Havana, 18/12/2006 – Uma delegação bipartidária dos Estados Unidos favorável à mudança da política desse país em relação a Cuba, iniciou na sexta-feira, em Havana, seus contatos de aproximação com o governo e setores da sociedade civil. A visita, que terminou no domingo, é observada com uma expectativa especial já que ocorre enquanto o presidente cubano, Fidel Castro, convalesce de uma operação intestinal e é substituído provisoriamente por seu irmão Raúl Castro. Além disso, a missão integrada por 10 congressistas dos partidos Republicano (governo) e Democrata é a maior que já chegou a Cuba em mais de quatro décadas de forte confronto e ausência de vínculos diplomáticos entre Washington e Havana.
Em suas primeiras declarações ao chegar à capital cubana, o democrata William Delahunt e o republicano Jeff Flake consideraram que entre as duas nações pode haver pontos de acordo, apesar das diferenças. “Nosso interesse é que haja mais diálogo entre os governos de Cuba e dos Estados Unidos”, afirmou Flake, que espera que esta viagem ajude nesse objetivo e para “um novo capítulo nas relações”. Após recordar que o Congresso norte-americano estará a partir de janeiro sob “uma liderança diferente (democrata), “Delahunt disse, por sua vez, que há setores dos dois partidos desejosos de se envolverem no diálogo”. Nesse sentido, considerou possível determinar áreas nas quais “podemos estar de acordo, apesar do fato de continuarmos tendo, estou certo, profundas diferenças com o governo de Cuba”.
Os congressistas iniciaram sua agenda com uma visita à Alimport, a empresa estatal cubana que monopoliza as compras de alimentos nos Estados Unidos, permitidas por disposições legais desde 2000, que são uma exceção ao embargo comercial. Também se prevê um encontro com o cardeal católico Jaime Ortega e entrevistas com o presidente da Assembléia Nacional do Poder Popular (parlamento), Ricardo Alarcón; com o chanceler, Felipe Pérez Roque; com a ministra da Indústria Básica, Yadira García Vera, e com o ministro-presidente do Banco Central, Francisco Soberón.
Meios próximos à delegação que a idéia dos visitantes é fazer uma análise da situação e manter contatos com funcionários-chave do governo. Entretanto, o programa não contemplará – o que não signifique que esteja descartado – um encontro com Raúl Castro. No último dia 2, o mandatário disse em um discurso que o país opta pelas soluções políticas dos conflitos e se manifestou disposto a resolver na mesa de negociações a prolongada questão com os Estados Unidos. “Claro, sempre que aceitem, com já dissemos em outras ocasiões, nossa condição de país que não tolera sombras à sua independência e com base nos princípios de igualdade, reciprocidade, não-ingerência e respeito mútuo”, ressaltou Raúl Castro.
As relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba estão interrompidas desde 1961, embora desde 1977 mantenham em suas respectivas capitais Escritórios de Interesses encarregados, fundamentalmente, de cuidar de assuntos ligados à migração. Segundo Raúl Castro, Havana está disposta a esperar pacientemente o momento em que se imponha o senso comum na conduta dos círculos de poder em Washington. A delegação norte-americana se completa com os democratas James P. Mcgovern, Jane Harman, Gregory Meeks, Lincoln Davis e Hilda Solis, e com os republicanos Jo Ann Emerson, Jerry Moran, e Mike Conaway.
Todos integram o chamado Grupo de Trabalho sobre Cuba, criado há dois anos por Delahunt e Falke, com o objetivo de mudar ou reconfigurar as relações bilaterais com enfoque particular nas viagens. No entanto, setores de oposição consultados pela IPS disseram que até sexta-feira não haviam sido convidados para se reunir com os representantes norte-americanos, um tema que os dois legisladores líderes preferiram, evitar em seu breve contato com jornalistas da imprensa estrangeira acreditada em Cuba. “Eles esperam ser recebidos em um nível muito alto, e disso depende um encontro conosco”, disse Elizardo Sánchez, presidente da Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional.
Para Manuel Cuesta Morúa, porta-voz da coalizão de cunho social-democrata Arco Progressista, o mais importante é apreciar “uma resposta rápida da classe política norte-americana ao convite do governo cubano para uma mesa de diálogo”. Também é um “passo interessante para o possível degelo das tensas relações entre os dois países”, acrescentou este dirigente oposicionista, que considerou que “a curto prazo poderia haver uma flexibilização em matéria de viagens e remessas de dinheiro, mas não com relação ao embargo”.
Neste último aspecto concordou com o também opositor Eloy Gutiérrez Menoyo, da organização Cambio Cubano, criada durante seu exílio em Miami nos anos 90. “Mas durante o governo de George W. Bush a via do confronto continuará, e isso não contribui para a democratização de Cuba”, afirmou Gutiérrez. Menoyo, que ainda aguarda autorização legal para viver em seu país, para onde regressou em 2003 desde os Estados Unidos. (IPS/Envolverde)

