Nepal: Ontem nas trincheiras, hoje no parlamento

Katmandu, 17/01/2007 – Maoístas do Nepal que abandonaram a luta armada no ano passado integram desde esta semana, o mesmo parlamento que os colocou na ilegalidade no passado. Foi uma transformação surpreendente. Há nove meses, o partido Comunista do Nepal (maoísta) era considerado “terrorista”, e muitos de seus dirigentes estavam nas prisões desse país e da vizinha Índia. Em abril último, os partidos de oposição ao regime absolutista do rei Gyanendra, que havia tomado o poder político em 1º de fevereiro de 2005, convidaram os rebeldes a se integrarem em uma aliança que apelou para mecanismos pacíficos a fim de obrigar o monarca a dar um passo atrás.

Hoje, os maoístas constituem o segundo grupo parlamentar do país, depois de um acidentado processo de negociações que culminou em novembro com a assinatura do Acordo Completo de Paz e a formação na segunda-feira de um governo temporário. Sua primeira tarefa foi aprovar a Constituição interina que guiará seus passos até a eleição de uma assembléia constituinte, prevista para final de maio ou começo de junho. “Irrompemos nesta nova era armados com uma nova ideologia, uma nova filosofia e um novo modo de pensar”, disse o líder maoísta no parlamento, Krishna Bahadur Mahara.

Os maoístas formaram uma frente de partidos de esquerda que abarcará uma maioria de 330 cadeiras no parlamento. Os legisladores do Partido Comunista do Nepal ingressaram em massa na manhã de segunda-feira no parlamento, todos de jaqueta cinza. Um deles usava uma boina com uma foice e um martelo em dourado. Muitos sorriam enquanto cumprimentavam com apertos de mãos seus colegas de outros partidos. “Esta conjuntura crítica é um novo começo, com unidade e reconciliação”, afirmou o primeiro-ministro, Girija Prasad Koirala.

Os maoístas iniciaram sua guerra contra as instituições do Estado em 1996, lançando bombas caseiras contra prédios do governo, depois que as autoridades ignoraram sua demanda por reformas sociais e políticas, entre elas a queda da monarquia e a instauração de um sistema republicano. O levante foi virtualmente ignorado em seus primeiros anos, pois seu bastião ficava no ocidente do país, uma das regiões mais pobres da Ásia meridional e a mais marginalizada pelos líderes políticos.

Em julho de 2001, o governo chamou para conversações de paz, mas quatro meses depois os maoístas romperam o diálogo e lançaram seus primeiros ataques diretos contra o exército nepalês, o que levou à declaração do estado de emergência. Em 2003, as negociações fracassaram novamente, ao mesmo tempo em que os maoístas asseguravam controlar 80% dos povoados e muitos observadores advertiam que ninguém ganharia a guerra civil apenas pelas armas. Em 10 anos, cerca de 14 mil pessoas morreram, a maioria civil sem nenhuma ligação com os grupos em luta. Além disso, mais de 100 mil nepaleses abandonaram suas casas por causa das intimidações militares e de rebeldes, e mais de mil desapareceram.

Os maoístas chamaram a um cessar-fogo pouco depois da vitória de abril passado do movimento popular que acabou com o absolutismo, mas alguns de seus dirigentes mantêm velhas práticas, como a cobrança de impostos ilegais de pessoas e empresas, e impedem funcionários do governo de assumirem suas tarefas. Apenas 904 das 1.271 delegacias danificadas durante a guerra civil foram restauradas, em parte porque dirigentes maoístas locais impediram os trabalhos, disse na segunda-feira o jornal Kantipur. A terça-feira foi o primeiro dia de registro de combatentes maoístas e suas armas, hoje acantonados em sete acampamentos principais e 21 menores em todo o território nacional. O desarmamento será controlado por uma equipe de 183 observadores da Organização das Nações Unidas, que também acompanhará as próximas eleições.

“Meu dever será garantir a representação dos povos indígenas na assembléia constituinte”, disse o ativista Malla K. Sundar, um dos 10 representantes da sociedade civil eleitos por dirigentes maoístas para integrarem o governo interino. Os demais partidos também nomearam diversos ativistas, em reconhecimento ao papel desempenhado pelas organizações não-governamentais e pelos sindicatos no movimento popular. “Não me preocupa o fato de me considerarem maoísta”, afirmou Sundar. “Os dirigentes do partido disseram claramente que escolheram pessoas independentes e que trabalharemos de maneira autônoma”, acrescentou.

Os maoístas conseguiram grande adesão no interior de Katmandu com seu compromisso de acabar com a discriminação contra as mulheres, os indígenas e os dalits, ou intocáveis no rígido sistema de castas hindu. Entre os 73 integrantes do novo governo, 29 são mulheres, 23 indígenas e 11 dalits. Fora do parlamento, o humor não era dos melhroes. “Um governo maoísta é algo impossível. Os maoístas são assaltantes. Agora, farão o que quiserem”, disse Suman, vendedor fungos em frente à sede do Poder Legislativo. Por outro lado, Ishwor, vendedor de frutas, considera “bom” os maoístas se integrarem ao governo. “Assim, ninguém terá problemas. Ninguém morrerá”, afirmou (IPS/Envolverde)

Marty Logan

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