Buenos Aires, 02/01/2007 – Causou comoção nesta quinta-feira na Argentina o desaparecimento de um homem que testemunhou contra um policial acusado de torturas nos anos 70. Esta é a segunda testemunha de julgamentos por crimes de direitos humanos desaparecida nos últimos três meses. Luis Gerez, um pedreiro de 50 anos, saiu para fazer compras na noite de quarta-feira, perto de sua casa na localidade de Escobar, na província de Buenos Aires. Desde então está desaparecido. A denúncia do caso alarmou os governos nacional e provincial e as organizações de direitos humanos.
O presidente Néstor Kirchner, que projetava um descanso em sua província natal, Santa Cruz, voltou à Casa Rosada, sede do governo, para se reunir com o ministro do Interior, Aníbal Fernández; o governador da província de Buenos Aires, Felipe Solá, e outros funcionários. A presidente da Associação Mães da Praça de Maio, Hebe Bonafini, afirmou que com estes desaparecimentos “se tenta impor o terror. Querem nos mostrar que ainda têm poder, por isso o governo deverá tomar medidas contundentes”, afirmou a ativista.
Gerez havia declarado em abril na Comissão de Petições e Regulamento da Câmara dos Deputados, um testemunho-chave para impedir que assumisse seu mandato o legislador direitista eleito Luis Patti, ex-subcomissário e ex-prefeito de Escobar, acusado de torturas e desaparecimentos cometidos nos anos 70. Geres relatou que em 1972, quando tinha 16 anos, foi detido pela polícia de Escobar. Os policias lhe colocaram um capuz, o prenderam a uma cama e o torturaram com choque elétricos para que assumisse um crime que não cometera.
“Não podia ver, mas reconheci sua voz (a de Patti) porque o conhecia; em Escobar todos nos conhecíamos nessa época. Não sei se ele me deu choque, mas fazia perguntas, era ele quem dirigia a tortura”, acrescentou. Gerez também testemunhou contra Patti em um processo pelo desaparecimento de Gastón Gonçalves, ocorrido no dia 24 de março de 1976, dia do golpe de Estado que deu início à última ditadura militar que iria até 1983. Gonçalves havia discutido com Patti, que o ameaçara de morte dias antes do seqüestro. Foi visto pela última vez na delegacia de Escobar.
Sua mulher, Ana María Granada, foi morta com 14 tiros em sua casa pouco depois do desaparecimento do marido, e um dos filhos do casal foi seqüestrado e devolvido à sua família somente nos anos 80, graças à busca feita pela organização humanitária Avós da Praça de Maio. Ao ser consultado pela imprensa sobre o desaparecimento de Gerez, Patti a considerou um fato “raro” e “preocupante”. Se “realmente este homem desapareceu, é um caso preocupante em que envolve o governo nacional e o provincial, porque quem faz essas coisas não são dois ou três”.
Mas o filho de Gastón Gonçalves, Manuel, se manifestou consternado pelo desaparecimento de Gerez, uma testemunha fundamental no processo contra Patti. “As duas vezes que declarou, perante a justiça e no Congresso, Gerez saiu tremendo. Me senti mal de vê-lo nesse estado depois de reviver as torturas e tudo aquilo, mas ele me disse que estava agradecido porque após muitos anos teve a oportunidade de ser ouvido”, disse Manuel nesta quinta-feira.
O caso Gerez seria o segundo de uma testemunha que desaparece apenas três meses depois de reabertos os processos por crimes do regime militar, após a declaração de constitucionalidade, em junho de 2005, das leis de “ponto final” e “obediência devida”, que haviam garantido a impunidade desses crimes. A primeira testemunha desaparecida foi Julio López, também pedreiro, de 77 anos, visto pela última vez em 18 de setembro após depor em um processo que acabou na condenação do ex-diretor de Investigações da Polícia da Província de Buenos Aires, Miguel Etchecolatz. Desde então, continua desaparecido.
A legisladora Araceli Méndez, da oficialista Frente para a Vitória, considerou que “os seqüestros foram feitos pelas mesmas pessoas”, em uma prática destinada a “amedrontar” testemunhas. Mas o não-governamental Centro de Estudos Legais e Sociais afirmou em um longo comunicado, nesta quinta-feira, que o desaparecimento de Gerez “deixa evidente a ineficácia das autoridades, tanto nacionais quanto provinciais, para realizar a investigação sobre o paradeiro de López e para estabelecer um sistema de proteção de vítimas e testemunhas”.
Há um mês, Gerez, militante do governante Partido Justicialista, denunciou ameaças e intimidações. Em três oportunidades, teve cortados os quatro pneus de seu carro. Foi interceptado na rua por um desconhecido e, em outra oportunidade, um homem lhe mostrou uma arma de um carro em movimento. Os dois desaparecimentos se somam ao seqüestro de Héctor Bustos, ativista de uma organização humanitária de Venado Tuerto, na província de Santa Fé.
Bustos foi colocado à força em um carro por dois homens que lhe pareceram policiais, seqüestrado por 13 dias e torturado duramente, segundo depoimento que fez quarta-feira na justiça. “Me prenderam com uma corrente, colocaram um pau no ânus e me forçaram a chupá-lo, recebi choques elétricos, parecia que tudo ia explodir”, contou. Também foi submetido à simulação de disparos com armas de fogo, marcas com cigarros no peito formando uma cruz suástica e queimaduras na genitália. “O caso é de extrema gravidade estou profundamente consternada”, disse a deputada federal Alicia Tate. “É preciso exigir seu imediato esclarecimento”, afirmou. (IPS/Envolverde)

