Cuba-EUA: Sinuoso caminho de encontro

Havana, 19/12/2006 – A delegação bipartidária dos Estados Unidos que visitou Cuba durante três dias parece ter aberto o caminho para uma futura aproximação entre os dois países, que, finalmente, permita deixar para trás mais de quatro décadas de duros enfrentamentos. No momento, o caminho se mostra estreito e cheio de obstáculos, após um ano em que a doença do presidente cubano, Fidel Castro, com 47 de seus 80 anos no poder, lançou as mais variadas conjecturas sobre o destino deste país e seu modelo socialista. Para observadores, o mais importante da visita, que começou na sexta-feira, e terminou no domingo, por 10 congressistas favoráveis à mudança na política de Washington para Havana foi o momento em que se realizou.

Castro ainda está convalescendo de uma complexa operação do estômago e seu lugar à frente do Conselho de Estado e do Partido Comunista de Cuba é ocupado temporariamente por seu irmão mais novo, Raúl Castro, designado constitucionalmente para suceder o presidente em caso de doença ou morte. Entretanto, ninguém em Cuba se refere oficialmente a Raúl, de 75 anos, como “presidente interino”, pois continua sendo o ministro das Forças Armadas Revolucionárias (FAR), primeiro vice-presidente do Conselho de Estado e segundo secretário do PCC.

Segundo fontes próximas do líder cubano, uma de suas primeiras reflexões depois da cirurgia foi perguntar a reação dos “ianques”, que tinham um plano para uma Cuba “com Fidel” e outro para uma Cuba “sem Fidel”, mas, não para uma situação em que o governante, ao mesmo tempo, “está e não está”. A espécie de arranjo contado pelo político direitista chileno Joaquín Lavín, em uma reportagem que escreveu após visitar Cuba em novembro, tem sua lógica e, de certa maneira, poderia explicar porque Raúl Castro não se encontrou com os congressistas norte-americanos, mesmo com o risco de provocar mal-estar entre os visitantes.

“Se Raúl os recebesse, partiriam com uma mensagem equivocada”, disse à IPS um estudioso do tema que preferiu não ser identificado. Em sua opinião, o chefe dos corpos armados cubanos tampouco “iria além” do que disse no dia 2 deste mês. Nessa ocasião, o mandatário interino reiterou que o governo cubano está disposto a resolver na mesa de negociações o prolongado enfrentamento com os Estados Unidos, mas, sob princípios de igualdade, não-ingerência e respeito mútuo.

“É o momento para que os Estados Unidos dialoguem com Cuba”, concluíram os congressistas ao fim de suas maratônicas jornadas neste país do Caribe, que fica a apenas 140 quilômetros da costa do Estado norte-americano da Flórida. Sem deixar de recordar que Washington tem fortes desacordos com Havana, o grupo acredita que se deveria começar a trabalhar em assuntos de imigração, luta contra o tráfico de drogas, exploração de petróleo e colaboração judicial.

Os temas mencionados também são de especial interesse para Cuba, que apresentou propostas concretas sobre colaboração no combate ao narcotráfico e em 1994 e 1995 assinou com Washington acordos migratórios cuja revisão semestral foi suspensa pelo governo do presidente George W. Bush. Por sua vez, Havana não exclui empresas norte-americanas da busca por petróleo em águas do golfo do México, tarefa na qual estaria por unir-se a estatal Petróleo Venezuelanos S.A (Pdvsa), segundo anunciou na sexta-feira o próprio presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

“Deveríamos estar conversando sobre a exploração de petróleo em águas profundas de Cuba, devido ao seu potencial impacto em nosso próprio meio ambiente marinho”, dizia o texto lido por Jeff Flake, do governante Partido Republicano e co-autor de um projeto de lei para permitir que empresas de seu país explorem nessa área. Cuba abriu para licitação em 1999 um total de 59 blocos marítimos nessa área e atualmente são seis os países com empresas que possuem concessões, entre elas a canadense Sherrit Internacional e a hispano-argentina Repsol YPF, que desde meados deste ano compartilha ações com as companhias Ongc Videhs, da Índia, e Norks Hydro, da Noruega.

A delegação, encabeçada por Flake e William Delajunt, do opositor Partido Democrata, se entrevistou com os ministros cubanos Felipe Pérez Roque, das Relações Exteriores; Yadira García Vera, da Indústria Básica, e Francisco Soberón, ministro-presidente do Banco Central. Os legisladores norte-americanos também conversaram com o presidente da Assembléia Nacional do Poder Popular (parlamento), Ricardo Alarcón; com o chefe de Relações Internacionais do PCC, Fernando Remírez, e com Pedro Alvarez, diretor da Alimport (empresa importadora de alimentos).

Entre os contatos não oficiais se contaram os realizados com o cardeal católico jaime Ortega; com o chefe do Escritório de Interesses dos Estados Unidos em Havana, Michael Parmly, e com diplomatas acreditados em Cuba da Espanha, Grã-Bretanha, Canadá, França, Alemanha, Suíça e Vaticano. A agenda não incluiu setores da oposição, sinal que não passou despercebido pelas autoridades de Cuba. Um dia antes da chegada dos norte-americanos, um editorial do jornal estatal Granma reiterou que não se permitirá a opositores receber dinheiro dos Estados Unidos como parte dos planos subversivos contra o país.

A delegação norte-americana era formada, além de Flake e Delahunt, pelos congressistas democratas James P. McGovern, Jane Harman, Gregoy Meeks, Lincoln Davis e Hilda Solis e pelos republicanos Jo Ann Emerson, Jerry Moran y Mike Conaway. Todos fazem parte do chamado Grupo de Trabalho sobre Cuba, criado há dois anos por Delahunt e Flake, com o objetivo de mudar ou reconfigurar as relações bilaterais. (IPS/Envolverde)

Patricia Grogg

Patricia Grogg es chilena y reside en La Habana. Se desempeña como corresponsal permanente de IPS en Cuba desde 1998. Estudió gramática y literatura española en la Universidad de Chile, y periodismo en la Universidad de La Habana. Trabajó como reportera, jefa de redacción y editora en la agencia cubana Prensa Latina. A mediados de la década de 1990 se incorporó por unos meses como jefa de redacción a la agencia Notimex en Santiago de Chile. Desde Cuba también ha colaborado con medios de prensa mexicanos y chilenos. En su labor cotidiana investiga temas sociales, políticos, energéticos, agrícolas y económicos.

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