Nova York, 28/12/2006 – Menos de uma semana antes de deixar o cargo, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan, tem uma nova crise humanitária nas mãos: outro conflito na Somália. Se as armas não ficarem silenciosas na próxima semana, será o novo secretário-geral, o sul-coreano Ban Ki-Moon, que herdará o problema, no dia 2 de janeiro, quando assumir o cargo. O conflito se agravou nesta semana, depois que forças da Etiópia intervieram na Somália para apoiar o governo do presidente interino Abdullahi Yusuf, com sede na cidade de Baidoa, que combate contra as milícias da poderosa União de Cortes Islâmicas (UCI), com domínio em vários povoados e na capital do país, Mogadíscio.
A UCI, que tenta criar um Estado islâmico, conseguiu desalojar os senhores da guerra que haviam dividido o país em feudos depois da queda do ditador Mohamed Siad Barre em 1991, que contavam com apoio dos Estados Unidos. Agora, os islâmicos se opõem ao governo federal de transição, apoiado pela Etiópia. “Pode ser um batismo de fogo” para Ban, disse um funcionário da ONU, alertando que o novo conflito no Chifre da África pode agravar ainda mais por razões religiosas, já que a Etiópia é predominantemente cristã, enquanto a Somália é de maioria muçulmana.
O The New York Times informou que “o governo liderado por cristãos” da Etiópia e suas operações militares dentro da Somália têm o “apoio tácito dos Estados Unidos”. Tanto a influência do governo de George W. Bush quanto o perigoso componente religioso ameaçam expandir o conflito para toda a região. O jornal britânico The Times informou que à forças da UCI em Mogadíscio se somaram combatentes islâmicos do Iêmen, Egito, Síria e Líbia.
Washington, que continua travando uma batalha perdida no Afeganistão e no Iraque, também poderia se ver envolvido em uma terceira frente, desta vez na África. O governo norte-americano teme que as UCI consigam maior domínio e consolidem a Somália como um refúgio para terroristas islâmicos. Mas enquanto Annan estiver ocupado tentando levar paz ao Chifre da África em seus últimos dias no cargo, também se alegrará pelos mais recentes avanços políticos no Sudão.
O intransigente governo sudanês finalmente concordou com o envio do primeiro contingente de tropas da ONU para supervisionar a segurança na zona de Darfur, onde há um conflito que já fez 200 mil mortes desde 2003 e deixou dois milhões de refugiados. Um porta-voz da ONU disse que o acordo alcançado entre Cartum e a União Africana no final de semana passado prepara o caminho para o eventual envio de milhares de soldados de paz das Nações Unidas.
Annan, que esperava descansar antes de deixar o cargo no começo de janeiro, entrou em contato telefônico na terça-feira com vários líderes para tentar aliviar a tensão no Chifre da África. Conversou com o presidente do Quênia, Mwai Kibaki, que seguia de perto a situação, bem como com o primeiro-ministro da Etiópia, Meles Zenawi, e com o comissário da União Européia para o Desenvolvimento e a Ajuda Humanitária, Louis Michel, que recentemente esteve na Somália. Os Estados Unidos apóia o governo de transição somaliano e acusa as forças islâmicas de terem vínculos com a rede terrorista Al Qaeda.
Espera-se que o Conselho de Segurança da ONU se reúna no final de semana para analisar o conflito e receber um relatório do representante especial do secretário-geral na Somália, François Loseny Fall. Os combates ameaçam causar uma grave crise humanitária devido ao deslocamento de milhares de civis no centro e sul do país. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, Antonio Guterres, disse na terça-feira que a Somália foi afetada nos últimos meses por uma crise atrás da outra. No começo do ano sofreu forte seca, seguida de um conflito interno que levou mais de 34 mil refugiados para os acampamentos de Dadaab, no Quênia.
“Desde novembro houve severas inundações em uma área muito ampla do sul, e agora, na última semana, combates muito graves”, disse Guterres em uma declaração divulgada em Nova York. “Peço a todas as partes do conflito que respeitem os princípios humanitários e protejam a população civil”, acrescentou. Também disse que os trabalhadores humanitários enfrentam vários obstáculos, incluindo os desastres naturais e a falta de segurança. “A última coisa que nós e os habitantes da Somália precisam é outra rodada de deslocamentos maciços”, ressaltou.
Desde o final da semana passada, o Programa Mundial de Alimentos envia mais comida para a Somália e o Quênia, e expandiu suas operações por terra, água e ar para ajudar milhões de pessoas afetadas pelas últimas inundações. Entretanto, o PMA anunciou que precisa urgentemente de US$ 6,7 milhões para uma operação especial, num total de US$ 16,6 milhões, para enviar alimentos e realizar outros planos humanitários por ar. (IPS/Envolverde)

