México, 31/01/2007 – Em sua primeira viagem oficial à Europa, o presidente do México, Felipe Calderón, deixou claro suas diferenças com governos de esquerda da América Latina e também porque é uma referência para a direita latino-americana. Em suas visitas de Estado à Alemanha, Grã-Bretanha e Espanha, e em sua participação no Fórum Econômico Mundial na Suíça, o conservador Calderón defendeu uma democracia liberal plena, a abertura comercial e o livre fluxo de investimentos. Além disso, fez críticas a alguns governos vizinhos de perfil diferente do seu.
O México compartilha o objetivo da unidade latino-americana, mas para alcançá-la “é indispensável que os governos sejam capazes de expressar suas diferenças de forma madura e respeitosa e analisar juntos as alternativas para nossos povos sem recorrer a desqualificações pessoais”, disse Calderón. A questão da integração foi abordada pelo mandatário depois que o presidente venezuelano, Hugo Chávez, que o acusou de seguir o mesmo caminho de sem antecessor, Vicente Fox, também do conservador Partido Ação Nacional (PAN), a quem havia chamado de “cachorro do império”, numa referência aos Estados Unidos.
No governo Fox (2000-2006) o México viveu sérios atritos diplomáticos com Cuba e Venezuela, e outros menores com Brasil, Argentina e Chile. Calderón promete superar essa situação, mas, ao menos com Caracas, não existem avanços. No centro das disputas de Fox estiveram, entre outros elementos, as posições mexicanas a favor do projeto norte-americano de criar a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e as críticas à situação dos direitos humanos em Cuba. Durante a viagem de Calderón à Europa, que começou na quinta-feira e terminou nesta terça-feira, reuniram-se no México os partidos da Organização Democrata-Cristã da América (ODCA), em cujos debates não pouparam elogios para o PAN e o presidente.
O PAN é praticamente o único membro da ODCA que governa na região, com exceção do chileno Partido Democrata-Cristão que integra a coalizão governante nesse país desde 1990. O resto dos partidos, no centro e na direita do mapa político, permanece encurralado depois das vitórias eleitorais da esquerda e centro-esquerda. Em suas sessões no México, os representantes de mais de 30 partidos da ODCA, alguns dos quais já tendo exercido o governo, discutiram estratégias destinadas a retomar o poder político e decidiram que o PAN os ajudaria com mercadotecnia eleitoral. Calderón ganhou as eleições de julho frente ao esquerdista Andrés López Obrador pela diferença de apenas 0,5% dos votos. Segundo o perdedor, houve fraude, mas os juizes, as autoridades e alguns observadores internacionais não encontraram evidências claras que apoiassem a denúncia.
Na Espanha, última escala de Calderón na Europa, o primeiro-ministro socialista, José Luis Rodriguez Zapatero, disse que o México tem a “liderança” para construir a integração na América Latina. Declarações semelhantes o mexicano ouvido em outros países. No começo de janeiro, um mês depois de tomar posse, Calderón prometeu que se aproximaria da América Latina. “Nossa essência e nossa substância, nossa história, nosso passado e nosso futuro sabemos que estão na América Latina”, declarou nessa oportunidade.
Porém, no Fórum Econômico Mundial não pareceu referendar essa intenção. Em meio a um debate com o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, disse que o México é um “seguro contra o populismo”, pois não alterava as regras do jogo para os investidores. O desafio da região é impulsionar a plena democracia “ou permitir que voltem as ditaduras vitalícias”, afirmou. “O ocorrido na Venezuela, Bolívia e outros países (governados por presidentes que se definem como esquerdistas ou progressistas), onde houve expropriações que os investidores consideram um atentado contra seu patrimônio, não deve ser uma visão que englobe toda a região”, disse Calderón.
Ao se referir aos contínuos chamados de Chávez e outros mandatários para uma unidade latino-americana, Calderón afirmou que quanto mais invocamos esse propósito, “mais tensão geramos entre os países”. Chávez defendeu-se e após chamá-lo de “cavaleirinho” exigiu respeito. Em uma entrevista ao jornal mexicano El Universal, o presidente mexicano disse que a América Latina enfrenta o dilema de “adaptar-se a mercados cada vez mais rápidos e diversos, investimentos cada vez mais globais, ou voltar a economias fechadas e centralmente planejadas, controladas por governos através de expropriações”.
Em lugar de aproximar, Calderón está afastando o México da região, disse à IPS o acadêmico Hugo Rosales, da Universidade Nacional Autônoma do México. “Não é o momento de querer dar lições aos governos vizinhos, que também são tão populares em seus países, mas, sim, de buscar uma aproximação respeitosa, tal como prometeu o próprio Calderón”, disse o observador. A oposição mexicana recorda com certa nostalgia que até meados dos anos 90 este país mantinha um perfil relativamente alto na América Latina, com uma diplomacia que preferia afastar-se dos conflitos internacionais e atuar como conciliadora e independente, além de cortejar algumas causas da esquerda.
Esta situação mudou desde o governo de Ernesto Zedillo (1994-2000), último presidente da era do Partido Revolucionário Institucional (PRI), ininterrupta desde 1929. Zedillo e Fox adotaram posições de política internacional em ocasiões contrárias as posturas da esquerda regional. Os analistas ainda não se atrevem a definir se Calderón continuará por esse caminho, embora já tenha deixado expressa sua opinião sobre as políticas aplicadas por alguns de seus vizinhos. Os observadores consideram que o progressivo distanciamento mexicano da América Latina tem a ver com o fato de pertencer ao Tratado de Livre Comércio da América do Norte, junto com Estados Unidos e Canadá, e à sua dependência comercial desses sócios. (IPS/Envolverde)

