Israel-Palestina: O fracasso do unilateralismo

Jerusalém, 08/10/2006 – Há apenas três semanas, o primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, ainda estava entusiasmado com um plano de retirada unilateral de suas tropas da maior parte da Cisjordânia. Em uma entrevista que concedeu no começo de agosto, disse que a guerra no Líbano não frustrou sua determinação de avançar neste plano. De fato, o conflito com o movimento islâmico xiita Hezbollah (Partido de Deus) o impulsionou e facilitou, afirmou Olmert. Entretanto, agora que os combates em território libanês terminaram, graças à uma trégua patrocinada pela Organização das Nações Unidas, o plano parece ter caído no esquecimento.

Olmert disse aos seus ministros em reuniões privadas nos últimos dias que, embora o governo não possa ignorar o conflito com os palestinos, sua prioridade agora é reconstruir o norte de Israel, afetado pelos mísseis lançados pelo Hezbollah durante um mês. Consultado se o chefe de governo havia desistido de seu plano de retirada, tema central de sua campanha eleitoral no início deste mês, Assaf Shariv, assessor próximo de Olmert respondeu: “Agora mesmo estamos tratando do assunto. Não foi cancelado, apenas não está na agenda”.

Por sua vez, o ministro dos Transportes, Meir Sheetrit, membro do governante partido Kadima, anunciou que o plano de retirada unilateral da Cisjordânia não será posto em prática num “futuro imediato”, mas explicou que a idéia não foi abandonada. O plano de Olmert prevê retirada de 90% do território ocupado, com a saída de 600 mil a 700 mil colonos judeus que vivem em assentamentos isolados, mas mantendo o controle das colônias que estão próximas das fronteiras existentes antes da Guerra dos Seis Dias, de 1967. A chamada “barreira de segurança” que Israel constrói no limite com a Cisjordânia, mas que deixa dentro do território israelense várias aldeias palestinas, tem na realidade o objetivo de servir como fronteira até que as duas partes cheguem a um acordo.

Quando Olmert ordenou pela primeira vez uma severa resposta militar ao seqüestro de dois soldados israelenses no dia 12 de julho por parte do Hezbollah, alguns analistas disseram que o primeiro-ministro queria enviar uma mensagem não apenas para essa organização xiita, mas também aos palestinos. A mensagem era que Israel estava disposto a fazer concessões territoriais, mas se essas retiradas fossem interpretadas como sinal de fraqueza, e se os palestinos não respeitassem os novos limites, então haveria uma dura represália. Porém, este sinal dissuasivo foi frustrado quando os combatentes palestinos continuaram lançado mísseis depois que Israel se retirou da faixa da Gaza há um ano, bem como pela forte resposta do Hezbollah à ofensiva israelense no Líbano. Isto também fez com que a opinião pública israelense e muitos líderes políticos se tornassem céticos sobre o unilateralismo.

No ano passado, uma clara maioria dos israelenses apoiou o então primeiro-ministro Ariel Sharon, quando ordenou a retirada de todos seus soldados e de aproximadamente sete mil colonos judeus de Gaza. Os israelenses também apoiaram seis anos atrás o então chefe de governo Ehud Barak, que retirou o exercito do sul do Líbano após 18 anos de ocupação. Como em Gaza, a medida foi adotada de maneira unilateral, sem um acordo negociado. Mas nos dois casos as retiradas não puseram fim aos ataques, mas desataram novos enfrentamentos. Israel lançou uma ofensiva em Gaza depois que um de seus soldados foi seqüestrado por combatentes palestinos em junho, e um mês depois ordenou os bombardeios no Líbano.

Apesar da retirada do território libanês, o Hezbollah continuou lançando ataques na fronteira, exigindo que as tropas de Israel também abandonassem as Granjas de Shebaa, um pequeno território que em 2000 a ONU determinou ser propriedade da Síria. Apesar também da pequena retirada de Gaza, os combatentes palestinos continuaram disparando mísseis contra localidades israelenses fronteiriças. Com milhares de soldados enviados novamente para Gaza um ano depois da retirada, e com dezenas de milhares de militares enviados outra vez ao Líbano no início deste mês, o público israelense perdeu a fé nas políticas unilaterais para manejar os conflitos. (IPS/Envolverde)

Peter Hirschberg

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