Muttur, Sri Lanka, 08/10/2006 – A morte invadiu esta abandonada cidade do leste do Sri Lanka. A maioria de seus 50 mil habitantes fugiu, e ninguém procura nem mesmo sepultar os cadáveres deixados pelos enfrentamentos entre o exército e os separatistas Tigres Tamis. Toda a atividade agora foi trasladada para a cidade de Kantale, a 40 quilômetros de Muttur. Aproveitando uma trégua nos combates, que há duas semanas opõem os separatistas tamis com o exército do Sri Lanka pelo controle desta cidade, de maioria muçulmana, os civis fugiram em todo tipo de veículo, retirando apressadamente tudo que podiam de suas casas.
Desde o último dia 5, o exército mantém o controle desta cidade e seus efetivos advertem os jornalistas e as demais pessoas que chegam que se trata de uma área militarmente ativa. Os sibilos e estouros da artilharia contra posições dos Tigres para a Libertação da Pátria Tamil (LTTE) reforçam os alertas. Na quinta-feira passada, recomeçaram os combates perto da represa de Mawilaru, ao sul de Muttur, cujas águas irrigam mais de 12 mil hectares de arrozais, cultivados, em sua maioria, por agricultores cingaleses. Essa instalação foi o centro do novo conflito, que rompe a trégua promovida pela Noruega, que vigorava desde 2002.
Quando o exército do Sri Lanka lançou um ataque em massa, com apoio da força aérea, a fim de controlar as comportas da represa, os Tigres devolveram os golpes atacando a cidade de Muttur, 250 quilômetros a leste de Colombo, de onde se avista o porto de Tricomalee, reduto dos separatistas. Nas áreas civis de Muttur, onde os Tigres enfrentaram duramente o exército, reina o caos. Os projéteis perfuraram a escola Al-Hiriya e o teto de uma mesquita próxima foi totalmente destruído. Tampouco se salvou o principal hospital da cidade.
Os poucos civis que permaneceram sofreram o impacto dos projéteis. “Não sabemos o que aconteceu aqui, quem vem nem quem se foi. Sabemos apenas que os dois lados estavam lutando na cidade e que as pessoas tiveram de fugir. Estamos todos assustados”, disse à IPS P. V. Karunapala, de 46 anos, que esteve na cidade durante o sítio. A ajuda demorou a chegar, por isso Karunapala teve que comer apenas côco. Certamente, nunca se saberá o número de baixas, mas tanto o exército quanto os tigres afirmam que mataram centenas de inimigos. O número de vítimas civis pode chegar a várias centenas, a julgar pela destruição.
O que se sabe é que 17 civis tamis, que trabalhavam para a organização francesa Ação Contra a Fome (ACH), foram executados com tiros na cabeça. Não se conhece os responsáveis pelo massacre, mas tanto o LTTE quando o exército e o grupo paramilitar do renegado comandante dos Tigres Vinayagamoorthi Muralitharan – conhecido como coronel Karuma, e que teria a anuência do governo – são suspeitos. A Organização das Nações Unidas pediu uma investigação independente do massacre. “O governo leva a questão muito a sério”, disse em Colombo o diretor-geral da ACH, Benoit Miribel.
Em meados da semana passada, o Centro de Informação Muçulmano de Kantale contabilizou cerca de 41 mil refugiados. “Todos estão agora em 31 acampamentos, em Kantale. Até o momento, nenhum organismo governamental lhes deu assistência”, disse à IPS Mujeeb Rahaman. Em Kantale existe o perigo de uma grave crise humanitária porque os confrontos, que continuavam nesta segunda-feira, obrigaram muitas pessoas a buscar refúgio em qualquer lugar. Os refugiados foram obrigados a montar barracas à beira da estrada, em repartições do governo e em um cinema. Existe preocupação pela crítica situação sanitária, pois milhares de pessoas fazem suas necessidades em canais e terrenos ao redor dos acampamentos.
