Iraque: Uma cruzada nada santa

Faluja, Iraque, 19/01/2007 – A intensa ofensiva militar dirigida contra mesquitas, clérigos e tradições islâmicas leva muitos iraquianos a acreditar que a ocupação encabeçada pelos Estados Unidos é, realmente, uma guerra de caráter religioso. Circulam fotografias de mesquitas e edições do Corão com cruzes negras pintadas, bem como de soldados jogando lixo dentro dos templos, e, ainda, versões sobre ataques a mesquitas e brutais tratamentos contra clérigos. Com este panorama, a pergunta é se a invasão e ocupação de seu país não constituem, na realidade, uma guerra contra o Islã.

Muitos iraquianos lembram que o presidente George W. Bush anunciou “uma cruzada” pouco depois dos atentados em Nova York e Washington no dia 11 de setembro de 2001. “Mais de uma vez a língua de Bush usou expressões como fascistas islâmicos, que tocam as fibras dos muçulmanos de todo o mundo”, disse à IPS em Bagdá o xeque Abdul Salam al-Kubayssi, da Associação de Eruditos Muçulmanos, da comunidade sunita. “Gostaríamos que fosse um erro, mas o que continua ocorrendo nos faz pensar em sucessivas cruzadas”, acrescentou.

As forças da ocupação alegam que atacam as mesquitas porque os rebeldes se refugiam nelas. Um folheto distribuído por soldados norte-americanos no final de novembro em Faluja indicava que os “insurgentes” utilizavam as mesquitas para seus ataques contra as “Forças Multinacionais”, o que as obrigava a tomar as “medidas necessárias contra elas”. O comunicado se referia aos ataques diários de franco-atiradores contra as forças ocupantes nesta cidade onde morreram muitos soldados norte-americanos. Mas, a população local não compartilha dessas afirmações.

“Os combatentes nunca utilizam as mesquitas para atacar os norte-americanos porque sabem quais seriam as conseqüências, as reações do exército” ocupante, disse à IPS um membro do conselho municipal de Faluja que pediu para não ser identificado. “Mas, os soldados norte-americanos sempre atacam nossas mesquitas e minaretes”, acrescentou. Na Operação Fúria Fantasma de novembro de 2004, foram danificadas ou destruídas por completo cerca de 20 mesquitas de Faluja, cidade conhecida por sua quantidade de templos. Muitos pertencem à minoritária comunidade sunita.

Os líderes da Associação de Eruditos Muçulmanos agora são o inimigo número um das forças de ocupação e do governo dominado pela majoritária comunidade xiita. Devido às contínuas detenções de figuras sunitas e aos ataques contra mesquitas em todas as regiões do país onde predomina esse ramo do islã, incluindo sua sede na periferia de Bagdá, a Associação se sente perseguida. As forças ocupantes mostram seu apoio aos clérigos que integram a estrutura política criada pela coalizão que governa o Iraque, entre eles o atual primeiro-ministro, Nouri al-Maliki, do Partido Dawa, que qualificou o líder da Associação, Harith al-Dhari, de “terrorista” e assassino.

Porém, outros sunitas mais seculares também se sentem perseguidos pelos ocupantes. “Quando vemos que nossos símbolos são alvo dos norte-americanos, devemos nos reunir em torno de quem que não nos vendeu à ocupação”, disse à IPS o professor Malik al-Rawi, do Instituto Nacional de Pesquisas Científicas de Bagdá, explicou al-Rawi. A quantidade de iraquianos que acreditam que os ocupantes travam uma “guerra religiosa” aumentou drasticamente depois dos ataques contra Faluja em 2004, ressaltou.

Alguns analistas iraquianos consideram que a percepção de que se está diante de um conflito religioso parece ter se espalhado na medida em que a ocupação foi se prolongando. “O mundo deve tomar consciência de que o governo dos Estados Unidos está levando a situação para o buraco negro de um novo conflito religioso ao dar luz verde aos seus soldados para que ataquem mesquitas e detenham clérigos”, disse à IPS o especialista político Kassim Kabbar, da Universidade de Bagdá. “Inclusive pessoas muito educadas se perguntam por que os líderes norte-americanos não limitam os ataques aos símbolos religiosos de nosso país”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

Ali al-Fadhily

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