Londres, 08/10/2006 – Líderes da comunidade muçulmana na Grã-Bretanha acusam o governo do primeiro-ministro, Tony Blair, de ter um duplo discurso em sua política externa, o que estimula muitos jovens a entrarem para grupos terroristas. Blair e seus ministros rechaçam as afirmações de que a participação britânica nas guerras do Afeganistão e Iraque tenham motivado os ataques terroristas de 7 de julho do ano passado em Londres, ou o suposto complô de um grupo de extremistas para explodir aviões comerciais em vôos para os Estados Unidos, descoberto no começo deste mês. Em geral, o governo apresenta o argumento de que o terrorismo já existia antes das invasões nesses dois países e destaca que nenhuma intervenção bélica provocou, por exemplo, os atentados de 11 de setembro de 2001 em Washington e Nova York.
Porém, líderes muçulmanos insistem em dizer que o caos em que o Iraque está hoje e a passividade mostrada pelo Ocidente diante dos constantes bombardeios de Israel contra infra-estrutura civil no Líbano este mês alimentaram o ódio entre os jovens islâmicos da Grã-Bretanha. “Em todo o mundo se vê muçulmanos submetidos a diferentes tipos de opressão, como no Irã, Afeganistão, na Chechênia ou na Caxemira (disputada por Índia e Paquistão). Os islâmicos estão cada vez mais desiludidos com a política internacional”, disse à IPS Mushtaq Lasharie, conselheiro do governante Partido Trabalhista no distrito londrino de Kensington.
Os muçulmanos começam a reagir com dureza diante do “duplo discurso” do mundo ocidental, disse Lasharie. Os líderes do Ocidente “pregam que o Islã deve adotar a democracia, mas quando esta chega, não a aceitam”, acrescentou. “Se os palestinos elegeram o Hamas (Movimento de Resistência Islâmica), devem aceitá-lo como um governo legítimo. Se os libaneses possuem ministros (do movimento islâmico xiita Hezbollah), devem aceitá-los como parte de um governo legítimo. Se os iranianos elegeram para presidente Mahmoud Ahmadinejad com 78% dos votos, devem reconhecê-lo como democrático”, ressaltou Lasharie.
O conselheiro afirmou que a crescente percepção de um duplo discurso no Ocidente é o fator fundamental que leva os jovens muçulmanos britânicos a optar pela violência. “Creio que a maioria deles reage diante da situação internacional. Quando mostram (na televisão) um recém-nascido assassinado por bombardeios de aviões israelenses que saíram dos Estados Unidos através de espaço aéreo britânico, os muçulmanos neste país se sentem indignados e frustrados”, prosseguiu Lasharie. “Eles se perguntam se devem erguer sua voz também matando inocentes no mundo ocidental. Isto não está certo, mas é a única forma que resta para protestar contra o Ocidente”, acrescentou.
O jornalista Ahmed Versi, editor do periódico The Muslim News in Britain, destinado especialmente a jovens islâmicos, disse que a indignação nessa comunidade se deve “ao que ocorre internacionalmente. Há pouco, vimos milhares de muçulmanos assassinados no Líbano. Isto leva a pensar que ninguém mais se importa com o Islã. Por isso, querem se vingar”, afirmou. A polêmica aumentou na Grã-Bretanha depois que parlamentares muçulmanos enviaram uma carta a Blair criticando sua política externa. Os legisladores de origem paquistanesa Sadiq Khan, Shahid Malik e Mohammed Sarwar, da Câmara dos Comuns, e os lordes Patel e Ahmed e a baronesa Pla Uddin, da Câmara dos Lordes, foram os autores da carta.
“A nossa visão é de que as atuais políticas do governo britânico colocam os civis em riscos cada vez maiores, tanto no Reino Unido quando no exterior”, afirmaram. “A débâcle do Iraque e agora a falta de ação para conseguir um imediato cessar-fogo dos ataques contra civis no Oriente Médio só fizeram aumentar os riscos nessa região, e, também, constituem os principais argumentos dos extremistas para ameaçar a todos nós”, alertaram os signatários da carta. O governo Blair respondeu negando novamente as acusações.
“Os extremistas dentro da comunidade muçulmana conseguiram convencer toda a coletividade de que esta guerra contra o terrorismo é, na realidade, uma guerra contra os muçulmanos e o Islã”, disse à IPS Ghiyasuddin Siddiqui, líder do grupo independente Muslim Parliament. “E quando o presidente (George W. Bush, dos EUA) diz que esta guerra é contra os ‘islâmicos fascistas’, convence as pessoas inocentes e comuns de que, talvez, exista certa conspiração contra o Islã”, afirmou. “Estas pessoas, entretanto, não vêem a imagem total, a real. Não se dão conta de que, na verdade, o que está por trás desta guerra contra o terrorismo é uma guerra pelo controle de mercados e recursos para beneficiar as multinacionais e os neoconservadores (de Washington), que desejam determinar o futuro da humanidade”, acrescentou Siddiqui. (IPS/Envolverde)

