Palestina: Cerco econômico, o assassino silencioso

Belém, Palestina, 01/02/2007 – Há um ano os palestinos sofrem um bloqueio israelense que afeta severamente cada uma das cidades da faixa de Gaza e da Cisjordânia. Não se trata de um sítio com mísseis e artilharia, mas de um calculado ataque à coluna vertebral de sua economia. Devido à estratégia israelense, norte-americana e européia para paralisar a precária economia dos territórios ocupados no último ano, a vida diária dos palestinos se converteu em uma luta constante para conseguir alimentos e poder realizar negócios.

Tão logo o novo governo palestino assumiu em fevereiro passado, a cargo do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), Israel deixou de transferir para as autoridades de Gaza entre US$ 50 milhões e US$ 55 milhões em impostos mensais cobrados em nome da Autoridade Nacional Palestina (ANP), com castigo a essa organização. Em ações paralelas apenas um mês depois, Estados Unidos e União Européia adotaram sanções econômicas contra a ANP que afetaram toda a população, sob a condição de que o Hamas “reconheça” Israel e “renuncie” à violência.

Além disso, desde então Israel trabalha duro para pressionar as organizações humanitárias internacionais e os países doadores para que suspendam seus projetos na Palestina. As sanções causaram erros irreparáveis em todos os territórios ocupados. Desde o início de 2006, o índice de pobreza na Cisjordânia e em Gaza disparou. Em novembro passado, a Organização das Nações Unidas divulgou um informe segundo o qual o número de palestinos incapazes de satisfazer suas necessidades básicas aumentou 64,3% na primeira metade do ano passado. Na Cisjordânia, o desemprego afeta 60% da população economicamente ativa.

No mês passado, Israel permitiu a transferência à ANP de US$ 100 milhões, o valor dos impostos retidos em dois meses. O governo israelense tomou a decisão em dezembro, mas não a colocou em pratica até verificar que o Hamas não estivesse diretamente encarregado dos fundos. A liberação desses recursos permitirá à maioria dos palestinos na Cisjordânia sustentar suas famílias por mais alguns dias, mas os US$ 100 milhões são apenas uma gota no oceano, já que a pobreza e o desemprego aumentam. O severo impacto das sanções econômicas se propagou a todos os setores da sociedade.

Iyad, professor de escola pública, disse à IPS que somente lhe pagaram sete dos 12 meses de salário desde que começaram as sanções. “Alguns professores têm de ter um segundo ou terceiro emprego para manterem suas famílias. Outros já abandonaram a profissão”, acrescentou. Quando perguntado sobre os efeitos da sanções em seus alunos, Iyad disse: “Algumas famílias são tão pobres que não podem comprar mochilas nem uniformes para os filhos. Meninos e meninas vão à escola deprimidos e furiosos. Para eles é impossível aprender, e para mim é impossível ensinar neste ambiente”.

Mahmoud, advogado da Administração Civil da ANP, disse à IPS que a delinqüência aumentou em todos os territórios ocupados como conseqüência das sanções. “O crime organizado voltou à Cisjordânia. Não há sistema judicial funcionando e, acima de tudo, os policiais que estão nas ruas já não recebem seus salários, por isso não levam seu trabalho a sério. É como uma anarquia”. Khaled, um motorista de táxi, disse à IPS que ficou desempregado durante o ano passado por mais de seis meses. “Estive muito mal. Precisei vender meu carro para o banco e depois tentei conseguir um empréstimo, mas por causa dos juros nunca pude pagar porque não tinha trabalho”, contou.

Em Belém, durante a última temporada de Natal, que sempre é um impulso para a economia dessa cidade da Cisjordânia, a situação foi bastante ruim. Os turistas chegaram em grupos desde Jerusalém, visitavam os lugares históricos e rapidamente regressavam aos hotéis israelenses. Khaled duvida que a liberação de fundos melhores a situação. “Nosso futuro continuará igual. Não vai melhorar em nada”, disse (IPS/Envolverde)

Nora Barrows-Friedman

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