Argentina: Irã implicado no ataque a centro israelense em Buenos Aires

Buenos Aires, 29/11/2006 – Para os promotores que investigam o atentado de 1994 contra a Associação Mútua Isralense-Argentina (Amia), em Buenos Aires, são múltiplos os elementos que envolvem a embaixada do Irã no ataque, cujo motivo apontado é o cancelamento de contratos de cooperação nuclear entre os dois países. “Acreditamos que muito antes do atentado Teerã havia montado na Argentina uma estrutura clandestina de inteligência e espionagem que, na medida em que se aproximava (a data do ataque) foi progressiva e convenientemente reforçada”, diz a petição apresentada ao juiz para que autorizasse – como o fez – a prisão de oito ex-altos funcionários iranianos e um dirigente libanês.

O ataque contra a sede da Amia aconteceu no dia 18 de julho de 1994 e causou a morte de 85 pessoas e ferimentos em 300. Os promotores também afirmam que o móvel que contribuiu para justificar o atentado foi o cancelamento unilateral por parte da Argentina de contratos de cooperação nuclear bilateral assinados no final dos anos 80 com o Irã. Mas, ao mesmo tempo, afirmam que na petição apresentada ao juiz encarregado do caso, Rodolfo Canicoba Corral, que “sem a existência da estrutura” montada em torno da embaixada iraniana e do apoio logístico e operacional derivados desse desenvolvimento, a Argentina não poderia ter sido o alvo de um atentado de tamanha dimensão.

A ordem de prisão assinada este mês por Corral tem efeito de indagatória, uma instância da justiça argentina para que o suspeito de um crime se defenda. Membros da Comissão Nacional de Energia Atômica (CNEA) disseram aos investigadores que a transferência de material para o plano de desenvolvimento nuclear do Irã foi abortado a pedido da chancelaria da Argentina depois que os Estados Unidos fizeram saber que Washington “não via com bons olhos a continuação desses contratos”. No entanto, a Unidade Fiscal de Investigação do atentado contra a Amia considera que esse motivo não foi excludente, apesar de determinante.

Seus especialistas analisaram o contexto político do Oriente Médio, as negociações de paz em curso na época entre israelenses e palestinos e apresentam interpretações sobre a inconveniência dos acordos de paz para o futuro do Irã e do libanês Hezbolá (Partido de Deus), xiita, pró-sírio e pró-iraniano. Em conversa com a IPS, uma fonte da CNEA, que pediu para não ser identificada, expressou suas dúvidas sobre a possibilidade de o rompimento dos contratos ter provocado uma resposta de tamanha magnitude por parte de Teerã. “Era tecnologia para produzir urânio aos 2% ou 3%, não era conhecimento para uma bomba”, explicou a fonte.

Entretanto, admitiu que os Estados Unidos temiam pelo fato de “não saberem como iria evoluir esse desenvolvimento” nuclear iraniano. Dos três contratos com a Argentina, foram cancelados os dois assinados por último. “O primeiro (que permaneceu) estava amparado por um convênio de cooperação com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), mas os outros dois não”, por isso foram cancelados, explicou a fonte da CNEA. “Me chama a atenção o fato de a promotoria considerar que esse foi o móvel”, acrescentou, afirmando em seguida que, “se fosse para responder ao cancelamento, mais sensível teria sido o contrato que o Irã tinha com a França para receber urânio enriquecido nos anos 80”.

“Teerã havia adquirido em 1975 parte (10%) da empresa francesa Eurodif (também de capitais belgas e espanhóis) e Paris cancelou esse contrato (depois que a Revolução Islâmica derrubou o xá Mohammad Reza Pahlevi, em 1979), mas nem por isso houve uma revanche”, afirmou a fonte. Entretanto, nessa época se registrou uma série de atentados em Paris, atribuídos ao Irã e por essa operação em litígio. Um deles foi o assassinato em 1986 de Georges Besse, gerente da Eurodif, cometido por agentes de inteligência iranianos, segundo David Carr Brown e Dominique Lorentz afirmam em seu livro “A República Atômica. França-Irã. O Pacto Nuclear”.

Os promotores argentinos, alem de indagar sobre a questão nuclear como móvel do ataque, enfatizam que a estrutura montada com a embaixada do Irã em Buenos Aires como eixo é outro elemento que coloca a Argentina como alvo do ataque. Nesse sentido, apontam o “movimento incomum de correio diplomático” para a embaixada iraniana na Argentina nos meses que antecederam o ataque, a mudança de correio-bolsa para correio-pessoa e o “suspeito aumento de fundos” manejado pelo adido cultural, Mohsen Rabbani, um dos procurados pela Justiça.

“Rabbani foi o principal responsável pela logística do ataque”, segundo os promotores, que fizeram um detalhado acompanhamento das ligações do celular utilizado por diplomata, destinado a um trabalho de captação religiosa e política entre membros da comunidade islâmica na Argentina, acrescentam. Entre março e abril de 1994, três meses antes do ataque, a petição afirma que “foram feitas transferências desde o exterior de, aproximadamente US$ 15 mil” nas contas de Rabbani, um aumento considerado “substancial” comparado com os fundos que manejara em anos anteriores.

Os promotores também dão conta das tentativas de Rabbani para comprar um veículo como o usado como carro-bomba, bem como a decisão da chancelaria iraniana de dotá-lo de imunidade diplomática quatro meses antes do atentado apesar de estar há 11 anos na Argentina. Também coincide – prosseguem os promotores – a partida de embaixadores junto a países vizinhos às vésperas do ataque à Amia. Foi o caso do representante no Chile, Hamid Reza Hosseimi, que tinha em seu prontuário uma expulsão dos Estados Unidos por espionagem, e do representante em Montevidéu, Mohammad Alí Sarmadi Rad, antes identificado como agente secreto na Turquia. Também o embaixador do Irã na Argentina nessa época, Hadi Soleimanpour, tinha sido expulso da Espanha por espionagem.

Sobre a participação do Hezbolá, os promotores dizem que o então chefe do serviço exterior desse partido libanês, Imad Moughnieh, entrou na Argentina semanas antes do atentado. Moughnieh, considerado o máximo responsável por coordenar a operação em Buenos Aires, é outro dos agora procurados pela justiça argentina. Também consideram provado que o motorista suicida da caminhonete que explodiu diante da sede da Amia era o libanês Ibrahim Hussein Berro, do Hezbolá. (IPS/Envolverde)

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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