Oriente Médio: Israel estaria pressionando EUA para agir contra o Irã

Washington, 08/10/2006 – Em sua guerra contra o Hezbollah Israel visa, mais do que se defender das ameaças do partido xiita libanês, a eliminação dos elementos que tentam dissuadir os Estados Unidos de atacar as centrais nucleares do Irã, segundo diversas evidências. Ao planejar a destruição da maior parte do arsenal do Hezbollah e impedir que recebe armamentos desde o Irã, os israelenses parecem ter agido na esperança de eliminar os argumentos do governo de George W. Bush no sentido de arquivar a opção militar contra o programa nuclear de Teerã. E essa razão foi evitar uma chuva de foguetes de Hezbollah sobre Israel.

O especialista em defesa nacional israelense Edward Luttwak, do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, acredita que o governo do primeiro-ministro Ehud Olmert lançou seus bombardeios para que Bush mudasse de idéia a respeito do ataque contra o Irã. Luttwak assegurou que, segundo funcionários do governo norte-americano que mantiveram contatos reservados com ele, o ataque contra as instalações nucleares iranianas foi descartado no passado pela previsão de que uma represália do Hezbollah mataria milhares de pessoas no norte de Israel.

Entretanto, funcionários israelenses viram em uma guerra no Líbano para destruir o arsenal do Hezbollah e impedir seu abastecimento futuro, uma maneira para eliminar essas objeções à opção militar, disse Luttwak. O especialista considerou que, segundo o cálculo israelense, seria possível degradar a força do Hezbollah com base e mísseis sem sofrer muitas baixas, através de um ataque preventivo. “Sabiam que um ataque com foguetes do Hezbollah cuidadosamente preparado e coordenado seria muito mais catastrófico do que outro feito sob ataque israelense”, explicou.

O especialista israelense em segurança Gerald M. Steinberg, da Universidade Bar Ilón – e que costuma refletir as posições do governo de Ehud Olmert – evitou vincular a destruição do arsenal do Hezbollah com um possível ataque ao Irã, em uma entrevista feita pelo centro acadêmico norte-americano Conselho de Relações Exteriores. Mas acrescentou que em Israel há “certa expectativa” de que, depois das eleições legislativas nos Estados Unidos, em novembro, Bush “decida fazer o que tem de fazer”.

Steimberg disse que Israel pretendia “uma tomada de posição” por parte de Washington pela qual “um ataque militar contra as instalações nucleares iranianas é a única opção”. Do contrário, sugeriu, Israel consideraria suas próprias opções. Especialistas em questões iranianas e do Hezbollah acreditam que o regime islâmico em Teerã forneceu foguetes ao movimento xiita libanês para dissuadir Israel de atacar suas centrais nucleares. Ephraim Kam, especialista em assuntos iranianos do Centro de Estudos Estratégicos Jaffe em Israel, escreveu em dezembro de 2004 que a ameaça do Hezbollah contra o norte de Israel era um elemento-chave dos mecanismos de dissuasão de um ataque norte-americano.

Ali Ansari, professor da Universidade de St. Andrews, na Escócia, disse no final de julho ao jornal canadense Toronto Star que “o Hezbollah sempre foi a força dissuasiva do Irã contra Israel”. Teerã também ameaçou com represálias diretas a partir de seu próprio território contra Israel utilizando mísseis Sahab-3. Mas o regime iraniano deve se preocupar com o fato de a defesa israelense Arrow interceptar a maior parte dos projéteis, como observou Kam. Esse detalhe da defesa israelense aumenta a importância do Hezbollah como ponta-de-lança iraniana desde o Líbano.

