Caracas, 17/01/2007 – O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, tem razões para regressar satisfeito ao seu país, pois leva na bagagem alianças estabelecidas ou renovadas com países da América Latina e do Caribe, a região que seu inimigo, Estados Unidos, por décadas considerou seu “quintal”. “São vizinhos dos Estados Unidos, mas os povos estão fartos da política norte-americana. Pergunto se o senhor Bush está disposto a dirigir o olhar ou viajar a estes países”, orgulhou-se o mandatário iraniano ao encerrar em Quito uma breve viajem pela região, que o levou previamente a Caracas e Manágua. O novo clube de amigos do Irã é formado por Bolívia, Cuba, Equador, Nicarágua e Venezuela, este último país a grande porta de entrada para Ahmadinejad.
Estes países se destacam por terem os presidentes mais radicais de esquerda ou com discurso forte, em uma região que ganhou uma dezena de governos desta corrente ideológica nesta década. Admadinejad e o presidente venezuelano, Hugo Chávez, se chamam de “irmãos”, visitaram-se três vezes nos último semestre, assinaram cerca de 40 documentos de cooperação e estabeleceram um fundo de US$ 2 bilhões para projetos conjuntos. Fabricas binacionais de tratores, automóveis e outras indústrias estão em marcha.
Irã e Venezuela são fundadores da Organização de paises Exportadores de Petróleo e defendem a redução por este grupo de sua oferta ao mercado internacional para aumentar os preços. Caracas, com Havana, apoiou no Organismo Internacional de Energia Atômica o direito iraniano de desenvolver seu programa nuclear, contrariando o disposto pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas.
Ahmadinejad começou no último dia 12, em Caracas, as críticas ao mundo rico ocidental: “A raiz de todos os problemas é a direção incorreta dos países avançados”, afirmou, ao mesmo tempo em que felicitava os venezuelanos por terem reeleito Chávez em dezembro para um novo mandato de seis anos, que começou neste mês. “É tão profunda a relação entre nossos povos que hoje podemos dizer que somos uma mesma grande pátria; no fundo, uma só revolução”, acrescentou.
O presidente iraniano também viajou até Manágua, onde no dia 10 assumiu como novo presidente nicaragüense Daniel Ortega, que já governou o país entre 1985 e 1990 liderando a Frente Sandinista de Libertação Nacional, que estabeleceu laços com Teerã, que tinham sido cortados pelos governos direitistas nos últimos 16 anos. Em um bairro de Manágua, Ahmadinejad afirmou que “Irã, Nicarágua, Venezuela e outros países revolucionários estão juntos nesta luta e resistiremos juntos. Se nos unirmos, poderemos nos libertar da opressão e da pobreza”.
“O imperialismo não gosta que nos ajudemos, que tenhamos progresso e desenvolvimento, mas que o mundo inteiro saiba que estaremos juntos”, acrescentou Ahmadinejad ao oferecer à Nicarágua ajuda em programas de eletrificação, dotação de máquinas agrícolas, produtos petroquímicos e outros bens, num valor não especificado. Em Manágua foi precedido, com discursos antiimperialistas em atos de massas, Chávez e o presidente da Bolívia, Evo Morales, a quem o líder iraniano voltou a encontrar no Equador na segunda-feira, na posse do presidente Rafael Correa, de esquerda.
“O sistema do liberalismo no mundo chegou ao fim do caminho, e devemos nos preparar para as mudanças”, afirmou Ahmadinejad, na capital equatoriana. “Nesse contexto, o povo do Irã vê a si mesmo junto às nações vanguardistas, como o Equador”, ressaltou. Correa lhe garantiu que, “no futuro próximo, a república islâmica terá um papel privilegiado na política externa de Quito”, nos campos econômico, cultural e comercial, incluindo a possível volta do Equador à Opep.
