Desafios 2006-2007: Iraque sem fé no governo

Bagdá, 28/12/2006 – O governo do Iraque, liderado pelo primeiro-ministro Nouri Al-Malikik, parece ter acabado de vez com os sonhos de paz e desenvolvimento da população. As eleições gerais do dia 15 de dezembro de 2005 levaram ao poder funcionários que deveriam ouvir todos os iraquianos. Foi chamado governo de unidade porque o gabinete incluía ministros de todas as seitas religiosas e grupos étnicos, após meses de negociações no parlamento.

“Este é um governo de unidade que não deveria ser objetado por ninguém”, disse Al-Maliki a jornalistas em Bagdá há alguns dias. “Todos os poderes no parlamento devem assumir sua cota na melhoria da segurança e dos serviços para, assim, poder atingir o sucesso”, acrescentou. O primeiro-ministro condenou grupos como o Jabhat al-Tawafuq, e a Frente Iraquiana para o Diálogo Nacional, críticos de seu governo.

Jabhat al-Tawafuq é formado por três grupos sunitas: o partido Iraquiano Islâmico, a Conferência Popular Iraquiana e o Conselho de Diálogo Nacional. Sua plataforma é a unidade nacional e o fim da ocupação estrangeira. Mas líderes da oposição acusam Al-Maliki de privá-los de mais espaço em sua administração e, portanto, negam que se trate de um governo de unidade. “Na realidade, não estamos no governo. Al-Maliki e sua coalizão nunca nos deu nenhum verdadeiro papel no governo, e as ações de nossos ministros, portanto, estão paralisadas”, disse à IPS um dos dois vice-presidentes do Iraque, Tariq al-Hashimi, líder do Partido Islâmico.

O grupo de Hashimi, como outros sunitas e os xiitas moderados, praticamente não tem voz no governo. A coalizão xiita dominante foi formada segundo o conselho do grande aiatolá Alí Al-Sistani, reverenciado clérigo xiita nascido no Irã e radicado na cidade iraquiana de Nayaf. Esta coalizão foi criada para vencer nas eleições uma lista de partidos seculares liderados pelo ex-primeiro-ministro Iyad Allawi. O peso da coalizão xiita fez com que os sunitas opositores se unissem em uma lista comum, enquanto os curdos fizeram o mesmo. Todo o processo político esteve dividido em linhas religiosas e étnicas.

Neste cenário, poucos iraquianos se surpreendem pelo fato de o governo estar fraturado e fragmentado. “Este governo definitivamente levará o país ao desastre. O país afundará em uma guerra civil se continuarem as atitudes sectárias, e é por isso que decidimos não participar deste governo”, disse à IPS Salih al-Mutlaq, líder da Frente Iraquiana para o Diálogo Nacional. O ex-primeiro-ministro Ibrahim al-Jaafari era apoiado pelo clérigo xiita Muqtada al-Sadr e rejeitado por todos os demais grupos, e, inclusive, por alguns setores dentro da coalizão governante.

Depois assumiu o cargo Al-Maliki, que se comprometeu a fazer uma justa distribuição do gabinete entre os setores ganhadores e um trato eqüitativo com todos os iraquianos sem importar sua identidade religiosa ou étnica. “As coisas só estão piorando, e este governo e o parlamento levam o título de piores da história do Iraque. Todo o sistema precisa ser mudado, ou o país será dividido em pequenos estados e a catástrofe será muito grande para ser corrigida”, disse à IPS Thafir al-Ani, do Jabhat al-Tawafuq.

Al-Ani citou recentes pesquisas nas quais 90% dos iraquianos estão descontentes com o governo, principalmente pela incessante violência e falta de empregos e serviços básicos como água e eletricidade. Uma das maiores sombras sobre a legitimidade do governo iraquiano é o alinhamento de altos funcionários com o xiita Movimento Sadr, acusado de apoiar a maioria dos esquadrões da morte sectários responsáveis por massacres de sunitas.

“Este governo não cumpriu nenhuma das promessas feitas aos iraquianos, e por isso agora todos querem mudá-lo”, disse à IPS o porta-voz da Associação de Eruditos Muçulmanos, Muhammad Basher al-Faidhy. Inclusive, os iraquianos “lamentam ter participado das eleições. Nossa Associação alertou que este seria o pior de todos os governos. Simplesmente não se desfizeram dos esquadrões da morte porque são seu maior aliado”, acrescentou.

A maioria dos iraquianos não vê futuro no governo de Al-Maliki, que apenas pode controlar a segurança da chamada Zona Verde em Bagdá, onde ficam seus escritórios. O restante do país está fragmentado, e a economia e a infra-estrutura em ruínas. “Estão afundando apesar do forte apoio que têm dos Estados Unidos”, disse à IPS o analista Maki al-Nazzal. “Enfrentam uma crítica internacional por seu rotundo fracasso em melhorar a situação de segurança e pelo completo colapso dos serviços e dos planos de reconstrução”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

Ali al-Fadhily

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