Oriente Médio-EUA: Temor de uma reação em cadeia

Washington, 08/10/2006 – Aumenta o alarme nos Estados Unidos, e não apenas porque a polícia britânica deteve 24 suspeitos de participarem do frustrado plano de fazer explodir no ar 10 aviões de passageiros durante vôo para cidades norte-americanas. Trata-se de uma sensação cada vez mais forte de que a crise vinculada com o “novo Oriente Médio”, prometido pelo governo de Gerorge W. Bush, está fugindo do controle, com potenciais conseqüências catastróficas para toda a região e o mundo. A atual guerra entre Israel e o movimento islâmico xiita Hezbollah (Partido de Deus) inflamou e radicalizou o mundo islâmico, e tornou mais provável uma grande conflagração regional.

Ao mesmo tempo, a divulgação na semana passada da notícia de que o necrotério de Bagdá recebeu só no mês passado 1.815 cadáveres e que 90% destas mortes foram causadas pela violência que impera no Iraque, superando o recorde de junho com 250 corpos, confirmou a propagada percepção de que esse país do Oriente Médio avança rápido para uma guerra civil, se é que já não está em meio a uma, como afirmam vários especialistas da região. “As duas crises já desenvolvidas, no Líbano e no Iraque, se combinam em uma só emergência”, escreveu Richard Holbrooke, ex-embaixador norte-americano junto à Organização das Nações Unidas, em uma alarmante coluna para o jornal The Washington Post.

O título do artigo, “As armas de agosto”, se referem a um livro sobre os caprichos diplomáticos e as batalhas que arrastaram a Europa para a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). “Poderia rapidamente começar uma reação em cadeia em quase qualquer lugar entre Cairo (Egito) e Mumbai (Índia). A combinação de elementos combustíveis supõe uma grande ameaça à estabilidade global desde a crise dos mísseis de 1962”, afirmou Holbrooke. O especialista se referia ao momento em que os Estados Unidos e a hoje extinta União Soviética estiveram mais próximos de um confronto direto no contexto da Guerra Fria, depois que Moscou instalou mísseis em Cuba.

Holbrooke, que seguramente seria o secretário de Estado norte-americano se o opositor Partido Democrata tivesse vencido as eleições de 2000 ou 2004, detalhou vários desses “elementos combustíveis” que poderiam desatar uma grande crise regional e até mundial. Entre outras coisas, alertou para as ameaças da Turquia em invadir o Iraque, as enormes manifestações contra Israel em Bagdá, a possibilidade de a Síria ser arrastada para a guerra no Líbano, o ressurgimento do movimento islâmico Talibã no Afeganistão e as advertências da Índia sobre castigar o Paquistão por sua suposta participação nos atentados terroristas de julho em Mumbai.

Particularmente alarmante para Holbrooke, bem como para um crescente número dos chamados “realistas” do governante Partido Republicano, é a aparente indiferença do governo Bush com esta situação. Os “realistas” são aqueles no governo que preferem a ação multilateral e priorizam o fortalecimento das alianças tradicionais de Washington, especialmente a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Por outro lado, os neoconservadores são hostis aos processos multilaterais, em geral, e à ONU, em particular. Seus postulados sobre política externa rejeitam o pragmatismo e formulam os conflitos em termos morais.

Desde que estourou a crise no Líbano, em 12 de julho, vários ex-funcionários de passados governos republicanos chamaram publicamente para uma grande revisão da política de Washington para o Oriente Médio e de sua conduta na “guerra mundial contra o terrorismo”. Sua mensagem comum era a necessidade de pressionar Israel para um imediato cessar-fogo no Líbano, de manter um diálogo direto com a Síria e o Irã tanto sobre o Líbano quando em relação ao Iraque, e de reiniciar o processo de paz palestino-israelense. A exortação também foi feita por destacados democratas, com o ex-presidente Jimmy Carter (1977-1981), seu ex-conselheiro de segurança nacional Zbigniew Brzezinski, os ex-secretários de Estado, Warren Christopher e Madeleine Albright, e o próprio Holbrooke.

Mas estes chamados, bem como o agravamento da situação no Líbano e no Iraque, parecem ser ignorados pela administração Bush. “Não há indícios de que o presidente e seus principais conselheiros estejam conscientes do quanto estamos perto dessa reação em cadeia, nem de que tenham uma estratégia maior além das ações táticas”, disse Holbrooke. A única exceção em Washington é a secretária de Estado, Condoleezza Rice, cujo escritório, reduto do realismo, está sob constante ataque desde o início da guerra o Líbano por parte da mesma coalizão de neoconservadores, nacionalistas e cristãos de direita, liderados pelo vice-presidente Dick Cheney, que incentivaram a invasão do Iraque.

Rice, a única funcionária de Washington que manteve constante comunicação com líderes árabes e europeus nos últimos meses, sempre destacou a importância de que Israel moderasse seus ataques e não destruísse a infra-estrutura civil libanesa. Segundo se soube, a secretária de Estado enfureceu-se quando o primeiro-ministro Ehud Olmert descumpriu sua promessa no mês passado de suspender os bombardeios contra o Líbano por dois dias. Rice promoveu a idéia de dialogar com a Síria e, segundo informou na semana passada a revista direitista Insight, também com o Irã.

Aparentemente, antes de eclodir a crise no Líbano, Rice havia conseguido inclinar a política norte-americana para uma posição mais realista, sobretudo em relação ao Irã. Mas, encontrou uma muralha no próprio Bush, segundo a Insight. “Nos últimos 18 meses ‘Condi’ tinha praticamente carta branca para estabelecer o rumo da política externa. Mas de repente, o presidente mudou de opinião e quis ter a última palavra”, disse à revista uma “alta fonte do governo”. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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