Genebra, 19/01/2007 – A influente reunião anual de empresários, políticos e governantes, que acontecerá na próxima semana na Suíça, será novamente esquadrinhada pelo Olho Público de Davos, uma aliança da sociedade civil que fiscaliza a ação das companhias multinacionais. Coincidindo com a abertura, no dia 24, das atividades do Fórum Econômico Mundial (FEM) e na mesma sede desse encontro, na localidade turística de Davos, os ativistas sociais anunciarão os “prêmios” O Olho Público, com o qual distinguem empresas de “comportamento especialmente irresponsável”.
As companhias propostas como candidatas a esses títulos são a operadora holandesa de matérias-primas Trafigura, a fabricante japonesa de pneus Bridgestone e a rede de comercialização de moveis Ikea, originária da Suécia. Com estes “prêmios” alternativos “mostramos ao FEM e a todas as multinacionais que a sociedade civil tem os olhos postos sobre eles”, explicou Oliver Classen, da Declaração de Berna, uma antiga organização não-governamental suíça que coordena o Olho Público sobre Davos junto com Pró-Natura, a filial na Suíça da Amigos da Terra.
A candidatura da Trafigura foi apresentada pela organização Plataforma Social pela Paz na Costa do Marfim, depois de desembarque, em 19 de agosto passado, em Abidjã, capital do país, de um carregamento de líquidos tóxicos transportados por uma embarcação fretada por essa companhia com sede na Holanda, mas com seu centro de operações em Londres. Esses produtos foram jogados em diferentes lugares de Abidjã a céu aberto.
Duas semanas depois, as autoridades da cidade disseram que pelo menos seis pessoas haviam morrido e que vários milhares receberam cuidados médicos por apresentarem problemas respiratórios, tonturas, vômitos ou queimaduras. A organização ambientalista Greepeace colocou em dúvida as afirmações da Trafigura, que disse acreditar que o lixo tóxico seria tratado adequadamente em um país em desenvolvimento da África.
A candidatura da Bridgestone foi apresentada pelo Fundo Internacional de Direitos Trabalhistas, com sede nos Estados Unidos, e pela filial nesse país da Amigos da Terra. A empresa é acusada de manter uma situação de escravidão nas plantações de borracha que desde 1926 explora sua filial na Libéria, a Firestone natural Rubber Company. Os alojamentos que a empresa fornece aos trabalhadores constam de um único cômodo, sem água corrente, eletricidade ou serviços sanitários.
Da extração do látex também devem participar os filhos dos empregados, para que as famílias tenham condições de produzir as cotas diárias exigidas. O trabalho dessas crianças, controlado por supervisores da companhia, consiste em cortar árvores com machados afiados, aplicar com as mãos pesticidas e carregar, presos a um pedaço de pau, dois cubos com 30 quilos de látex cada um.
Outra candidata, a Ikea, “a multinacional do móvel somente é sueca na aparência”, afirmou Classen à IPS. Essa empresa estabeleceu “uma rede complexa de sociedades supranacionais, somada a uma sociedade matriz e fundações que lhe permitem enganar o fisco”, afirmou o representante da Declaração de Berna. A proprietária desse conglomerado, avaliado em cerca de US$ 36 bilhões, é uma fundação holandesa, a Stichting Ingka Foundation (SIF). Ao contrário das demais fundações, que, por exemplo, promovem programas como os da Organização das Nações Unidas, a SIF somente serve para que o dono da Ikea, Ingvar kamprad, se livre de suas obrigações tributárias, denuncia Classen.
Mas, não há somente pedras para as multinacionais. O Olho Público sobre Davos também premiará na próxima semanas companhias de comportamento considerado “responsável”. Uma das candidatas ao prêmio “positivo” é a rede suíça de supermercados Coop, em reconhecimento à sua atividade pioneira em favor da agricultura biológica, explicou à IPS a representante da Pró-Natura, Sonja Ribi. Outra candidata a essa distinção é a empresa holandesa Eosta, fornecedora do comércio atacadista e varejista de verduras e frutas com certificado biológico.
A Eosta colocou em marcha em 2004 um projeto-piloto, batizado Nature & Mopre, que permite aos consumidores se informarem pela Internet sobre a procedência e os processos de produção dos alimentos adquiridos, afirmou Ribi. A lista de candidatos se completa com Marks & Spencer, a rede de supermercados britânica que vende produtos de algodão cultivado em Malí sob critérios biológicos controlados. A empresa britânica se comprometeu a adquirir dos produtores esse algodão cultivado em condições sustentáveis, destacou Ribi.
A premiação do Olho Público sobre Davos constitui um acontecimento alternativo ao FEM e focado na questão da responsabilidade das empresas, entendida tanto no sentido do cumprimento das obrigações sociais e ambientais quanto da prestação de contas, insistiu Classen. O ativista estima que o Olho Público sobre Davos representa um contraponto à reunião de empresas multinacionais e governos convocada pelo FEM.
Mostramos o reverso da medalha da globalização e exigimos medidas concretas a favor de uma economia mundial mais socialmente justa e que respeite o meio ambiente, afirmou Classen. O ativista da Declaração de Berna afirma que o Olho Público sobre Davos mantém vínculos estreitos com o Fórum Social Mundial, que reúne a sociedade civil de todos os continentes em contraposição ao FEM, e que nesta sétima edição se reunirá na próxima semana em Nairóbi, capital do Quênia. (IPS/Envolverde)

