Balcãs: Otan bombardeia o passado

Belgrado, 01/12/2006 – A Organização do Tratado do Atlântico Norte convidou três países que formavam a antiga Igusolávia, incluída a Sérvia, que foi bombardeada por essa aliança em 1996, a participarem do programa de cooperação militar Associação para a Paz. “Considerando a prolongada estabilidade nos Bálcãs ocidentais e reconhecendo o progresso feito por Bósnia-Herzegovina, Montenegro e Sérvia”, a cúpula da Otan realizada terça-feira e quarta-feira em Riga convidou esses países a participarem do programa, como indica sua declaração final. A Associação para a Paz prevê a assistência da Otan na modernização dos exércitos e na realização de reformas no sistema de defesa.

Implementado em 1994, o programa pretende consolidar a confiança entre a aliança ocidental de segurança e os países da Europa oriental. Mas, também supõe mais um passo rumo à integração plena dessas nações na organização. Importantes políticos sérvios aplaudiram a decisão, a qual consideraram como uma prova da reintegração de seu país na comunidade internacional após anos de isolamento. “São notícias excelentes”, exclamou o presidente da Sérvia, Boris Tadic, em uma declaração transmitida por todas as emissoras de rádio e televisão.

“Excelentes notícias para nossos cidadãos, para o exército e para o Estado. Os esforços dedicados às reformas tiveram sua recompensa com este convite, que apresenta a Sérvia como um local mais seguro”, disse Tadic. Para a alta funcionária do Ministério da Defesa Snezana Markovic, a integração à Associação para a Paz é um passo histórico. “Isto prova que as reformas militares dos últimos anos foram um sucesso e que o exército da Sérvia já não pode ser tratado como um fator que pretende reverter o tempo”, acrescentou. Desde 2000, o exército sérvio passa por um doloroso processo de transformação, de ferramenta armada de um regime comunista para uma força pequena e moderna.

Porém, no alvoroço causado pela notícia, nenhum político recordou que a Sérvia é o único país bombardeado pela Otan que cedo ou tarde vai se integrar ao seu programa da Associação para a Paz. Em 1999, a aliança militar assolou desde o ar a Sérvia durante 11 semanas para combater as políticas repressivas do então presidente Slobodan Milosevic (1989-2000) contra a província de Kosovo, de maioria étnica albanesa. Seus aviões realizaram mais de 38 mil missões de ataque contra objetivos sérvios, utilizando armamento sofisticado e também bombas de fragmentação e armas com urânio empobrecido.

O saldo da guerra foi de, pelo menos, dois mil mortos. A infra-estrutura do país, pontes importantes sobre o rio Danúbio e a estrada que corta o país de norte a sul ficaram muito danificadas. As ruínas do centro de Belgrado são lembranças das incursões da Otan nessa época. Mas, os analisas celebraram o convite feito pela aliança dizendo que, não faz muito tempo, duas das nações convidadas para fazer parte da Associação para a Paz eram inimigas. “Este é um passo definitivo na direção correta para a região e sua estabilidade”, disse à IPS o especialista em questões militares Aleksandar Radic. “Não faz muito tempo, a Sérvia estava em guerra com seus ex-irmãos iugoslavos”, afirmou.

No governo de Milosevic, a Sérvia enfrentou a Bósnia-Herzegovina em uma guerra sangrenta que terminou há 11 anos e fez, no mínimo, cem mil vítimas fatias entre a população sérvia. O vestígio daqueles tempos continuou presente no caminho diplomático deste país. A Otan havia insistido para que a Sérvia cooperasse plenamente na detenção de criminosos de guerra sérvios foragidos, antes de convidá-la a participar da Associação para a paz.

“Obviamente, para Bruxelas é menos prejudicial aceitar o Sérvia nessa associação do que deixar os Balcãs como um buraco negro no processo de estabilizar e garantir a segurança da região”, afirmou Radic. Isto também se constitui uma mensagem política de apoio da Otan aos partidos democratas que irão disputar as eleições parlamentares do próximo dia 21 de janeiro, ressaltou.

Espera-se que essas eleições sejam o confronto final entre os partidos reformistas, atualmente no governo, e os ultranacionalistas que levaram o país às guerras da década de 90. Estes últimos têm a preferência de 30% a 35% dos entrevistados pelas pesquisas, entre os 6,5 milhões de eleitores aptos a votar. Muitos sérvios pró-ocidentais acreditam que os ultranacionalistas podem empurrar o país para o tipo de isolamento que se viveu nessa década. Na Bósnia-Herzegovina e em Montenegro também se aplaudiu o convite feito pela Otan. O chanceler bósnio, Mladen Ivanic, disse à imprensa em Sarajvo que se trata de “uma recompensa pelas coisas positivas que o país havia conseguido”. Por sua vez, o presidente montenegrino, Filip Vujanovic, também felicitou a iniciativa. (IPS/Envolverde)

Vesna Peric Zimonjic

Vesna Peric Zimonjic is a freelance journalist working from the Balkan region with more than three decades of experience. She has contributed to IPS since the disintegration of the former Yugoslavia in 1991. Vesna also conducts political analyses of the region and contributes to the London-based daily The Independent, BBC World Service and German Deutsche Welle radio and television.

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