Mercosul: Bolívia faz pressão contra desigualdades

Rio de Janeiro, 19/01/2007 – As assimetrias, que afetam a coesão do Mercosul, ganham maior amplitude e urgência com a provável admissão da Bolívia como membro pleno durante a cúpula de dois dias que começa nesta quinta-feira no Rio de Janeiro. O chanceler Celso Amorim já se declarou favorável à promoção da Bolívia de seu atual status de país associado a integrante pleno do Mercado Comum do Sul, embora seja preciso dar-lhe um tratamento especial, como exceções temporárias no cumprimento da tarifa externa comum, que define o bloco como união aduaneira.

Isso permitirá à Bolívia importar alguns produtos com total isenção alfandegária para suprir, por exemplo, a escassez de alimentos, que nos demais países-membros são gravados na importação. Mas servirá de novo argumento para as pressões de Paraguai e Uruguai em favor de condições mais flexíveis para suas pequenas economias. A adesão plena da Bolívia, o mais pobre do grupo, acentua a necessidade de um tratamento diferenciado em favor do desenvolvimento das economias menores do Mercosul, criado em 1991 por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, ao qual somou-se no ano passado a Venezuela e que tem como associados Bolívia, Chile, Equador, Colômbia e Peru.

Há tempos o Brasil expressa sua disposição à “generosidade” em relação aos países menores e agora propõe exigir menor índice de nacionalização dos produtos industriais do Paraguai e Uruguai, para que possam exportá-lo sem tarifas para outros membros do Mercosul. Mas assimetrias do Brasil também são denunciadas pela Argentina, que se queixa de uma invasão de produtos industriais do maior país da região e um grande déficit no comércio bilateral há vários anos. Assim, decidiu-se no ano passado pela adoção do chamado Mecanismo de Adaptação Competitiva, para reduzir desequilíbrios, mas pouco se avançou.

O desequilíbrio se reflete no superávit comercial relativamente elevado que o Brasil obtém com seus vizinhos. O comércio com seus sócios no Mercosul em 2006, mesmo excluindo a Venezuela, lhe deu um saldo positivo de US$ 4,979 bilhões, com exportações em US$ 123,950 bilhões. O Uruguai exportou para o Brasil apenas 61% do que importou, e o Paraguai apenas 24% em relação ao comprado. O quadro é pior para a Venezuela, que mais do que dobrou suas importações desde o Brasil nos últimos dois anos, e a Bolívia somente conseguiu algum equilíbrio por suas vendas de gás natural.

Mais grave ainda, neste quadro, é que as exportações brasileiras são em sua maioria de bens industrializados, enquanto importa praticamente apenas produtos agrícolas do resto da região. Não é realista esperar alterações significativas nesse cenário, a não ser a um prazo bastante longo. O expressado desejo brasileiro de aplicar imediatamente os recursos do Fundo de Convergência Estrutural, para fomentar projetos de desenvolvimento em setores e áreas menos favorecidos, pouco poderá modificar as disparidades comerciais e em atração de investimentos.

O Mercosul se ampliou por duas vias, após os primeiros anos formado apenas por seus quatro fundadores. Com exceção da Guiana e do Suriname, os países da América do Sul aderiram como associados entre 1996 e 2004. Em agosto passado decidiu-se aceitar a Venezuela como membro pleno, pedido que agora se repete com a Bolívia. A incorporação da Venezuela com exigências frouxas, com adaptação à tarifa externa comum em quatro anos e liberação do comércio até 2014, foi um erro, segundo José Botafogo Gonçalves, presidente do não-governamental Centro Brasileiro de Relações Internacionais e ex-embaixador na Argentina e junto ao Mercosul.

Com a Bolívia, além da benevolência, teria em comum com o caso venezuelano os riscos políticos de governos nacionalistas que pregam um socialismo ainda indefinido, concordam críticos como Botafogo e outros diplomatas que comandaram a política externa no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, de 1995 e 2003. São críticas por razões “ideológicas” de quem se opõe à política do presidente Hugo Chávez, mas seria um erro maior, “colossal”, rechaçar a adesão da Venezuela, disse à IPS o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira, autor de livros sobre a América do Sul e suas relações com os Estados Unidos.

A onda de governos nacionalistas e de centro-esquerda eleitos na América Latina nos últimos tempos não afeta a integração sul-americana, mas a favorece, contribuindo para a ampliação do Mercosul, produto do reconhecimento de que “é necessário unir-se a Brasil e Argentina” para resistir às pressões dos Estados Unidos, acrescentou Bandeira. Disputas e conflitos são inerentes aos processos de integração e também foram freqüentes na formação da União Européia, disse o historiador que há vários anos vive na Alemanha.

Paraguai e Uruguai, embora insatisfeitos, “não poderiam deixar o Mercosul”, porque isso prejudicaria muito seus interesses e os deixariam isolados na América do Sul, afirmou Bandeira. As queixas de governantes paraguaios e uruguaios, sobre a falta de benefícios da integração para seus países, são, no entanto, interpretadas por muitos como ameaças de deserção. Um acordo de promoção de comércio e investimentos, que o Uruguai assinará com os Estados Unidos no final do mês, pode, segundo alguns especialistas, abrir o caminho para um futuro tratado de livre comércio, um passo inaceitável para o Mercosul, como já advertiu o chanceler Amorim.

Esta cúpula do Mercosul no Rio de Janeiro, que encerra a presidência do bloco pelo Brasil, que a passará ao Paraguai, não poderá dirimir tantas incertezas, mas será um importante indicador do futuro da integração sul-americana. No encontro estarão presentes 11 presidentes da região, com uma única ausência, o recém-eleito presidente do Peru, Alan García. (IPS/Envolverde)

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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