Toronto, 30/01/2007 – O planeta será mais quente, mais úmido e mais tormentoso. O maior estudo científico sobre a mudança climática vai dirimir qualquer dúvida sobre o vínculo entre o uso de combustíveis fósseis e o aumento da temperatura mundial. Prevê-se que a temperatura média da Terra aumentará entre dois e 4,5 graus centígrados em algum momento entre 2030 e 2050, o que terá um impacto ambiental maciço, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC).
Isso constará do Quarto Informe do IPCC, organização que reúne cientistas representando governos de todo o mundo. O documento será oficialmente divulgado na próxima sexta-feira em Paris, mas alguns detalhes já são conhecidos. “É o mesmo que o IPCC vem dizendo há 20 anos, mas, com uma certeza científica muito maior”, disse à IPS o especialista em clima Andrew Weaver, da Escola de Terra e Oceanos da Universidade de Victoria, no Canadá. “O aumento da temperatura não será de maneira alguma inferior a dois graus centígrados”, acrescentou Weaver, um dos principais autores do informe do IPCC.
Há quase 30 anos, os climatologistas começaram a calcular o impacto da queima de combustíveis fósseis na temperatura do planeta. Segundo suas estimativas, se a presença de dióxido de carbono duplicar desde a média anterior à era industrial, de 280 partes por milhão (ppm), a temperatura mundial aumentará entre 1,5 e 4,5 graus centígrados. Hoje, o nível de dióxido de carbono está em torno de 380 ppm, e aumenta três ppm ao ano, a uma velocidade que cresce na China, Índia e em outros países em vias de industrialização. Muitos especialistas consideram extremamente difícil evitar que se chegue a 560 ppm (o dobro da era pré-industrial) em algum momento entre 2030 e 2050.
Após seis anos de estudo e análises, os mais de 2.500 cientistas em mais de 130 países envolvidos no IPCC concluíram, como indica o próximo informe, que essa duplicação da proporção de dióxido de carbono elevará a temperatura média da Terra entre dois e 4,5 graus. E esse aumento não será por igual: a elevação das temperaturas nas regiões árticas será maior, entre quatro e oito graus centígrados. A hipótese mínima está virtualmente garantida, mas a máxima poderá ser muito maior, dependendo de mecanismos complexos e pouco conhecidos.
A dissolução do permafrost do Hemisfério Norte ou um maciço desaparecimento de selvas amazônicas, eventualidades muito possíveis, segundo algumas projeções, empurraria a temperatura mundial para muito além do previsto. “Está não é uma boa notícia”, disse Weaver. Um aumento de apenas dois graus centígrados, em média – como sem precedentes desde os tempos dos dinossauros -, tampouco seria. “Isso implicaria mudanças maciças nos ecossistemas”, explicou o especialista. As ondas de calor e as secas serão mais intensas e longas, enquanto as inundações se tornarão mais freqüentes e de maiores conseqüências. O ritmo dessas mudanças será muito acelerado para que as espécies vivas possam adaptar-se, disse Weaver.
As sociedades humanas dos países ricos poderão fazê-lo, mas os pobres do mundo não poderão se dar esse luxo. “Os deslocamentos de população serão maciços, o que aumentará a instabilidade”, afirmam especialistas. Se a Groenlândia sofrer um aumento de sua temperatura média de 2,7 graus, toda sua cobertura de gelo se dissolverá, elevando o nível dos mares em todo o mundo entre seis e sete metros, assegurou Weaver. A estimativa do impacto da mudança climática será divulgada na segunda parte do Quarto Informe, no começo de abril. A terceira parte diz respeito a mecanismos para minimizar a mudança climática, e o IPCC a publicará no início de maio.
“As únicas perguntas científicas válidas em matéria de mudança climática nas duas últimas décadas são quais as conseqüências e qual a rapidez”, disse Naomi Oreskes, professora de história e estudos sociais da Universidade da Califórnia, em San diego. “A única pergunta ainda pendente é se tomaremos medidas apropriadas com a devida velocidade”, acrescentou Oreskes em uma entrevista coletiva. O processo do IPCC se tornou a regra de ouro da cooperação científica em todo o mundo, e seu modelo foi imitado em outros campos, afirmou a educadora. O IPCC opera nas órbitas da Organização Meteorológica Mundial (Oriente Médio) e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), e não financia por sua conta nenhuma pesquisa.
Sua tarefa limita-se a coletar, avaliar e sintetizar dados científicos. Qualquer país da Organização das Nações Unidas pode integrar-se ao IPCC e questionar seus informes. É necessário consenso para cada palavra do “Sumário para políticos”, que consta de cada estudo periódico. Trata-se, portanto, de um processo científico inerentemente conservador, no qual países petrolíferos como Arábia Saudita e Kuwait sempre tentam minimizar suas conclusões e enfatizar as incertezas e os desconhecimentos, disse Weaver. Em resumo: o informe do IPCC será sóbrio, factual e não dramático. De todo modo, concluirá que a evidência científica sobre a incidência da atividade humana na mudança climática é esmagadora.
“É hora de os cientistas darem um passo para o lado e deixar que os engenheiros do mundo comecem a desenvolver as soluções”, afirmou Weaver. São necessárias novas tecnologias e mudanças culturais para impedir que a proporção de dióxido de carbono na atmosfera duplique. Especialistas consideram um paradoxo que nesta era de rápido desenvolvimento científico os automóveis ainda utilizam motores de engenharia interna desenvolvidos há cem anos, e que boa parte da energia elétrica seja gerada em centrais alimentadas a carvão, uma tecnologia do século XVII. “Mudar nossas lâmpadas por outras de baixo rendimento não solucionará o problema”, acrescentou o especialista.
O Protocolo de Kyoto obriga 36 países industrializados a reduzirem suas emissões de gases causadores do efeito estufa em, pelo menos, 5,2% em relação aos níveis de 1990, até 2010. depois, serão necessárias reduções ainda maiores, mas, quase todas as nações envolvidas já têm problemas para atingir essa meta. E o governo norte-americano considera que a implementação do tratado é muito cara para sua economia, por isso retirou sua assinatura tão logo George W. Bush assumiu a Presidência em 2001. Os Estados Unidos são o principal emissor de gases que provocam o efeito estufa no mundo, pois consomem a quarta parte dos recursos mundiais de energia. (IPS/Envolverde)

