Desarmamento: Secretário Geral comete erro histórico

Nações Unidas, 23/01/2007 – O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, recebeu uma série de ataques por ter proposto a desativação do Departamento de Assuntos de Desarmamento. Porém, a disputa apenas começa. A proposta inclui a possível incorporação desse órgão na órbita do Departamento de Assuntos Políticos, que terá na direção um funcionário designado pelo governo dos Estados Unidos, que é contra o controle de armas e o desarmamento nuclear. A iniciativa já enfrenta reações críticas de países integrantes da ONU e de ativistas em favor do desarmamento.

“Esta é uma medida equivocada do secretário-geral e seria um princípio pouco auspicioso para seu mandato” à frente da ONU, disse John Burroughs, diretor-executivo do Comitê de Advogados sobre Política Nuclear. O Departamento de Assuntos de Desarmamento ganhou sua forma atual em 1998, com a finalidade de cumprir os requisitos da eliminação de arsenais e não-proliferação do pós-guerra. Os Departamentos da Secretaria Geral são os principais órgãos de gestão da ONU, a ponto de serem dirigidos somente por funcionários com status de secretário-geral adjunto ou subsecretário-geral.

“Os desafios recrudesceram desde então”, disse Burroughs à IPS. As organizações não-governamentais especializadas em desarme manifestaram sua total oposição à proposta. “Enviaremos cartas ao secretário-geral e pediremos audiências”, anunciou. A iniciativa também foi rechaçada pela “troika” do Movimento dos Países Não-Alinhados (Noal), bloco integrado por 116 países. A troika está composta pelo país que preside a organização, seu antecessor e seu sucessor (Cuba, Malásia e Qatar).

Também circulam versões sobre o fortalecimento do Departamento de Assuntos Políticos da ONU, que ficaria encarregado de designar um diplomata norte-americano proposto pelo governo de George W. Bush, disse um embaixador presente à reunião do Noal. “É como por a raposa para cuidar do galinheiro”, ironizou o diplomata, que pediu para não ser identificado. O Noal, que constitui o principal grupo político dentro da ONU, se dispunha a enviar uma carta de protesto a Ban Ki-Moon. Mas aguardará até se reunir com o chefe da equipe de Ban, Vijay Nambiar, para que detalhe a proposta.

O Departamento de Assuntos de Desarmamento foi dirigido no passado por um secretário-geral adjunto, mas o ex-secretário-geral Boutros Boutros-Ghali (1992-1996) reduziu seu status durante seu mandato. Seu sucessor, Kofi Annan (1997-2007), por outro lado, lhe deu alta prioridade no controle de armas e do desarmamento, por isso colocou à frente desse órgão um subsecretário-geral, um status superior ao de secretário-geral adjunto. “Creio que desmantelar o Departamento de Assuntos de Desarmamento é um passo atrás, sem importar se haverá um norte-americano à frente do Departamento de Assuntos Políticos”, disse à IPS um diplomata asiático. “Apenas vamos repetir o erro de Boutros-Ghali que depois Annan retificou”, acrescentou.

Os problemas de desarmamento e proliferação nuclear se agravam, em particular depois da falta de um pronunciamento a respeito depois da cúpula de 2005, do colapso da conferência das partes do Tratado de Não-proliferação para sua revisão esse mesmo ano e da falta de resultados na conferência sobre armas pequenas no ano passado. “Sepultar o desarmamento no Departamento de Assuntos Políticos o matará, especialmente se um norte-americano o dirigir”, disse o informante asiático. A ONU tem sido regida até agora por uma norma não escrita, segundo a qual o Departamento não deve ser dirigido por cidadãos dos cinco países membros permanentes do Conselho de Segurança (China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia).

Essas cinco nações dispõem do direito de veto sobre as decisões do Conselho e, além disso, dispõem de armas nucleares (também declararam que Índia, Paquistão e Coréia do Norte a desenvolveram e há fortes indícios de que Israel também as possua). A representante da ONU no Escritório para a Paz Internacional e presidente do Chamado de Haia para a Paz, Cora Weiss, disse à IPS: “ É lamentável que o novo secretário-geral considera prioritário dizimar a razão de ser da ONU e repetir o erro de Boutros-Ghali.

Para Weiss, é difícil “impedir os estragos da guerra” em um mundo inundado de armas. A proposta de Ban Ki-Moon, além disso, tira da ONU independência em sua tarefa de eliminar as armas nucleares, combater o tráfico ilegal de armas pequenas e apoiar a implementação de tratados internacionais nessa área, acrescentou a ativista. “Isto é um desastre. Designar algumas mulheres em altos postos não compensa está medida infeliz”, ressaltou.

Ban designou duas mulheres na Secretaria: a tanzaniana Asha-Rose MIgiro como secretária-geral adjunta e a mexicana Alicia Barcena como subsecretária-geral para Assuntos Administrativos. “Como o secretário-geral da ONU pode pretender promover os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, que custaram um montão de dinheiro, enquanto o mundo gasta um bilhão de dólares ao ano para preparar e travar guerras?”, perguntou Weiss. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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