França: A hora das mulheres

Paris, 20/11/2006 – A consagração de Gégolène Royal como candidata presidencial pelo Partido Socialista da França para 2007 reflete o crescente avanço mundial das mulheres no campo da política. Royal obteve na ultima quinta-feira 60% dos 219 mil votos das eleições internas do socialismo francês, dessa forma se transformando na primeira mulher com possibilidades reais de chegar à presidência de seu país. Um turno eleitoral foi suficiente para que Royal vencesse facilmente o ex-primeiro-ministro Laurent Fabius, que conseguiu 18,5% dos votos, e o ex-ministro da Economia Dominique Strauss-Kahn, que ficou com 20,8%.

Embora as pesquisas indicassem durante meses que Royal ganharia as primárias, tanto Fabius quanto Strauss-Khan apostaram que haveria segundo turno, quando os dois se uniriam para vence-la. “Sua vitória confirma que os franceses querem uma mudança radical na maneira de fazer política e que estão prontos para dar espaço a novos lideres, em lugar de continuar com os velhos”, disse à IPS Hélène Miard-Delacroix, professora de ciências políticas na Escola Normal Superior de Lyon.

Outros analistas dizem que o estilo político de Royal, que se baseia em freqüentes referencias às demandas do público, como ficou expresso em reuniões e via Internet, já está modificando a política francesa. “Com sua campanha, Ségolène Royal mexeu com o modo tradicional de fazer política do Partido Socialista”, disse à IPS Gerard Grunberg, professor do Instituto de Ciências Políticas de Paris. “Royal conseguiu algo extraordinário”, acrescentou. “Entre seus partidários pode-se encontrar pessoas que apóiam e também acérrimos oponentes da Constituição da União Européia, que habitualmente estão profundamente divididos. Royal tem partidários na extrema esquerda e direita”, disse Grunberg.

Royal tem um site na Internet – Désirs d’avenir (Desejos para o futuro) – que permite que seus simpatizantes expressem seus pontos de vista. Na realidade, trata-se de um livro em processo de produção que servirá como base para suas propostas políticas. A candidata chama esse método de “democracia participativa”, mas seus rivais o qualificam de “populista”. O ex-primeiro-ministro socialista Lionel Jospin, que até o final de setembro aspirava ser o candidato presidencial do partido para 2007, disse que o estilo de Royal é ilegítimo. “Tomara que o Partido Socialista adote decisões baseadas em suas próprias convicções e não em pesquisas de opinião”, afirmou Jospin em uma reunião partidária no final de agosto.

Entretanto, Roya, defendeu tenazmente seu ponto de vista. “Não temo o povo” e “confio em sua inteligência coletiva”, assegurou. Seu plano teve pleno êxito. Pascale Perrineau, diretor do Centro de Estudos da Vida Política Francesa, disse que “muitos franceses sofreram uma perda de orientação política e ideológica, navegando entre pontos de referencia de direita e esquerda, e, inclusive, tentando reuni-los. Nesse sentido, o ecletismo político de Royal está em sincronia com o comportamento ideológico do faça-você-mesmo de muitos eleitores”, acrescentou Perrineau.

Pesquisas feitas nos últimos meses sugerem que Royal poderia vencer as eleições do próximo ano. Estudos do instituto Sofres feitos desde maio situam sua intenção de voto em cerca de 34%, bem acima dos outros possíveis candidatos socialistas. As mesmas pesquisas deram resultados semelhantes ao ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, o candidato mais provável da governante União para um Movimento Popular. Royal, de 53 anos, tem as credenciais necessárias, com títulos universitários em economia e ciências políticas e uma carreira como funcionaria de alto nível por mais de 20 anos. Atualmente, governa a região francesa de Poitou-Charentes.

Mas, o principal ponto a seu favor pode ser sua condição de mulher. Em toda a historia francesa as mulheres tiveram um papel marginal na política. Nenhuma presidiu o país, e somente uma vez, durante um par de dias no início da década de 90, uma mulher encabeçou o governo. No parlamento eleito em 2002, apenas 12% dos deputados são mulheres, 69 em um total de 577. “Os eleitores franceses estão prontos para experimentar uma mulher como chefe de Estado”, disse o cientista político Delacroix. A campanha de Royal dentro do Partido Socialista foi impulsionada pela eleição de Ângela Merkel como chefe do governo alemão, em setembro de 2005.

Uma semana depois de Merkel ser eleita nas eleições gerais alemãs de 18 de setembro do ano passado, Royal disse que disputaria a presidência se o Partido Socialista a apoiasse. Muitos homens de seu partido fizeram comentários sexistas. “Se ela se candidatar, que vai cuidar das crianças?”, disse Fabius. Royal tem quatro filhos. “A campanha presidencial não é um concurso de belez”, afirmou Jack Lang. E Henri Emmanuelli, que se considera líder da esquerda do partido, disse: “A próxima vez que sair para caçar acrescentarei um cartucho em minha escopeta”.

Implicitamente, Royal usa sua condição de mulher como uma importante carta de triunfo em sua campanha. Defendeu os sucessos políticos de outras mulheres no exterior. No começo deste ano, apoiou abertamente a campanha de Michelle Bachelet no Chile. E também aplaudiu a primeira vice-primeira-ministra do governo espanhol, Maria Teresa Fernández de la Veja. Até agora, o êxito de Royal incentivou vários lideres da governante União para um Movimento Popular, do presidente Jacques Chirac, a considerar a candidatura de uma mulher, a atual ministra da Defesa, Michelle Alliot-Marie, como candidata para as eleições do próximo ano, em lugar de Zarkozy.

Em outubro, um dos associados mais próximos de Chirac, o ex-primeiro-ministro Jean Pierre Raffarin, descreveu Alliot-Marie como “uma mulher de Estado”. E o atual chefe de governo, Dominique de Villepin, disse que “ela é uma mulher de grande talento que demonstra capacidade de liderança em nosso governo”. Ela própria joga com a idéia. “Vários membros do meu partido pedem que me candidate. Eles dizem que somente eu seria capaz de vencer Ségolène Royal nas eleições presidenciais”, disse à imprensa no último dia 10. Se Alliot-Marie se candidatar e vencer, em janeiro, a indicação da União para um Movimento Popular, a França terá uma presidente mulher garantia entre 2007 e 2012. (IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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