Santiago, 18/12/2006 – O corpo do ex-ditador Augusto Pinochet está reduzido a um punhado de cinzas guardadas em uma das residências da família. Mas apesar de sua figura ser irrelevante no concerto político na hora de sua morte, seu legado de divisão e violência continuará marcando a sociedade chilena. O general Pinochet provocará dramáticas divisões por várias gerações no Chile, segundo analistas e observadores comuns, como indicam as demonstrações que se seguiram ao seu falecimento, no último dia 10. Mais de 50 mil pessoas se reuniram diante da Escola Militar para participar do funeral de quem encabeçou a ditadura de 17 anos.
Paralelamente, outros milhares se reuniram para comemorar diante da estátua do socialista Salvador Allende, o presidente democrático derrubado no dia 11 de setembro de 1973 a sangue e fogo pelas forças militares lideradas por Pinochet. A figura de Allende, morto em seu escritório enquanto a sede do governo era bombardeada, fica na entrada de trás do reconstruído palácio de La Moneda, junto às de outros mandatários eleitos democraticamente como Jorge Alessandri Rodríguez (1958-1964) e Eduardo Frei Montalva (1964-1970).
Elizabeth, uma analista de sistemas de computação de 35 anos acredita que a polarização em torno da figura do ex-ditador nunca acabará totalmente, “porque nenhum dos dois lados perdoa”. Uma única alternativa para fechar as feridas é que “apareçam os presos-desparecidos”, diz, em alusão às 1.119 pessoas assassinadas cujos corpos não foram encontrados, que se somam ao saldo fatal da ditadura de outros 1.800 opositores assassinados, 35 mil torturados e oito mil forçados a partirem para o exílio, entre eles a hoje presidente do Chile, Michelle Bachelet.
“Enquanto não forem encontrados, o pesar sempre existirá e isso se transmite de geração para geração”, disse Elizabeth à IPS. Precisamente, as associações de familiares das vítimas de violações dos direitos humanos entendem que a morte de Pinochet não significa o fim dos julgamentos em andamento relacionados a estes crimes, como os que continuam por corrupção durante o regime. Também Alfredo, um declarado “pinochetista” de 31 anos, pensa que a sociedade chilena continuará fragmentada por muitos anos, embora tenha uma visão diferente.
“Para acabar com a divisão é preciso que os dois lados reconheçam seus erros e façam gestos reais de unidade, como uma verdadeira lei de anistia”, disse à IPS este estudante de engenharia, que no entanto reconhece que para alguns militares faltou a vontade de revelar o destino dos desaparecidos. Ele nega que os seguidores de Pinochet sejam fanáticos. “Se trata apenas de enaltecer a figura de um herói, do único libertador do marxismo no mundo”, justificou.
A presidente Bachelet se referiu pela primeira vez à morte do ex-ditador três dias após ter ocorrido, dizendo que “simboliza a partida de uma referência de um clima no país de divisões, ódio e violência”. Mas afirmou que o desaparecimento físico de Pinochet não dá lugar a outra era. “A nova etapa vivida pelo Chile começou em 1990, quando reconquistamos a democracia”, afirmou a mandatária, que foi apoiada em seu discurso pela Concertação de Partidos pela Democracia, a coalizão de centro-esquerda que reúne quatro coletividades e que governa o Chile há 16 anos.
Entre os fatos ocorridos após a morte de Pinochet e que os analistas situam com ilustrativos está a atitude de seu neto, Augusto Pinochet Molina, que lhe valeu baixa do Exército. O agora ex-capitão, de 33 anos, justificou a ditadura em um discurso fora de programa ao terminar a cerimônia fúnebre, dizendo que seu avô foi “um dos líderes mais proeminentes do mundo em sua época, um homem que derrotou em plena Guerra Fria o modelo marxista que pretendia impor seu modelo diretamente pela ação armada”.
Pinochet “teve de ver como sua mulher e sua família sentiam-se vexados por juízes que buscavam mais a fama do que a justiça”, disse em seu discurso se referindo ao juiz chileno Juan Guzmán Tapia, hoje aposentado, que esteve prestes a condená-lo, e ao espanhol Baltasar Garzón, que em 1998 pediu sua extradição à Espanha. Poucas horas depois e após uma dura declaração de Bachelet, foi expulso do Exército. Outro neto, este do assassinado general Carlos Prats, ex-comandante-em-chefe do Exército durante o governo de Allende, teve uma atitude totalmente oposta. Pôde se aproximar do caixão do ex-ditador e cuspir sobre ele na madrugada do dia 12, quando era velado na Escola Militar.
Francisco Cuadrado Prats, um artista plástico, esperou pacientemente várias horas cercado de pinochetistas para poder descarregar dessa forma sua fúria pelo atentado que custou a vida de seus avós. Pratis e sua mulher, Sofia Cuthbert, cometido em 1976 em Buenos Aires por agentes da extinta Direção de Inteligência Nacional (Dina) do regime ditatorial chileno. Mas também se sucederam análises sobre a incidência da morte do ex-ditador no futuro político do país.
Em outra reflexão, o sociólogo Rodrigo Baño, da Universidade do Chile, disse à IPS que Pinochet não só divide os chilenos em matéria de política ideológica, como também social. “Os seguidores de Pinochet e seus críticos são socialmente muito diferentes”, disse o acadêmico, explicando que o empresariado e a classe alta, que chegaram em massa ao funeral, apóiam o falecido militar, enquanto as camadas mais populares, majoritariamente, o repudiam.
Baño explica que a divisão social começou durante o governo de Allende e se agravou na ditadura, situação que se mantém até hoje e que é muito complicado de corrigir. Por está razão, não pode estimar o tempo que a sociedade chilena continuará dividida por obra do ex-ditador. “Depende do processo político e do grau de integração que se alcance”, afirmou. Entretanto, acredita que diante de uma crise econômica, momentos em que se agravam as contradições, pode surgir outra liderança, que substitua a de Pinochet. “A vinculação (da direita a Pinochet) se manterá até aparecer uma nova alternativa”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

