México, 28/12/2006 – A economia latino-americana vai de vento em popa há quatro anos, período no qual também foi registrada uma histórica redução da pobreza. Mas alguns especialistas e dirigentes de esquerda questionam o modelo econômico e ao futuro positivo previsto pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). A pobreza caiu na região quatro pontos percentuais entre 2002 e 2006, enquanto o produto interno bruto cresceu, nesses anos, à razão de 4%, em média, e assim continuará em 2007. Entretanto, esses números não convencem totalmente setores políticos, analistas, grupos populacionais e ativistas.
“É compreensível que em países com altas taxas de pobreza e desigualdade haja grandes setores da população que não vêem os benefícios das políticas aplicadas”, mas a situação hoje é positiva e a região está melhor preparada do que no passado para dar-lhe continuidade, disse à IPS Jürgen Weller, oficial de Assuntos Econômicos da Cepal.
De acordo com esta agência da Organização das Nações Unidas, as correias de transmissão da bonança regional são, entre outras, os altos preços mundiais de produtos primários nos quais parte da região se especializa; a disciplina fiscal mantida pelos governos, independente do perfil ideológico, e o aumento das remessas de dinheiro enviadas por imigrantes aos seus países de origem. A Cepal também assinala a queda da inflação, o aumento da demanda interna, baixa dos juros da dívida pública e sua conversão, em parte, de dólares para moedas nacionais.
Nesse contexto, a região cresce e consegue reduzir sua pobreza. Mas ainda permanecem nesta situação 205 milhões de pessoas, equivalentes a 38,5% da população total, enquanto os indigentes somam 78 milhões, ou 17,7% dos habitantes. “Falar com otimismo do suposto crescimento é um insulto para os milhões que pensamos que com este sistema neoliberal, aplicado tanto nos países com governos de centro ou esquerda quanto de direita, jamais haverá justiça social verdadeira”, disse à IPS José Valdez, ativista mexicano de esquerda.
“O que vivemos agora é uma ilusão de números, nada mais”, acrescentou Valdez, que participa da chamada “Outra Campanha”, um movimento social contestatório de militantes de esquerda que não participam de eleições no atípico grupo insurgente Exército Zapatista de Libertação Nacional, com centro no Estado de Chiapas. Diante desta crítica, Weller, admite que “não se pode negar os problemas que a população ainda sofre”, mas entende que “o manejo macroeconômico atual, que aproveita as oportunidades da economia mundial, mantém disciplina fiscal, reforça o aparelho produtivo para torná-lo mais competitivo e desenvolve programas sociais” está dando resultados.
Entretanto, é preciso manter “um otimismo cauteloso”, pois, embora os dados mostrem uma tendência favorável, a região ainda deve trabalhar muito em matéria de desenvolvimento produtivo, onde as matérias-primas de exportação se complementem com áreas de maior inovação. Também falta investir mais em educação e tecnologia, e também aprofundar os programas sociais, afirmou Weller. “Em comparação com os anos 90, agora o crescimento tem bases mais sólidas, o que nos dá a esperança de que no futuro a situação mude. Mas, obviamente, ainda há muito a ser feito”, ressaltou o especialista da Cepal.
Germán de la Reza, especialista em economia e temas de integração, questiona a perspectiva da Cepal. Ele considera apressado tirar conclusões considerando os últimos quatro anos de desempenho da região, pois entende que se trata de um período que não permite projetar uma tendência sustentada. “Que tal se em lugar dos últimos quatro anos pegássemos a última década? Nesse período a taxa anual de variação do PIB não mostra um crescimento, mas uma curva em U com índices superiores a 5% nos dois extremos e com um centro quase inferior a 1%”, explicou este professor da Universidade de Paris-Sorbonne e da Universidade Autônoma Metropolitana.
“O que os números sugerem é que estamos diante de um efeito que não significa uma tendência sustentada de crescimento”, acrescentou De la Reza ao ser consultado pela IPS. Para ele, a Argentina é o exemplo mais claro disso, ao apresentar indicadores negativos entre 1999 e 2002, para, em seguida, dar lugar a uma taxa positiva no quadriênio seguinte. Esse desempenho – acrescentou – em diferente medida também pode ser observado no Chile, México, Equador, Paraguai, Uruguai e Venezuela. No caso venezuelano, a taxa de crescimento está entre as mais baixas entre 1999 e 2003 e entre as mais altas de 2004 a 2006.
No positivo desempenho médio da região há uma acentuada heterogeneidade. Venezuela, Uruguai e Argentina cresceram em 2006 a taxas entre 7,3% e 10%, e, embora se espera uma leve baixa, as economias desses países continuarão em 2007 com um desempenho de 6%. Crescimentos extraordinários apresentaram Antigua e Barbuda e Trinidad e Tobago, com mais de 11% de seu PIB em 2006. Na outra ponta, os de menor crescimento no ano que termina foram Haiti e Guiana com menos de 2,5%.
Para 2007, espera-se uma ligeira desaceleração da economia regional e projeta-se um aumento médio da ordem de 4,7%, que permitiria um crescimento do produto por habitante acumulado em torno dos 15% no período 2003-2007, o que equivale a uma média anual de 2,8%, segundo a Cepal.
Weller afirmou que “o crescimento econômico é uma condição necessária para gerar renda e níveis de bem-estar social, mas também acreditamos que isso não é suficiente”. Alertou que a economia latino-americana e caribenha tem uma dependência excessiva de suas exportações de produtos primários como os do setor agropecuário, petróleo, cobre, ouro e outros, o que traz sérios perigos, pois não se pode esperar que seus atuais preços continuem sempre em alta.
Por sua vez, De la Reza disse que, embora os países agora mostrem um desempenho positivo, há nuvens negras no ar. “Embora o aumento do preço das exportações seja um fato positivo em si, não é menor o que se deve a fatores conjunturais (grande demanda da China e da Índia) e que são acompanhados por persistentes dificuldades de acesso aos mercados de países mais desenvolvidos”, afirmou.
No manejo responsável das finanças públicas, que segundo a Cepal é um fator central no crescimento da região, De la Reza não vê nenhum fato relevante. “É certo que os países trabalham com ortodoxia nesse campo, mas não creio que isto seja irreversível. Se há circunstâncias distintas, pode mudar, e isso não é necessariamente negativo”, afirmou. “É que o crescimento não pode ser reduzido ao tema do manejo macroeconômico. Um governo em crise, do que ninguém está livre, tende a ser indisciplinado em relação à ortodoxia, e já vimos isso na Argentina. Depois do colapso (no final de 2001) se revelou perante os bancos estrangeiros (de modo obrigatório) e o fez funcionar”, ressaltou.
Mas a Cepal insiste em que, pelo menos a médio prazo, a região seguirá por um caminho de relativa tranqüilidade e crescimento. Esta agência da ONU afirma que, diante do “possível esfriamento mais ou menos acentuado do crescimento global” no próximo ano, a América Latina e o Caribe poderão sentir o impacto. Entretanto, insiste em que a região está melhor preparada do que no passado para enfrentar um cenário desse tipo. (IPS/Envolverde)