O partido xiita recebeu alguns foguetes Katyusha, da era soviética, com alcance de apenas cinco milhas, e centenas de mísseis de maior alcance quando Israel se retirou do sul do Líbano em 2000. Mas o jornal israelense Haaretz informou que o Hezbollah tinha em 2004 mais de 12 mil foguetes e mísseis. Foi então que Teerã percebeu que o governo Bush considerava seriamente um ataque contra suas instalações nucleares, pois sabia que o regime islâmico pretendia enriquecer urânio. Também advertiu que o Hezbollah realizaria represálias em caso de um ataque contra o Irã, embora sem nunca afirmar isso explicitamente. A primeira pista da preocupação iraniana com as intenções da campanha israelense contra o Hezbollah ficou clara em uma reportagem do jornalista Michael Slackman, do jornal The New York Times, do dia 25 de julho.

A reportagem indicava que, segundo Mohsen Rezai, ex-chefe da Guarda Revolucionária iraniana, “Israel e Estados Unidos sabiam que enquanto o Hamas (o partido islâmico no governo da Palestina) e o Hezbollah estivessem ali, enfrentar o Irã teria um alto preço”. Essa era uma referência óbvia ao valor dissuasivo dos mísseis no Líbano. “Por isso, para negociar com Teerã, primeiro deveriam eliminar forças próximas ao Irã no Líbano e na Palestina”, acrescentou Rezai. Essa noção se reforça com a notícia do jornal San Francisco Chronicle, enviada pelo jornalista Matthew Kalman desde Telavive no dia 21 de julho, segundo a qual a campanha contra o arsenal do Hezbollah estava em preparação há meses, apesar de a causa do atual conflito ser o seqüestro de soldados israelenses pela milícia libanesa.

“Há mais de um ano, um alto oficial do exército de Israel começou a informar com muitos detalhes sobre a operação em curso hoje em dia a diplomatas, jornalistas e especialistas norte-americanos e de outros países, apoiado em uma apresentação de PowerPoint”, o conhecido programa de informática que ilustra com gráficos exposições públicas, escreveu Kalman. O principal objetivo da visita de Olmert a Bush no dia 25 de maio foi pressionar os Estados Unidos para usar a força contra o programa de enriquecimento de urânio do Irã. Quatro dias depois do encontro, Olmert disse na CNN que “o umbral tecnológico” do Irã estava “muito próximo” da utilização de urânio enriquecido para detê-los, antes de descobrir depois que minha indiferença encerrava tal perigo”, acrescentou.

Parece provável que Olmert tenha discutido com Bush em maio o plano para degradar a capacidade em mísseis do Hezbollah para reduzir o risco de represálias diante de uma campanha aérea contra instalações nucleares iranianas. E Bush teria dado seu aval ao plano. Depois da entrevista, o primeiro-ministro disse à imprensa israelense, mas não à norte-americana: “Estou muito, muito, muito satisfeito”. A negativa de Bush em limitar a operação israelense no Líbano sugere que, na realidade, incentivou o Estado judeu a aproveitar qualquer pretexto para lançar a ofensiva. O plano israelense teria dado ao vice-presidente dos Estados Unidos, Dick Cheney, e ao secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, novos argumentos para defender um golpe contra as centrais nucleares iranianas. (*) Gareth Porter é historiador e especialista em políticas de segurança nacional dos Estados Unidos. “Perigo de domínio: Desequilíbrio de poder e o caminho para a guerra no Vietnã”, seu último livro, foi publicado em junho de 2005.

Gareth Porter

Gareth Porter is an independent investigative journalist and historian who specialises in U.S. national security policy. He writes regularly for IPS and has also published investigative articles on Salon.com, the Nation, the American Prospect, Truthout and The Raw Story. His blogs have been published on Huffington Post, Firedoglake, Counterpunch and many other websites. Porter was Saigon bureau chief of Dispatch News Service International in 1971 and later reported on trips to Southeast Asia for The Guardian, Asian Wall Street Journal and Pacific News Service. He is the author of four books on the Vietnam War and the political system of Vietnam. Historian Andrew Bacevich called his latest book, ‘Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War’, published by University of California Press in 2005, "without a doubt, the most important contribution to the history of U.S. national security policy to appear in the past decade." He has taught Southeast Asian politics and international studies at American University, City College of New York and the Johns Hopkins School of Advanced International Studies.

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