Irã: Fracasso diplomático de Condoleezza pode levar à guerra

Washington, 06/12/2006 – A resistência da China e da Rússia condena ao fracasso os esforços da chefe da diplomacia norte-americana, Condoleezza Rice, pela aprovação de sanções contra o Irã no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Os beneficiários do fracasso em Washington serão o vice-presidente, Dick Cheney, e outros membros da ala mais conservadora do governo, que se preparam para pressionar o presidente George W. Bush para que autorize o planejamento de um ataque aéreo contra o Irã. Durante mais de sete meses Rice baseou sua estratégia sobre a consolidação de uma aliança que integrará os outros cinco membros permanentes do Conselho – China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia – mais a Alemanha.

A secretária de Estado supunha que tão ampla coalizão poderia chegar a um acordo para punir o Irã por negar-se e acabar com seu programa de desenvolvimento nuclear, que inclui o enriquecimento de urânio. Rice e o subsecretário de Estado para Assuntos Políticos, Nicholas Burns, que coordena a política referente ao Irã, expressaram publicamente em setembro sua confiança em que a coalizão permaneceria unida. Mas, a estratégia unilateral de Rice navega sem rumo preciso em meio a uma poderosa onda geopolítica. Rússia e China não têm nenhum interesse em enfraquecer o Irã, e durante meses haviam assinalado que não iriam aderir à estratégia de Condoleezza Rice.

Em maio, a secretária propôs uma concessão: participar de negociações diretas com Teerã em troca de que as outras cinco potências da coalizão aprovassem sanções previstas no Capítulo VII da Carta da ONU. Porém, Moscou e Pequim bloquearam esse plano. A proposta apresentada ao Irã pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha não continha nenhuma referencia a tais sanções. Agora, Rússia e China insistem em que qualquer resolução sobre o programa nuclear do Irã as exclua.

No mês passado, os europeus divulgaram um projeto que proibiria os países da ONU de vender e fornecer uma longa lista de equipamentos e tecnologia para os programas nucleares e de mísseis balísticos iranianos, bem como seu financiamento. A iniciativa estipularia que os Estados também impediram as viagens de funcionários iranianos ligados a esses programas e que, além disso, congelariam seus bens. Mas, o projeto não qualificava o programa nuclear de Teerã como uma ameaça à paz e à segurança internacional, com pretendia Rice.

Além disso, teria permitido a Moscou continuar cooperando na construção do reator nuclear na cidade iraniana de Bushehr. O jornal The Washington Post informou no dia 25 de outubro que Condoleezza Rice propusera emendas nesse sentido. Mas, os europeus as rejeitaram, e o então embaixador norte-americano na ONU, John Bolton (que acaba de renunciar ao cargo) ameaçou retirar o apoio à iniciativa. Britânicos, franceses e alemães mantiveram o projeto de resolução no Conselho de Segurança. Entretanto, os russos insistiram em impor sanções menos duras do que as incluídas no projeto europeu.

No início de novembro, as negociações entre as seis nações chegaram a um ponto morto. Agora, a União Européia fez circular um projeto que proibiria a exportação ao Irã de elementos utilizáveis em uma arma nuclear ou míssil balístico, segundo informou na semana passada o jornalista Bill Varner, da agencia de notícias Bloomberg. Mas, o texto apresentado mantém a proibição das viagens e o congelamento de bens de funcionários iranianos que a Rússia havia objetado antes.

O chanceler russo, Sergei Lavrov, esclareceu na sexta-feira que Moscou apoiaria “sanções para impedir que materiais nucleares e tecnologias delicadas entrem no Irã”, mas, foi contra sanções dirigidas a indivíduos. “A Rússia é contra castigar o Irã”, afirmou. A posição russa implica, se for aprovada, que a resolução nem mesmo teria tanta força quanto o compromisso já assumido pelo Grupo de Fornecedores Nucleares, organização multilateral formada pelos 45 países que possuem a tecnologia necessária para fabricar armas atômicas ou mísseis balísticos.

