rapidamente a produção de vacinas contra a gripe, diante da eventualidade de uma pandemia derivada da variedade H5N1 da gripe aviária. David Heymann, subdiretor da OMS para enfermidades transmissíveis, justificou o caráter urgente do programa argumentando que mundo se encontra desprevenido. “Devemos começar agora mesmo a ampliar essa capacidade diante do risco de que ocorra uma pandemia nos próximos cinco, dez ou 30 anos”, afirmou.
A variedade H5N1, popularmente conhecida como gripe do frango, reapareceu há três anos, principalmente em países do sudeste asiático. Desde então foram registrados 256 casos de pessoas contagiadas, com 151 mortes. Peter Salama, chefe da unidade de sobrevivência e imunização do fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), destacou que está questão tem importância crítica para essa organização, porque mais de 40% dos primeiros casos registrados afetaram crianças e menores de 18 anos. Inclusive, os dados preliminares sugerem que as taxas mais altas de mortalidade são verificadas entre essas crianças, afirmou o representante dessa agência da Organização das Nações Unidas.
Os sanitaristas da OMS recordaram que a gripe de caráter pandêmico, o perfil que adquire uma epidemia quando se estende por vários países, pode ser enfrentada com métodos “não-farmacêuticos”, como o isolamento dos doentes para evitar o contagio de outras pessoas. Outros recursos são as ações farmacêuticas, como o caso dos medicamentos antivirais empregados para tratar doentes em fases iniciais da gripe ou medidas profiláticas para prevenir o contágio de pessoas expostas à doença. Mas existe uma terceira fórmula, a vacina contra a gripe, que está faltando e preocupa as autoridades sanitárias internacionais.
Atualmente existe uma vacina contra a gripe estacionária que se apresenta a cada ano com características epidêmicas. Contagia com sintomas graves, em cada período, entre três e cinco milhões de pessoas, causando mais de meio milhão de mortes, em sua maioria idosos e pessoas muito jovens. A maioria destas vacinas são produzida sem embriões de frango, o que exige que os ovos fertilizados sejam incubados para favorecer o desenvolvimento do vírus, que depois é cultivado até a confecção da vacina, descreveu Heymann. Mas esse processo exige cerca de seis meses e somente são produzidas 350 milhões de doses por ano, o máximo permitido pela atual capacidade da indústria.
Ali está o ponto crítico das estratégias sanitárias internacionais que contemplam a possibilidade de uma pandemia ameaçando a população mundial de mais de seis bilhões de pessoas. Por essas razões, a OMS lançou este plano que exigirá investimentos, na próxima década, de US$ 3 bilhões a US$ 10 bilhões. A iniciativa propõe, em primeiro lugar, ampliar a cobertura da vacinação contra a gripe estacionária. Marie-Paul Kieny, diretora de pesquisa de vacinas dessa agência da ONU, estimou que nessa fase “as forças do mercado estimularão a indústria para que aumente sua capacidade de produzir esse tipo de vacina”. Assim, também disporão de capacidade para produzir vacinas destinadas a enfrentar uma pandemia, acrescentou.
Outra etapa da operação seria a construção de novas unidades produtoras de vacinas em países que ainda não as fabricam. Kieny especificou à IPS que um dos países poderia ser o Brasil, embora a OMS também se interesse pela Ásia, onde a gripe aviária é endêmica. Em um prazo mais longo, os objetivos do plano pretendem promover atividades de pesquisa e desenvolvimento de novas vacinas mais potente e eficazes contra a gripe, que protejam não somente contra a doença estacionária, mas também contra variantes mais letais, como a H5N1. Todos esses são os objetivos fixados pela OMS. Mas no momento “ainda estamos muito longe de alcançá-los”, reconheceu Kieny. É preciso agora executar ações sustentadas, pois do contrário dentro de três ou quatro anos veremos que nada mudou com relação ao abastecimento de vacinas, alertou.
A OMS reconheceu que, se o problema ficar nas mãos da força do mercado, em 2009 a produção de vacinas não irá superar os 2,340 bilhões de doses anuais. Como cada pessoa necessitaria de duas doses, a demanda chegaria a 12 bilhões, estimou Kieny. Todo o plano requer o aporte de financiamento extraordinário, inclusive desde uma primeira fase de incremento da produção de vacinas contra a gripe estacionária. Esta variedade de vacina atinge um preço que oscila entre US$ 3 e US$ 7 por dose. Para os países pobres, essa quantia representa uma proporção significativa do total de recursos que destinam à saúde, admitiu Salama. Por esse motivo, precisarão de ajuda para aplicar o plano, ressaltou.
Heymann defendeu os ganhos do plano proposto na segunda-feira pela OMS. A imunização é uma estratégia de controle essencial para limitar o impacto de uma pandemia de gripe. A ação e a colaboração imediatas para aumentar o fornecimento de vacinas podem representar enormes benefícios, argumentou. (IPS/Envolverde)