Desde uma base em Tricomalee, a equipe do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) envia ajuda que inclui grandes pedaços de plástico, utensílios de cozinha e sanitários, além de outros artigos que distribui através da Ajuda Muçulmana e de outras organizações que necessitam de alimento e outros tipos de assistência”, disse Mohammed Saleem, da Ajuda Muçulmana. Mas o assassinato dos empregados da ACH e os permanentes enfrentamentos dificultam o trabalho de equipes de socorro.
Os Tigres informaram que mais de 30 mil refugiados ficaram em zonas sob seu controle em Kathiraveli, ao sul de Muttur, e que estão sem alimentos, remédios e outro tipo de assistência. Cerca de 200 pessoas caminharam mais de 40 quilômetros para chegar a Batticaloa. Inicialmente, o governo havia restringido o deslocamento dos socorristas para a zona de conflito, mas o ministro de Gestão de Desastres, Mahinda Samarasinghe, anunciou na sexta-feira passada que o Comitê Internacional da Cruz Vermelha tinha permissão para entrar nas áreas controladas pelos Tigres.
É pouco provável que as hostilidades entre os militares e os Tigres acabem rapidamente. O exército enviou mais soldados e armamento para a região de conflito e informou que os rebeldes também se reforçavam. Pelo menos 43 meninos e meninas teriam morrido e outras 60 crianças ficaram feridas nesta segunda-feira, depois do bombardeio pela força aérea de um orfanato no distrito de Maullaitivu, segundo os Tigres. Ainda não há resposta oficial do governo sobre o incidente, porém fontes militares confirmaram que havia operações aéreas para reforçar as atividades terrestres destinadas a frear o avanço rebelde para a península de Jaffna.
Na Internet, o site Tamilnet também acusava, no domingo, as forças de segurança de causarem a morte de, pelo menos, 15 refugiados em uma igreja ao norte da ilha, nas ilhas de Kayts, perto de Jaffna. Por outro lado, sete pessoas morreram nesta segunda-feira em um atentado em Colombo, perto da residência do presidente do Sri Lanka, Mahinda Rajapakse. Uma forte explosão foi ouvida perto da primeira barreira de segurança colocada nas proximidades da residêndia. Sete pessoas teriam morrido e oito estariam hospitalizadas, segundo a porta-voz do hospital.
O embaixador do Paquistão no Sri Lanka, Bashir Wali Mohamed, poderia ter sido alvo do atentado, pois circulava pelo bairro quando ouviu a explosão, segundo informaram as forças de segurança. Um veículo militar que o escoltava teria sido atingido. A situação piorou no final de semana com os confrontos na cidade de Jaffna, outro reduto da etnia tamil, e na baía de Tricomalee. Mas tanto o LTTE quanto o governo insistem em dizer que o cessar-fogo, decretado em 2002, se mantém, apesar da crueldade dos últimos ataques.
Mais de mil pessoas morreram por causa da violência desatada nos últimos oito meses, somando-se aos 65 mil mortos causados pelo conflito que há 20 anos opõem tamis e cingaleses. Dos 20 milhões de habitantes do Sri Lanka, 73% pertencem à etnia cingalesa, em sua maioria budistas, e 18% são tamis, procedentes do sul da Índia, que praticam o hinduísmo. Os muçulmanos – que representam 7,5% da população total, e formam a segunda minoria, depois dos tamis – são os mais afetados pela atual onde violência no país. A situação dos refugiados em Kantale e Muttur é realmente muito difícil.
“Muitas de nossas casas ficaram destruídas e não sabemos a quem culpar, se o governo ou o LTTE. Ficamos no meio, e estamos sofrendo, podemos nos esconder dos tiros, mas não podemos escapar do bombardeio”, disse Najmudeen Nafaideen, no acampamento de refugiados de Muttur. (IPS/Envolverde)