Em Quito, o presidente iraniano se reuniu com Carlos Lage, um dos vice-presidentes da Cuba, país que também apóia o direito de terra desenvolver seu programa nuclear, com troca de expressões antiimperialistas e de solidariedade, incluída um pedido a Deus por parte do líder islâmico “pela pronta recuperação” de Fidel Castro. Ahmadinejad, inclusive, foi responsável por uma das ausências em Quito, segundo a imprensa da região, pois o presidente da Argentina, Néstor Kirchner, não compareceu à posse de seu colega equatoriano para não se encontrar com o presidente iraniano porque ainda não foi decidida a condenação pela justiça argentina contra dirigentes políticos iranianos pelo atentado de 1994 em Buenos Aires contra uma sede israelita.
Por que esta presença na América Latina justo quando o Ocidente adota sanções contra Teerã? “É uma busca de aliados para compensar o relativo isolamento do Irã no próprio Oriente Médio”, disse à IPS Maruja Tarre, da Venezuela, especialista em relações externas dos países da Opep. “Inclusive a Arábia Saudita, bem mais discreta em política externa, alertou Washington de que, se não for freada a influência xiita-iraniana sobre o Iraque, Riad será forçado a apoiar de algum modo a insurgência sunita” nesse país, afetado pela virtual guerra civil entre suas comunidades xiita e sunita depois da invasão liderada pelos Estados Unidos.
Dentro do próprio Irã, “Ahmadinejad não tem um apoio tão grande, segundo demonstram as últimas eleições locais”, lembrou Tarre, “ e por isso busca uma projeção internacional no Sul em desenvolvimento, no qual encontra como anel de noivado a coincidência, por propósitos semelhantes, o governo de Chávez”. O jornal reformista Etemad Melli, de Teerã, criticou a viajem de Ahmadinejad “enquanto os Estados Unidos nos cercam, sua força naval mais importante está no Golfo Pérsico (ou Arábico) e nossas relações com os países árabes da região, especialmente Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Jordânia, ficam mais distantes”.
“Enquanto Condoleezza Rice (chanceler norte-americana), com o informe sobre a questão nuclear em mãos, realiza consultas com os vizinhos do Irã, o presidente canta a vitória do socialismo na América Latina ao lado dos filhos espirituais de Simon Bolívar e dos amigos de Fidel Castro”, prosseguiu o jornal. “Esses amigos de esquerda são bons para conversas durante o café, mas, não para determinar nossas prioridades em segurança, política, relações internacionais ou economia”, acrescentou o Etemad Melli.
Os esquerdistas latino-americanos, por outro lado, no Congresso Boliviano dos Povos, que reúne movimentos políticos identificados com Chávez, Morales, Castro, Ortega e agora Correa, destacam desde 2003 a necessidade de aliar-se com governos antiimperialistas do mundo árabe-muçulmano”, recordou à IPS o analista Alberto Garrido, autor de uma dezena de livros sobre a revolução chavista. Chávez “desenvolveu com sucesso o acúmulo de forças em sua estratégia de buscar um mundo multipolar”, disse Garrido, para quem “logo aparecerá em cena a resposta de seus adversários, com Washington à frente”.
Tarre, que realiza uma curso acadêmico em Washington, destacou que, nos Estados Unidos, na última semana “houve uma falta de atenção impressionante quanto está visita de Ahmadinejad à América Latina. “Passou desapercebida”, afirmou. Ela atribui isso ao fato de, “em política externa Washington dar a impressão de trabalhar em compartimentos estanques. Nega-se a certas discussões ou diálogos com o Irã pela gravidade da ameaça que percebe, mas, a visita do presidente iraniano a países vizinhos parece não lhe chamar a atenção”, acrescentou.
Ahmadinejad insistiu, ao deixar a América Latina com uma escala em Argel, que o Irã “já tomou as medidas preventivas pertinentes para deixar sem efeito as sanções ilegais dos Estados Unidos (em represália à sua política nuclear) e a partir de hoje a América do Norte se verá com numerosos problemas em seu confronto com a república islâmica”. (IPS/Envolverde)

