Seattle, EUA, 05/01/2007 – O novo Congresso dos Estados Unidos iniciou suas sessões na quinta-feira com uma maioria do opositor Partido Democrata nas duas casas e com um panorama político favorável à polêmica reforma migratória. Um grupo de senadores e representantes democratas e do governante Partido Republicano já começou a trabalhar em um projeto de lei que, provavelmente, incluirá um programa de trabalho temporário e um caminho para a regularização dos imigrantes sem documentação, bem como disposições sobre segurança na fronteira.
Uma pesquisa da consultoria Tarrance Group descobriu que 75% dos eleitores nas eleições legislativas de novembro esperam que o novo Congresso aprove uma completa reforma migratória. Cinquenta por cento dos consultados deram essa resposta, enquanto apenas 37% apóiam a idéia de apenas fortalecer as fronteiras. Sessenta e oito por cento são favoráveis a um caminho para que os imigrantes ilegais tenham status legal através de uma multa, desde que trabalhem, paguem seus impostos, não tenham cometido nenhum delito e aprendam inglês.
Apesar da mudança no panorama eleitoral, continuaram as inspeções nas fábricas e as deportações de ilegais, deixando uma esteira de temores em muitas comunidades de imigrantes. Os legisladores republicanos estavam convencidos de que as muralhas eram a resposta à onda de imigrantes. No ano passado, a Câmara de Representantes aprovou restrições draconianas à imigração, incluindo a construção de mais de mil quilômetros de muro ao longo da fronteira entre Estados Unidos e México e a punição pela falta de documentos e a ajuda a imigrantes sem papéis. Dezoito por cento dos democratas apoiaram o projeto.
A direção republicana, entretanto, não foi capaz de conciliar o texto da Câmara de Representantes com o aprovado no Senado, que incluía um programa de trabalhadores “convidados” e um caminho para regularizar a situação de alguns imigrantes sem documentos, projeto apoiado pelo presidente George W. Bush. Por fim, no outono, os republicanos aprovaram a Lei do Cerco Seguro, que autorizou acrescentar 1.112 quilômetros de muro na fronteira aos menos de 160 quilômetros existentes. Mas o projeto não destinou fundos, deixando o Departamento de Segurança Interna com os apenas US$ 1,2 milhão aprovados anteriormente para reforço de fronteiras.
Embora esse departamento possa construir barreiras, parece preferir outros métodos para controlar a entrada de imigrantes. A Corporação Boeing, importante firma aeroespacial, conseguiu que poderia se converter em um contrato de US$ 2 bilhões para desenvolver uma “barreira virtual”, uma série de câmaras de vídeo com sensores de calor e movimento conectadas através de uma rede à uma base de dados central. Prevê-se que a primeira fase de instalação ao longo da fronteira do Estado do Arizona se complete este ano.
Paradoxalmente, um contratista para construção do muro na Califórnia, que fabricou parte da muralha entre San Diego e Tijuana, teve de pagar em dezembro quase US$ 5 milhões em multas – e dois de seus executivos podem ser condenados à prisão – por contratar trabalhadores ilegais. Nas eleições parlamentares de novembro, a imigração demonstrou ter muito pouco êxito como tema de estímulo. Vários candidatos ao Senado, à Câmara de Representantes e a governadores que fizeram campanha com base em “ser duro” em matéria de imigração perderam feio.
As pesquisas mostram que, em nível nacional, a guerra do Iraque e o terrorismo eclipsaram a questão da migração para os eleitores. Os deputados republicanos tiveram apenas 27% dos votos latino-americanos, enquanto Bush havia conseguido 44% em 2004. Mesmo antes de o novo Congresso iniciar suas sessões, um grupo bipartidário de legisladores havia começado a trabalhar em um projeto de lei para ampliar as oportunidades dos ilegais para obter status legal. O projeto do Senado permitia a regularização apenas de imigrantes que estivessem no país por pelo menos cinco anos.
Os críticos disseram que isso incentivaria o mercado de documentos falsos. Os autores do novo projeto, segundo o The New York Times, consideram ampliar a disposição para permitir que imigrantes que chegaram mais recentemente legalizem sua condição. O novo texto também pode incluir algum tipo de programa de trabalho temporário. Ana Avendaño, diretora do programa de trabalhadores imigrantes da Federação Americana do Trabalho-Congresso de Organizações Industriais (AFL-CIO), a maior confederação operária dos Estados Unidos, disse à IPS que a entidade é contra qualquer lei que não conceda plenos direitos trabalhistas. Além disso, considerou “inconcebível” que a nova geração de congressistas democratas favoráveis aos trabalhadores aprove um programa maciço de empregados temporários.
Jorge Durand, especialista mexicano em migração da Universidade de Guadalajara, disse à IPS que qualquer programa de trabalho temporário também deve incluir incentivos para que os mexicanos regressem ao seu país. “Muitos querem vir (para os EUA) para trabalhar, não para viver, e depois voltar”, mas a crescente vigilância tornou o ir e vir cada vez mais perigoso e caro, afirmou. (IPS/Envolverde)

