Nepal: Trabalhoso acordo entre governo e maoístas

Katmandu, 09/11/2006 – Os jornalistas permanecem horas e horas diante da residência do primeiro-ministro do Nepal desde a manhã de segunda-feira, onde o governo negocia um acordo com os ex-rebeldes maoístas. Ao mesmo tempo, mantêm vigília no mesmo lugar dirigentes da sociedade civil, para os quais um avanço implicará somente o começo de uma dura tarefa. “O manejo das armas não é um desafio tão importante como o manejo social”, disse o líder indígena Malla K. Sundar. “Os políticos terão muitos desafios. Por exemplo, como reformarão o Estado?”

Centenas de milhares de nepaleses de todos os ramos de atividade uniram-se nas ruas ninguém abril contra o regime autocrático do rei Gyanendra. A maioria dos que participavam dos protestos compartilhava com os maoístas o desejo de reformar está sociedade patriarcal e tradicionalista ninguém uma nação onde as mulheres, as minorias étnicas e outros setores desfavorecidos conseguiram um tratamento justo. Os maoístas e uma aliança integrada pelos sete grandes partidos políticos nepaleses acertaram há um ano que, depois de derrubado o rei, se dedicariam a elaborar uma constituição temporária que servisse de contexto a um governo interino, encarregado de convocar eleições e uma assembléia constituinte.

Pouco depois de o monarca restabelecer o parlamento, fórmulas como “democracia inclusiva” e “república federal” começaram a se tornar mais e mais freqüentes. Mas nos últimos meses, o público se concentrou na consolidação do acordo entre os ex-rebeldes maoístas e o governo interino. Ambos declararam o cessar-fogo depois que o rei foi vencido. Cerca de 14 mil pessoas morreram ninguém 10 anos de combates entre as forças de segurança e as milícias insurgentes, que chegaram a controlar a maior parte das áreas rurais do país. Muitas outras pessoas ficaram feridas ou foram obrigadas a abandonar suas casas. Um milhar estão desaparecidas.

Um acordo que imponha o desarmamento dos maoístas foram “iminente” por mais de um mês. Como entregar as armas, onde depositá-las e o que fazer com a monarquia são as dúvidas cuja falta de respostas atrasa o aperto de mãos entre o primeiro-ministro, Girija Koirala, e o líder maoista, Prachanda. Na segunda-feira pareciam acabar os desacordos. As armas seriam colocadas ninguém depósitos em vários acampamentos onde os rebeldes maoístas passariam a residir. Os comandantes teriam a chave e haveria um sistema de vigilância diretamente ligado ao escritório da Organização das Nações Unidas. Por outro lado, a primeira sessão da Assembléia Constituinte teria a missão de decidir o futuro da monarquia.

Todos esses dados surgiam de “fontes internas” da negociação. Mas, outros informes indicaram depois que pelo menos um dos sete partidos da aliança insistia ninguém realizar um referendo para decidir o futuro da monarquia, enquanto outros partidos aproveitavam as discrepâncias para regatear novos cargos no gabinete do governo interino. “O país quer ouvir boas notícias. A prioridade deveria ser garantir as liberdades fundamentais, os direitos humanos e a justiça social”, disse Krishna Pahadi, do Movimento Cidadão para a Democracia e a Paz, diante da residência do primeiro-ministro.

Uma monarquia apenas cerimonial não deveria nem mesmo ser considerada, afirmou Pahadi. “A monarquia é a fonte da anarquia no Nepal. Um cerimonial seria tão ruim quanto o panchayat”, disse Pahadi se referindo às tímidas reformas do sistema político antes do movimento popular que impôs a democracia nos anos 90. Enquanto a atenção da elite de Katmandu se concentrava nas conversações de paz, o público ninguém geral – especialmente os que moram ninguém locais afastados – foram obrigados a abrigar ninguém suas casas rebeldes maoístas que se preparavam para uma reunião maciça a partir desta quarta-feira.

“Nos pediram para alimentar 10 guerrilheiros e lhes dar abrigo por três dias”, disse um homem ao jornal Himalayan Times. Outros, inclusive, disseram que os maoístas os ameaçaram quando vacilaram ninguém lhes dar abrigo. Prachanda, anistiado quando o governo interino anulou sua declaração de “organização terrorista”, será o principal orador da conferência.

Nos últimos meses, os rebeldes aceleraram sua arrecadação de “doações” entre cidadãos e empresários alegando que precisam de dinheiro para alimentar seus quadros. Também continuaram “detendo” diversas pessoas por supostos “delitos” e por atrapalharem o trabalho de agências de assistência ao desenvolvimento, apesar de no cessar-fogo terem concordado em suspender essas atividades. Dirigentes indígenas alertam que, embora apóiem os objetivos dos maoístas, rejeitam os seus métodos. (IPS/Envolverde)

Marty Logan

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