O iminente colapso da coalizão de Condoleezza Rice a respeito das sanções ao Irã reflete o conflito de interesses entre os governo de Bush e Vladimir Putin, não apenas quanto ao programa nuclear iraniano, mas, sobre assuntos geopolíticos mais amplos. Moscou não pretende cooperar com o surgimento de arsenais nucleares em países que hoje não os possuem, mas, “não colocará em risco o vínculo político com potências regionais” para apoiar os esforços de Washington, disse Celeste A. Wallander, da Universidade de Georgetown.

O conflito pelo desenvolvimento nuclear iraniano é visto por 20 funcionários russos da área da defesa entrevistados pela especialista, aposentados e em atividade, como um assunto geopolítico. Os informantes de Wallander duvidam que a verdadeira preocupação dos Estados Unidos seja a não-proliferação de armas atômicas. A Casa Branca deveria atender as preocupações de Teerã – a insegurança desse país e o temor que lhe desperta a agressiva política externa norte-americana – em lugar de se concentrar em seu desenvolvimento nuclear.

A China tem interesses paralelos aos da Rússia a esse respeito. Cercada pelas alianças dos Estados Unidos com Japão, Índia e coréia do Sul, procura fortalecer sua associação estratégica com o governo de Putin, particularmente desde a invasão do Iraque. Tanto Pequim quanto Moscou parecem ver a Organização de Cooperação de Xangai como um veículo para se contrapor ao poder dos Estados Unidos na Ásia. Em 2005, Rússia e China assinalaram seu interesse conjunto em cooperar com o Irã contra as pressões de Washington ao convidar o regime islâmico a integrar-se à Organização de Cooperação de Xangai.

Na sexta-feira, Condoleezza Rice pareceu admitir que os Estados Unidos não conseguirão um acordo sobre o tipo de sanções que pretende. Assim, se manifestou disposta a “manter a unidade”. Mas, também exortou à ação. “Simplesmente temos de olhar quais são as opções”, acrescentou. A secretária de Estado recebeu o conflito com o Irã entre as tarefas pendentes quando assumiu o cargo, em janeiro de 2005, e, ao que parece, tentou eliminar a opção militar da agenda do governo. No começo deste ano disse em particular a algumas poucas pessoas alheias ao governo que esperava alcançar negociações com o Irã sobre um amplo leque de problemas, através de sua oferta de um diálogo direto.

Mas, as possibilidades de Rice estavam muito limitadas pela intenção do governo Bush de rejeitar a possibilidade de qualquer concessão diplomática a Teerã. Cheney e o então secretário da defesa Donald Rumsfeld acertaram deixar a secretária seguir seu caminho no começo de 2005, porque sabiam que qualquer esforço diplomático no Conselho de Segurança para punir o Irã acabaria em um fracasso que seria o prelúdio necessário para qualquer uso da força.

Os colaboradores de Cheney sabem desde o princípio da gestão de Condoleezza Rice que sua estratégia para o Irã não seria obstáculo para os planos do vice-presidente, porque sabiam que fracassaria, segundo informou o jornalista neoconservador Lawrence F. Kaplan no dia 2 de outubro na revista The New Republic. Ao redor de Cheney avalia-se que o governo ainda não está politicamente preparado para uma virada ao terreno militar, mas, a pressão sobre Bush vai aumentar quando o fracasso diplomático de Rice ficar evidente, afirmou Kaplan. (IPS/Envolverde)

(*) Gareth Porter é historiador e especialista em políticas de segurança nacional dos Estados Unidos, “Perigo de domínio: desequilíbrio de poder e o caminho para a guerra no Vietnã”, seu último livro, foi publicado em junho de 2005.

Gareth Porter

Gareth Porter is an independent investigative journalist and historian who specialises in U.S. national security policy. He writes regularly for IPS and has also published investigative articles on Salon.com, the Nation, the American Prospect, Truthout and The Raw Story. His blogs have been published on Huffington Post, Firedoglake, Counterpunch and many other websites. Porter was Saigon bureau chief of Dispatch News Service International in 1971 and later reported on trips to Southeast Asia for The Guardian, Asian Wall Street Journal and Pacific News Service. He is the author of four books on the Vietnam War and the political system of Vietnam. Historian Andrew Bacevich called his latest book, ‘Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War’, published by University of California Press in 2005, "without a doubt, the most important contribution to the history of U.S. national security policy to appear in the past decade." He has taught Southeast Asian politics and international studies at American University, City College of New York and the Johns Hopkins School of Advanced International Studies.

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