Alemanha: Repentino despertar diante do alarme terrorista

Berlim, 08/10/2006 – A Alemanha assumiu que também pode ser vítima de ataque terrorista, depois da prisão de Mohamad el-Hadjib, um dos homens que tentou explodir dois trens no Estado da Renânia do Norte-Westfalia. O segundo suspeito, Jihad Hamad, entregou-se nesta quinta-feira no Líbano, e a justiça alemã anunciou de imediato que pedirá sua extradição. El-Hadjib, de 21 anos, e Hamad, de 19, tentaram explodir dois trens no dia 31 de julho. O plano fracassou porque as bombas caseiras não funcionaram. A promotoria da cidade de Karlsruhe disse que os trens poderiam ter se transformado em “bolas de fogo” se os explosivos tivessem funcionado.

O atentado causou profundo impacto na opinião pública alemã, que se considerava um alvo pouco provável de atentados terroristas porque o país não participou da guerra do Iraque e tem um vinculo bastante bom com o mundo muçulmano. O ministro do Interior, Wolfgang Schaeuble, advertiu que não podia descartar um ataque ao sistema de transporte público alemão, semelhante aos de Madri (em 11 de março de 2004) e Londres (7 de julho de 2005), nos quais morreram dezenas de passageiros. No fim de semana descreveu a situação da segurança interna com excepcionalmente grave. “A ameaça nunca esteve tão perto”, afirmou à rede de televisão ZDF. “Não sabemos o que pode acontecer”. O impacto pelo falido atentado desatou um debate público sobre como reforçar a segurança e evitar futuros atentados.

Na Alemanha surgem renovados pedidos para ampliar o sistema de circuitos-fechados de televisão em lugares públicos, pois foram as imagens assim obtidas que permitiram prender El-Hadjib, no último dia 19, e identificar seu cúmplice. “Provavelmente, veremos mais câmaras de televisão em espaços públicos, como em outros países. Deve ser feita de forma a não atentar contra o delicado equilíbrio entre a liberdade individual e a segurança da sociedade em geral”, disse à IPS Michael Zuern, professor do Instituto de Ciências Políticas Ott-Suhr de Berlim. A segurança já foi reforçada nos aeroportos alemães, e as autoridades ferroviárias anunciaram a instalação de mais câmaras de circuito-fechado de televisão nas estações de trem.

A chanceler, Angela Merkel, disse que os vídeos de vigilância são uma ferramenta importante para prender criminosos. Mas alguns políticos se opõem ao abuso desse sistema que, advertem, atropela as liberdades individuais e produz um volume de dados impossível de ser manejado. Outras propostas em discussão são a presença de policiais armados nos trens e a criação de um registro antiterrorista para que os serviços de inteligência e de segurança possam compartilhar a informação mais rapidamente. As reclamações por maior segurança refletem o temor de que a Alemanha possa se converter em alvo de futuros atentados.

A preocupação dos alemães aumentou depois das declarações da Promotoria de que os dois supostos responsáveis pelo frustrado atentado não teriam agido sozinhos e que fariam parte de uma organização terrorista com o objetivo de organizar ataques violentos no país. As autoridades também seguem a pista de um possível vinculo com o Líbano e não descartam uma conexão com o Paquistão. Junto com as bombas caseiras foi encontrada uma nota escrita em árabe, um número de telefone do líbano e pacotes de amido com inscrições em árabe e inglês.

Inicialmente, pensou-se que a bomba fizesse parte de uma tentativa de chantagem. Mas quando as autoridades concluíram que se tratou de um atentado frustrado, os alemães questionaram pela primeira vez algo que se considerava óbvio: que não haveria atos terroristas em seu território, afirmou o jornal Sueddeutsche Zeitung. “Sempre existiu a vaga sensação de que os atentados terroristas não afetariam o país. A prisão feita na cidade de Kiel acabou demonstrando que se tratava de uma idéia falsa e ingênua”, disse Sueddeutsche Zeitung em seu editorial.

A gente sempre pensou que em cidades como Londres e Nova York era mais provável haver atentados. Mas Mohammed Atta, um dos seqüestradores dos aviões jogados contra as Torres Gêmeas e o Pentágono, no dia 11 de setembro de 2001, viveu e estudou na cidade de Hamburgo. Para as minorias que vivem na Alemanha, o complô reavivou os temores de tensão racial. Depois desses atentados nos Estados Unidos, os cidadãos de origem alemã começaram a desconfiar dos muçulmanos neste país, o que complicou as tentativas de melhorar a integração dos imigrantes, que constituem 9% do total da população.

As tensões raciais aumentaram nos últimos anos na Alemanha, segundo Kenan Kolat, diretor de uma organização que representa os dois milhões de turcos residentes no país. “O estigma dos muçulmanos aumentou devido aos ataques terroristas cometidos por extremistas”, disse à IPS. “Depois dos últimos acontecimentos, não há denúncias de discriminação: atualmente, todos estão preocupados com a ameaça que inclui as minorias”, acrescentou. O conflito no Oriente Médio, advertiu o ministro Schaeuble, pode radicalizar as comunidades árabe e muçulmana da Alemanha, especialmente os jovens.

O ministro do Interior informou que, segundo cálculos oficiais, vivem na Alemanha cerca de 900 seguidores do partido libanês xiita e pró-sírio Hezbollah e cerca de 300 do palestino Movimento de Resistência Islâmica (Hamas). Tal como ocorreu com os ataques de Londres, o frustrado atentado despertou o fantasma do extremismo interno, com atos violenos contra residentes alemães e cidadãos europeus de aparência islâmica. Nenhum país deve deixar de levar a sério este problema, afirmou Michael Zuern, do Instituto Ott-Suhr. “Devemos estar preparados para vários tipos de ameaças, tanto de grupos islâmicos quanto de seus imitadores europeus. Este é um perigo que enfrentaremos no futuro imediato”, afirmou. (IPS/Envolverde)

Jess Smee

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