Cochabamba, Bolívia, 12/12/2006 – As duas cúpulas sul-americanas realizadas na semana passada na cidade boliviana de Cochabamba apresentaram rumos distintos de integração. Enquanto o encontro social colocou à frente os direitos dos povos, os presidentes se concentraram em impulsionar obras de infra-estrutura. Do encontro oficial, a II Cúpula da Comunidade Sul-americana de Nações (CSN) participaram oito presidentes. No topo da agenda deste encontro esteve a interligação física entre os 12 países do bloco.
Os mandatários aprovaram a idéia de instalar uma secretaria geral temporária da CSN por um ano no Rio de Janeiro, destinada a elaborar estudos sobre a formalização e consolidação da comunidade. Trata-se de um plano de aprofundamento das relações, segundo disse o presidente da Bolívia, Evo Morales. Mas, o trabalhão da secretaria não será fácil. Segundo representantes de vários governos e instituições financeiras presentes em Cochabamba, esse plano inclui a integração dos gasodutos, das usinas hidrelétricas e estradas, apesar da franca oposição da maioria das organizações que participaram da Cúpula Social pela Integração dos Povos, que também aconteceu nessa cidade.
“Estamos dispostos a ouvir os movimentos sociais como os que estão aqui para superar eventuais desconfianças em relação a este ou outro projeto”, disse o vice-presidente de Infra-estrutura da Corporação Andina de Fomento (CAF), Antonio Juan Sosa, em um debate durante a Cúpula Social. As organizações sociais que participaram deste encontro, e que elaboraram uma declaração com sugestões que foi entregue aos chefes de Estado sul-americanos, consideram equivocada a prioridade que os governos dão às obras públicas e destacam a importância do desenvolvimento social.
Para elas, as grandes hidrelétricas, os gasodutos e as rodovias trazem impactos sociais e ambientais que não contribuem para a integração dos povos. A CSN “Não deve ser um prolongamento do modelo de livre mercado, baseado na exportação de produtos básicos e bens naturais, fundamentada no endividamento e na distribuição desigual da riqueza”, diz o texto final da Cúpula Social, que reuniu cerca de 4.500 pessoas, na grande maioria indígenas. Mas, carentes de recursos fiscais, os presidentes preferem ser pragmáticos e aproveitar a boa oferta de créditos no mercado internacional.
Em sal declaração final, os mandatários não incluíram nenhuma sugestão apresentada pela Cúpula Social. A CAF, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) dispõem juntos de US$ 30 milhões em 2006 para empréstimos em projetos. Essas instituições estão particularmente interessadas em colocar esses recursos nas obras da Iniciativa de Integração de Infra-estrutura da Região da América do Sul (IIRSA), coordenada pelo BID. Quase todos os governos expressaram na Cúpula da CSN seu apoio à IIRSA, e três deles passaram da critica aberta ao apoio incondicional.
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, qualificou de “economicista” a iniciativa, e leu perante os demais mandatários um documento no qual os movimentos populares acusam a IIRSA de ser instrumento das multinacionais para exportar recursos naturais sul-americanos para os países ricos. Chávez também criticou a sucessão de reuniões presidenciais e sugeriu a institucionalização da CSN. “Vamos de cúpula em cúpula, e o povo vai de abismo a abismo”, afirmou. “Precisamos criar o Banco do Sul, um sistema de saúde, universidades e outras instituições que ajudem nossos povos a saírem da condição em que se encontram”, acrescentou.
Por sua vez, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, principal defensor da IIRSA, propôs que um futuro parlamento da CSN tenha como sede a cidade de Cochabamba. “Não temos o direito de falhar com o povo deste continente. Não demoraremos 50 anos para nos integrarmos, como levou a Europa. O século XXI, que não será um século perdido como o XX, será o século da América do Sul”, disse Lula. O presidente eleito do Equador, Rafael Correa, que participou da cúpula da CSN como convidado, afirmou que a maioria dos 31 projetos da IIRSA deve ser revista. Mas, deu seu apoio a alguns planos, como a construção de rodovias e portos para exportação de bens brasileiros pelo Pacífico através de seu país.
Em uma carta aberta aos movimentos da Cúpula Social, Morales também mostrou certa reticência em relação à IIRSA. Mas, seu vice-ministro de Eletricidade, Jerjes Mercado, disse à IPS que a Bolívia quer participar do primeiro e até agora maior projeto polêmico da iniciativa: a construção de duas usinas no rio Madeira, no Brasil, ambientalistas alertam que isto pode provocar inundações afetando o território boliviano.
No campo político, os encontros em Cochabamba deixaram claro que, para que a CSN possa seguir em frente é preciso unificar os dois blocos de integração: a Comunidade Andina de Nações (CAN) e o Mercado Comum do Sul (Mercosul). Analistas consideram possível que a eleição do esquerdista Rafael Correa no Equador ajude a região a caminhar nesse sentido. “Se ele confirmar sua adesão ao Mercosul, romperá o eixo neoliberal andino de Peru e Colômbia, que assinaram tratados de livre comércio com os Estados Unidos”, disse o sociólogo Edgardo lander, da Universidade Central da Venezuela e um dos teóricos da Aliança Social Continental, rede de organizações sociais que participou da cúpula paralela.
Lander deixou Cochabamba com certo otimismo, apesar de alertar diversas vezes que a CSN necessita tomar decisões concretas e sair dos “belos discursos diplomáticos”. Quanto a isto, pode ficar tranqüilo. Correa confirmou à IPS que nesta quarta-feira viajará à Argentina para discutir com o presidente Nestor Kirchner a promoção do Equador como novo membro associado do Mercosul. (IPS/Envolverde)

