Bangcoc, 12/12/2006 – Se os grupos da sociedade civil do sudeste da Ásia necessitavam demonstrar que são mais fortes do que os líderes políticos, conseguiram, com a ajuda de um tufão que forçou o cancelamento da cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) nas Filipinas. O fracasso da décima-segunda reunião de chefes de Estado e de governo do grupo, suspensa pelo país anfitrião diante da ameaça do tufão Utor sobre a ilha de Cebu, onde estava prevista a realização do encontro esta semana, foi evidente em comparação com a determinação dos ativistas de não adiar seu respectivo encontro no mesmo lugar.
Nesta segunda-feira, cerca de 300 ativistas dos 10 países da região participaram do segundo dos quatro dias de oficinas sobre direitos humanos, paz, pobreza e trabalho da Conferência da Sociedade Civil da Asean em Cebu, ilha de 600 quilômetros ao sul de Manila. A Asean está integrada por Birmânia, Brunei, Camboja, Filipinas, Indonésia, Laos, Malásia, Cingapura, Tailândia e Vietnã.
“A decisão de cancelar a cúpula é prejudicial. Desperta duvidas sobre o nível de comprometimento dos chefes de governo com a principal reunião da região. Isto não é bom para a imagem do grupo”, afirmou a ativista Debbie Stothard, da Rede Alternativa da Asean para a Birmânia (Altsean), em conversa por telefone desde Cebu.
“O adiamento da cúpula revela que os líderes da Asean estão concentrados mais em sua sobrevivência política do que na sobrevivência do povo”, disse, por sua vez, o Chamado Mundial à Ação Contra a Pobreza (GCAP), uma coalizão de organizações não-governamentais de mais de cem países, em uma declaração divulgada em Cebu. O GCAP é um dos grupos que organizou discussões sobre pobreza no sudeste da Ásia durante a conferência.
Mas, no final de semana, após anunciar as novas datas da cúpula, para os dias 10 e 13 de janeiro, Manila continuava defendendo as medidas preventivas adotadas. “Ainda acreditamos que tomamos a decisão correta ao considerarmos a segurança dos delegados”, disse ao jornal The Philippines Daily Inquirer o chefe do comitê organizador da cúpula, Marciano Paynor. A esteira de destruição do Utor, com três mortos, quatro desaparecidos e cerca de 90 mil desabrigados, foi muito menor do que a do tufão Durina, que atingiu o arquipélago na semana anterior, causando enchentes em várias aldeias e deixando mais de mil mortos e desaparecidos.
Mas, as autoridades Filipinas não só consideraram a possibilidade de uma repetição da tragédia do Durian quando decidiram adiar a cúpula, segundo os jornais locais. Alguns meios de comunicação manejaram a versão de supostos alertas por parte de governos do Ocidente sobre ataques terroristas por parte de grupos muçulmanos. Outros atribuíram a decisão a um esforço de Manila para prevenir contra possíveis manifestações de rua contra os governos, sobretudo considerando o crescente mal-estar em relação à presidente das Filipinas, Gloria Macapagal Arroyo.
O cancelamento da cúpula aconteceu num momento em que os líderes da Asean são acusados de não atender as demandas da sociedade civil nem se voltar aos principais problemas que enfrentam os 550 milhões de habitantes da região. A brecha entre os governantes e a realidade nos países que representam foi um dos temas na conferência de ativistas em Cebu. Os grupos criticaram o lema da cúpula adiada: “Uma comunidade solidária e participativa”.
“É muito bonito esse lema. Está região é bem conhecida por ter governos com históricos sombrios em matéria de democracia e nos quais a repressão é tolerada”, disse Lidy Nacpil, coordenadora internacional da organização Jubilee South. Nas Filipinas, mais de 760 esquerdistas, ativistas, jornalistas e padres católicos foram assassinados por grupos paramilitares desde que começou o governo de Arroyo, em janeiro de 2001.
O que alarma muitos ativistas é que esta violência, avalizada por uma cultura de impunidade, ocorre em um dos países considerados a esperança democrática da região. “A idéia de uma comunidade da Asean é um exagero dos governos. não se vê nos fatos. A forma discriminatória com que os governos tratam os povos de países vizinhos é um claro indicio”, disse Stothard, da Altsean. (IPS/Envolverde)

