Eleições-EUA: A difícil guerra contra a guerra

São Francisco, 14/11/2006 – A maiorias obtida nas eleições pelo opositor Partido Democrata no futuro Congresso dos Estados Unidos e a renúncia de Donald Rumsfeld do cargo de secretário de Defesa não significaram necessariamente mudanças importantes para a guerra no Iraque, segundo analistas. Isso porque é o Poder Executivo e não o Congresso que supervisiona a ação das Forças Armadas e que toma as decisões a respeito da ocupação norte-americana no Iraque. “O principal controle que o Congresso tem é financeiro”, explicou Pratap Chatterjee, diretor da organização não-governamental Corpwatch. “O Congresso pode se negar a pagar pela guerra, como fez na invasão do Vietnã (1964-1975), mas não pode determinar como deve ser travada”, acrescentou.

Neste ponto, deixar de financiar a guerra não parece provável. A democrata Nancy Pelosi, possível próxima presidente da Câmara de Representantes, disse depois das eleições do ultimo dia 7 que quer “trabalhar junto com o governante Partido Republicano para enviar uma clara mensagem ao governo e ao povo iraquiano de que devem desarmar as milícias”. Pelosi ressaltou que os iraquianos “devem emendar sua Constituição e se comprometer na diplomacia regional para gerar uma estabilidade real e uma reconstrução do Iraque”.

Por sua vez, o também democrata Harry Reid, provável líder da maioria do Senado que assumirá em janeiro, fez eco às declarações de Pelosi quando disse aos jornalistas que queria realizar uma “cúpula bipartidária sobre o Iraque” mais do que fazer com que a guerra termine rapidamente. Inclusive, os democratas que chegaram ao Congresso em uma maré de sentimentos antibélicos falam cautelosamente da idéia de retirar fundos para a guerra. “É muito importante dar às nossas tropas o material que precisam para sua própria segurança”, disse à IPS o congressista eleito Jerry McNearny. “Não sei se retirar financiamento da guerra é o melhor caminho para por fim a essa guerra que torna todos mais seguros”, afirmou.

Desde os ataques de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington, que deixaram três mil mortos, o Congresso fez uma série de votações autorizando US$ 448 bilhões para financiar as invasões do Iraque e Afeganistão. Na Câmara de Representantes, cada uma dessas iniciativas teve esmagador apoio democrata, incluindo a própria Pelosi. Cada votação no Senado sobre esse tema foi unânime. Mas não significa que não houve queixas. Em um discurso contra a destinação de fundos para a guerra por parte do presidente George W. Bush, na última primavera boreal, o senador democrata Robert Byrd se queixou de que o Executivo realizava profundos cortes em gastos internos, quase no mesmo valor da quantia usada até agora para a guerra do Iraque.

Essas reduções de fundos incluíam que os veteranos de guerra custeassem seus tratamentos médicos, subfinanciar uma lei favorável às crianças de setores mais necessitados e reduzir fundos do orçamento dos Institutos Nacionais de Saúde. Uma área onde os democratas podem exercer seu poder é a das audiências de controle de gastos no Iraque. O congressista Henry Waxman, proposto para presidir os comitês de controle do governo, e o senador Byron Dorgan, disseram que pretendem ser implacáveis em sua tarefa. “Eles podem dizer: queremos que os diretores de contratados militares com Bechtel e Halliburton venham e testemunhem, e eles terão de fazê-lo, porque é assim que funciona a lei”, disse Chatterjee. “Poder-se reclamar respostas dos que ocupam cargos hierárquicos e estes podem ser obrigados a entregar documentação interna”, ressaltou.

O ativista antibélico Tom Hayden tem um ponto de vista ligeiramente diferente, pois vê a vitória democrata nas eleições para o Congresso como o inicio de um longo processo que terminará pondo fim à guerra, provavelmente depois que Bush deixar o governo, em 2008. “É de muita ajuda os democratas terem encontrado sua voz para condenar a administração da guerra”, disse à IPS. “Onde os democratas ainda não são tão bons é que precisa ser feito algo a respeito”, acrescentou. Haverá uma tentativa dos dois partidos para manter a guerra em marcha e fazer com que o assunto não se instale no público, mas isso me parece impossível de conseguir”, ressaltou.

Hayden entende que o melhor que os ativistas podem fazer é usar todas suas energias para convencer os jovens norte-americanos a não se alistarem nas Forças Armadas. “O contra-recrutamento em escolas secundárias, universidades e institutos terciários é muito importante, assim com é manter o sentimento popular contra a guerra”, afirmou. A resistência á guerra já está sendo construída dentro das bases do próprio exército. Mais de cem soldados pediram proteção ao Congresso em outubro, com base na lei que protege quem faz denúncias dentro da corporação, e nos últimos meses surgiram várias organizações de ex-combatentes contrários à guerra, com “Veteranos do Iraque contra a Guerra” e “Veteranos do Iraque pelo Progresso”. (IPS/Envolverde)

Aaron Glantz

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