Washington, 23/01/2007 – Dois milhões de iraquianos fugiram para o exterior e 1,7 milhão para outras regiões dentro de seu país. Porém, os Estados Unidos destinaram este ano para assistência humanitária para todos eles menos dinheiro do que gasta em um só dia de guerra. O governo de George W. Bush, que despeja cerca de US$ 30 milhões diários em operações militares no Iraque, reservou apenas US$ 20 milhões para a ajuda bilateral humanitária durante todo este ano, informou ao Senado a subsecretária de Estado assistente, Ellen Sauerbrey.
Também informou ao Comitê Judicial do Senado que os Estados Unidos reconheceram a condição de refugiados para apenas 466 iraquianos desde a invasão de 2003. Depois de ouvi-la, o Comitê cobrou do governo maior generosidade para atender a crise dos refugiados e na concessão de asilo para os que fogem de seu país, em particular aqueles que trabalharam com as autoridades norte-americanas da ocupação.
“Não deveríamos reiterar o erro trágico e imoral da era do Vietnã e deixar nossos amigos sem refúgio e sujeitos a violentas represálias”, disse a Sauerbrey o presidente do Comitê, Patrick Leahy. A funcionária respondeu que a admissão de iraquianos nos Estados Unidos é uma “alta prioridade” do Departamento de Estado. Cerca de cem mil iraquianos fogem de seu país todos os meses, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), que pediu US$ 60 milhões para 2007 com o objetivo de atender a crise.
Em circunstâncias normais, a Acnur esperaria que Washington destinasse a quarta parte desse dinheiro, mas, organizações humanitárias reclamam uma ajuda muito maior, devido à responsabilidade dos Estados Unidos na situação do Iraque. “Com dois milhões de iraquianos fora do país e outros cem mil fugindo a cada mês, está é a crise de refugiados de crescimento mais acelerado no mundo”, disse Ken Bacon, presidente da organização não-governamental Refugiados Internacional. Outra grande quantidade de iraquianos, entre 40 mil e 50 mil, abandonou suas casas e fugiram para áreas mais seguras, acrescentou Bacon, que é norte-americano, com base nas estimativas da Acnur.
“Os Estados Unidos têm a obrigação especial de ajudar, pois a violência no Iraque e o crescimento do contingente de refugiados foi causado depois de nossa invasão e ocupação”, disse Bacon ao Comitê do Senado. “Devido ao nosso papel no conflito, deveríamos considerar duplicar nossa contribuição normal para os refugiados iraquianos”, acrescentou. “O custo de ajudá-los na região é modesto para Washington, mas, é a diferença entre a vida e a morte para centenas de milhares de pessoas”, afirmou Bill Frelick, da organização Human Rights Watch. “Os Estados Unidos gastam cerca de US$ 2 bilhões por semana na guerra do Iraque, mas a duras penas começou a atender os problemas humanos que ela origina”, acrescentou.
Jordânia com 700 mil e Síria com 600 mil, recebem a maior parte do fluxo de refugiados, apesar de seus sistemas de saúde, educação e assistência social já estarem muito sobrecarregados. Estes dois países “se mostram generosos com os refugiados e merecem o reconhecimento internacional por aceitá-los”, disse Banco. “Porém, a carta da grande população de refugiados está crescendo. Os preços dos imóveis aumentam rapidamente em Damasco e Amã. As escolas e os hospitais estão lotados. As deportações são cada vez mais comuns”, acrescentou.
A Jordânia fechou sua fronteira aos homens iraquianos entre 17 e 35 anos, bem com a cada vez mais palestinos que residiam no Iraque protegidos pelo deposto presidente Saddam Hussein, morto na forca em 30 de dezembro. Como conseqüência, uma crescente quantidade de palestinos, legalmente sem Estado e incapacitados de ingressar na Síria, perambulam na fronteira do Iraque. Frelick alertou que essa circunstância constitui uma violação das leis internacionais em matéria de refúgio, mas nem Jordânia nem Síria assinaram a Convenção sobre Refugiados, de 1951.
Sauerbrey admitiu que os Estados Unidos não anteciparam a seriedade da crise de refugiados ou o ritmo em que se desenvolveu no ano passado, especialmente depois do recrudescimento dos choques entre xiitas e sunitas depois do atentado contra a mesquita Dourada, em Samarra, em fevereiro passado. A violência religiosa reverteu a tendência de repatriação de iraquianos exilados, em um processo iniciado após a invasão de 2003, e hoje mais iraquianos abandonam suas casas rumo a outros povoados ou países, disse Sauerbrey. (IPS/Envolverde)

