Ciência-EUA: A política da ignorância

Nova York, 28/11/2006 – Quando a ciência não apóia a ideologia nem as políticas do presidente norte-americano, George W. Bush, seu governo consegue fazer com que coincidam com um passe de mágica. A maioria dos programas educacionais que pregam a abstinência sexual antes do casamento não passa por uma análise de confiabilidade científica, segundo um informe da Controladoria Geral dos Estados Unidos (GAO). Esses programas recebem do Departamento de Saúde e Serviços Humanos uma verba de US$ 158 milhões anuais, segundo o GAO, que opera de maneira independente na órbita do Congresso.

“Os esforços do Departamento de Saúde e dos Estados para avalizar a confiabilidade científica dos materiais usados nos programas de educação que promovem a abstinência sexual até o casamento foram limitados”, diz o documento. “Isso ocorre porque a Administração para a Infância e a Família, que depende da secretaria e distribui fundos para dois dos programas que representam o maior gasto federal nesse tipo de iniciativa, não revisa os materiais nem exige a realização dessa tarefa”, acrescenta.

Após analisar o caso de dez Estados que recebem financiamento desses órgãos, os auditores da Controladoria descobriram que somente a metade revisa seu programas para verificar seu conteúdo cientifico em matéria de anticoncepção e doenças sexualmente transmissíveis (DST), entre outros aspectos. Segundo o informe, a maioria dos esforços federais e estatais que avaliam a eficácia deste tipo de programa “não segue os padrões científicos mínimos” considerados necessários pelos especialistas para que sejam considerados válidos. Esse estudo da GAO é o último de uma série que avalia como o governo Bush manipula sistematicamente a ciência para ajusta-la à sua ideologia.

O governo modificou iniciativas de educação sexual para simular uma justificativa científica por trás dos programas que defendem a abstinência, considerada o melhor mecanismo para deter as DST e a gravidez indesejável. Bush sempre ressaltou a idéia de que por meio da educação sexual se promova a abstinência como a única alternativa. Até há pouco, uma iniciativa do Centro para o Controle de Enfermidades chamada “programas que funcionam” identificou propostas de educação sexual através de comprovada eficácia, que forneciam aos adolescentes interessados informação através de seu site na Internet.

Os cinco “programas que funcionam” davam informação completa e consideravam a abstinência como única opção. Mas, pouco depois, esse Centro apagou essa informação de suas páginas na Internet e também substituiu o material sobre a eficácia do uso do preservativo por dados que fundamentavam as supostas falhas deste dispositivo e a efetividade da abstinência. Quando Bush proibiu o financiamento de pesquisas com célula-tronco afirmou que havia “mais de 60 séries geneticamente diversas” de células para futuras pesquisas. Depois, o então secretário de Saúde, Mike Leavitt Thompson, reconheceu que o número exato estava entre 24 e 25. Mas, depois, o diretor do Instituto Nacional de Saúde, Elias Zerhouni, afirmou no Congresso que os pesquisadores dispunham de apenas 11 dessas séries de célula-tronco.

Os informes sobre aquecimento do planeta da Agência para a Proteção Ambiental também foram suprimidos do seu site. A Casa Branca acrescentou tantas salvaguardas a esses materiais que sua administradora na época, Christie Todd Whitman, decidiu apagá-los para não ter de publicar algo que do ponto de vista cientifico era falso. Funcionários do Departamento de Defesa também apresentaram informação enganosa sobre a possibilidade de uma rápida instalação do Sistema de Defesa de Mísseis.

A este respeito, um subsecretário de Defesa disse em um painel realizado no Senado que, no final de 2004, o sistema atingiria 90% de efetividade para interceptar mísseis disparados desde a península coreana. Mas um ano antes, em abril de 2003, a Controladoria considerou que sistema defendido pela Presidência não era viável e que, inclusive, era perigoso. A GAO disse, então, que a porcentagem de efetividade dada pelo Pentágono “não se sustenta em nenhuma prova disponível e não parece obedecer a nenhuma das estimativas classificadas da própria secretaria”.

Também foram ocultados os comentários de cientistas do Serviço de Pesca e Natureza sobre o impacto destrutivo das mudanças de normatização propostas para os pântanos. Os especialistas dessa dependência do Departamento do Interior prepararam uma análise mostrando que uma nova proposta do Corpo de Engenheiros do Exército “fomentaria a destruição dos leitos dos rios e levaria a uma perda das funções aquáticas”. Mas, a então secretária do Interior, Gail Norton, não enviou os comentários dos cientistas ao Corpo de Engenheiros, que por isso dispuseram normas que debilitaram a proteção de pântanos-chave.

Como conseqüência de uma campanha dos conservadores para “informar” as mulheres sobre a suposta incidência dos abortos no câncer de mama, o Instituto Nacional do Câncer reviu seu site e propôs pesquisas contraditórias a respeito. De fato, os cientistas concordam que não existe vínculo algum. Um informe encomendado pelo representante do opositor Partido Republicado Henry Waxman afirma que o governo Bush manipula os comitês de Assessoramento Cientifico para promover sua agenda política e ideológica.

Entre outros exemplos, o estudo menciona a designação de pessoas não qualificadas e com vínculos empresariais, em lugar de especialistas, para manter um controle sobre esses comitês. O governo argumenta que tais exemplos são coincidências isoladas. Mas a maioria dos cientistas diz o contrário. O diretor de Biologia da Federação de Cientistas Norte-Americanos, Michael Stebbins, se mostrou otimista e disse à IPS que “as coisas vão melhorar, agora que os democratas conseguiram a maioria” nas duas câmaras do Congresso.

Segundo Stebbins, a norma que estabelece a necessidade de políticas com sustentação científica proposta ao atual Congresso e bloqueada pelos republicados voltará a ser apresentada logo que a nova legislatura assumir, em janeiro. Stebbins disse à IPS esperar que “os comitês científicos mantenham muitas discussões sobre a política científica de Bush, que isso chame a atenção da imprensa e que o governo, com vistas às eleições presidenciais de 2008, se veja obrigado a ouvir e mudar de rumo”. (IPS/Envolverde)

William Fisher

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