Amã, 30/01/2007 – Centenas de milhares de pessoas fogem da violência no Iraque e cada vez mais buscam refúgio na Jordânia, depois que outros países lhes foram fechadas suas portas. Mas, agora parece que também Amã está limitando a entrada. Jordânia e Síria eram os únicos países onde os refugiados podiam encontrar um lugar onde se esconder da crescente violência, que se espalha em todas as cidades iraquianas. Pelo menos 300 pessoas morreram no final de semana nos combates que sacudiram a cidade de Najaf, no centro do país.
“Fiz uma importante cirurgia ocular na Jordânia, mas o médico disse que tinha de operar novamente”, disse à IPS Ahmad Khalaf, da localidade de Saqlawiya, 62 quilômetros a oeste de Bagdá. “Cheguei ao ponto de cruzar a fronteira entre Iraque e Jordânia com meus exames médicos e uma carta do hospital jordaniano solicitando minha chegada a Amã em uma data determinada para remediar o dano da primeira operação”, acrescentou. Khalaf experimentou o que dezenas de milhares de iraquianos sofrem quando tentam entrar na Jordânia. “As autoridades da fronteira jordanianas me obrigaram a voltar sem dizer o motivo, me deixando na incerteza”, acrescentou.
O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) informou que cem mil iraquianos fogem de seu país a cada mês. Está agência estima que cerca de 700 mil iraquianos estão atualmente na Jordânia e outros 600 mil na Síria, apesar de especialistas acreditarem que os números sejam maiores. A Acnur também estima que há mais de 1,5 milhão de refugiados dentro do Iraque. Vários iraquianos disseram à IPS que as autoridades jordanianas lhes fecharam as portas desde o dia em que Saddam Hussein foi executado, 30 de dezembro de 2006. Muitos acreditam que o bloqueio de fronteiras aconteceu a pedido de Bagdá.
As autoridades jordanianas se tornaram especialmente severas nos últimos meses. “Depois que o primeiro-ministro iraquiano, Nouri Al Maliki, visitou a Jordânia no ano passado, as autoridades desse país ficarammais rígidas, e a metade dos que tentavam cruzar a fronteira não conseguia entrar”, contou à IPS o dono de um supermercado que costuma comprar mercadorias na Jordânia. Além disso, “depois que o ministro do Interior, Jawad Boalni, visitou a Jordânia no final de 2006, praticamente 95% dos iraquianos foram proibidos de entrar nesse país”, acrescentou. No começo do ano passado a Jordânia havia fechado suas fronteiras a homens iraquianos com idade entre 17 e 35 anos, bem como ao crescente número de refugiados palestinos que vivam no Iraque amparados pelo governo de Saddam Hussein (1979-2003).
Agora, a maioria desses palestinos foi expulsa pelas milícias xiitas. O maciço ingresso de iraquianos na Jordânia antes dos controles fronteiriços agravou os problemas de infra-estrutura do país. Escolas e hospitais, em particular, sentiram o peso de centenas de milhares de novos residentes. “Nosso pequeno país não pode se dar ao luxo de aceitar mais iraquianos. Nos solidarizamos com nossos irmãos, mas, agora são uma carga para nossa pobre economia”, disse à IPS o jordaniano Ahmad Trawne, de 30 anos. Os jordanianos se queixam de que os imigrantes iraquianos ricos levaram inflação ao seu país.
Os negócios floresceram, mas os preços aumentaram a níveis que tornam difícil para a maioria dos jordanianos comprar ou alugar imóvel em zonas centrais de Amã. Bairros residenciais como Gardens e Shmaissani, no ocidente da capital jordaniana, registraram alta de quase 200% nos valores das moradias no ano passado. Os preços de alimentos e serviços básicos também aumentaram consideravelmente. Entretanto, muitos iraquianos afirmam que é dever da Jordânia permitir a entrada de refugiados.
“Este país foi construído com nosso dinheiro”, disse à IPS um professor iraquiano de 60 anos, em Amã. “Saddam Hussein deu à Jordânia petróleo grátis e abriu as fronteiras para seus cidadãos, e agora eles não nos permitem viver em seu país. Não estamos pedindo nenhuma ajuda financeira, porque todos os iraquianos levam seu próprio dinheiro com eles. Muitos venderam suas propriedades no Iraque para poder viver com dignidade”, acrescentou.
Os iraquianos que não chegam a cruzar a fronteira jordaniana não têm outra opção a não ser regressar, pois não há hotéis perto da zona fronteiriça. Não podem viajar dentro do Iraque depois do por do sol por medo das patrulhas militares dos Estados Unidos, por isso são obrigados a passar a noite em estacionamentos ou restaurantes. Também é cada vez mais difícil encontrar um lugar para as centenas de milhares de refugiados dentro do território iraquiano. A Acnur alertou no último dia 9 que o problema estava superando a capacidade de todas as agências humanitárias. (IPS/Envolverde)

