Israel-Palestina: De repente, a calma

Jerusalém, 29/11/2006 – Após meses de hostilidades, israelenses e palestinos acertaram uma trégua. Não é o resultado de negociações intensas nem da abertura de uma nova via diplomática, mas de um inevitável esgotamento. Às seis horas da manhã do domingo, o último soldado israelense abandonou a Faixa de Gaza, na mesma hora em que combatentes palestinos haviam se comprometido a suspender os lançamentos de foguetes. Alguns mísseis caíram em território israelense pouco depois de a trégua entrar em vigor. Na segunda-feira houve mais alguns, mas nada como a enxurrada dos dias anteriores.

Os líderes israelenses se mostraram pacientes e reconheceram que levará alguns dias para o cessar-fogo ser completo. Líderes dos dois lados estão de bom humor desde a manhã de domingo. Um assessor do presidente palestino, Mahmoud Abbas, disse que os foguetes lançados depois de vigorar o cessar-fogo era uma “violação” e exortou “todos a acatarem o acordo”. O porta-voz do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), Ghazi Hamed, destacou que esse grupo palestino, no poder desde o início do ano, está “comprometido com o acordo e não permitirá que ninguém o rompa”.

Por sua vez, o primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, se mostrou especialmente generoso. “Apesar de ainda haver violações do cessar-fogo por parte do lado palestino, instruí as autoridades de defesa para que não respondam, que demonstrem moderação e dêem uma oportunidade ao cessar-fogo para que entre plenamente em vigor”, afirmou. Está é uma trégua nascida do desgaste mútuo, não da convicção em um novo horizonte diplomático. Mais de 400 palestinos morreram, na maioria combatentes, mas, também morreram muitos civis, desde que Israel lançou uma operação em Gaza em resposta ao seqüestro de um de seus soldados por parte do Hamas em junho.

Apesar do grande número de vítimas fatais – 19 membros de uma família morreram em um único ataque israelense este mês – a comunidade internacional não fez pressão sobre Israel para por fim à sua operação em Gaza. Mas, os ataques não conseguiram deter os mísseis palestinos. Mesmo com soldados, tanques e veículos blindados patrulhando o norte de Gaza, os foguetes continuaram chovendo sobre a localidade israelense de Sderot. Dois moradores morreram no começo deste mês, enquanto cresciam os apelos do governo para que se evacuasse a área e a pressão sobre Olmert aumentava.

O objetivo inicial da incursão de Israel em Gaza – a libertação do soldado Gilad Shalit – ainda não foi atingido. Em seu discurso de segunda-feira, Olmert disse, pela primeira vez, estar disposto a uma troca de prisioneiros. “Declaro aqui que quando Gilad Shalit for libertado e regressar à sua família são e salvo, o governo de Israel estará disposto a libertar vários prisioneiros palestinos, incluindo os condenados a uma longa pena de prisão, com o objetivo de aumentar a confiança em nós e demonstrar que nossas mãos estão estendidas para uma paz genuína”, afirmou.

As autoridades israelenses esperam que uma trégua duradoura e a libertação de Shalit preparem o caminho para uma reunião entre Olmert e Abbas e para o reinício das negociações de paz, congeladas desde que há seis anos estourou a segunda intifada (insurreição popular palestina contra a ocupação). Olmert garantiu que, se for estabelecido um novo governo palestino que reconheça Israel, renuncie à violência e prometa observar acordos de paz interinos, convidará Abbas para uma reunião “imediatamente para concluir um diálogo real, aberto, genuíno e sério”.

Em troca de uma “paz verdadeira”, o líder israelense ofereceu evacuar “muitos territórios” e assentamentos judeus na Cisjordânia e aceitar a criação de um Estado palestino e com “plena soberania e fronteiras definidas”. Para o primeiro-ministro, cuja popularidade caiu depois da guerra com o Líbano, um cessar-fogo duradouro com os palestinos pode lhe dar um impulso político. Mas, líderes militares israelenses vêem como o Hamas com extremo receio. O fato de esse movimento aceitar a trégua significa que está debilitado e precisa de tempo para se recuperar com vistas a uma nova rodada de hostilidades, afirmaram. Os militares também acreditam que, apesar das promessas palestinas, o contrabando de armas do Egito para Gaza continua.

Para Abbas, uma trégua é um elemento crucial em seu plano de construir um governo de unidade nacional que reconheça Israel e marque o caminho para o Ocidente levantar as atuais sanções que buscam castigar o Hamas por sua atitude belicista, mas que afetam toda a população da Palestina. A libertação dos prisioneiros palestinos e uma reunião com Olmert são elementos que fortaleceriam sua imagem dentro da Palestina. Enquanto as duas partes lambem suas feridas, a maioria dos israelenses e dos palestinos vê a trégua apenas como uma interrupção temporária da violência. Estão convencidos de que a contagem regressiva para outra onda de enfrentamentos já começou. (IPS/Envolverde)

Peter Hirschberg

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