Nairóbi, 29/01/2007 – Ativistas que participaram dos cinco dias de diálogo, manifestações, dança e música do Fórum Social Mundial, em Nairóbi, capital do Quênia, parecem ter recuperado suas esperanças de conseguir avanços na luta contra a pobreza e tornar realidade “outro mundo possível”. Cerca de 50 mil delegados suportaram o sufocante calor queniano para discutir em diversos painéis e conferências assuntos relacionados com a dívida externa, aids, falta de moradias e de emprego e as injustiças do comércio com os países ricos, entre outros assuntos.
Muitos participaram da maratona de 15,5 quilômetros pelos “direitos básicos”, que atravessou os bairros mais pobres de Nairóbi, no último dia do encontro. Há 199 assentamentos precários na cidade, que são as zonas mais densamente povoadas da capital e as sofrem as maiores carências de serviços básicos. Começando em Korogocho, um assentamento a zona leste de Nairóbi, a maratona terminou no parque Uhuru, mesmo lugar onde foi aberto o FSM.
“O fato de ter sido no Quênia o primeiro FSM em território africano é uma celebração. Para mim, é um sonho que sempre tive desde que comecei a me envolver com o Fórum. É um reconhecimento de que o mundo está solidário com a África”, disse a ativsita Wahu Kaara, membro do conselho do Fórum Social Africano, parte do comitê internacional organizador do FSM. “Os assuntos que surgiram do encontro foram muito importantes: água, direitos humanos, a dívida, moradia e muitos mais. Estou certa de que foram plantadas as sementes da esperança”, disse à IPS a ativista Wangari Maathai, prêmio Nobel da Paz.
“Porém, o desafio que agora permanece é se refere ao que temos de fazer quando voltarmos para casa. Lembrem a história do pequeno colibri”, acrescentou Maathai. A ativista se referia a um conto que citou reiteradas vezes no FSM, sobre um pequeno, mas decidido, colibri que apagou o incêndio em uma floresta. Enquanto os animais maiores observavam de longe, a ave fez várias viagens até o rio pegando água em seu bico para apagar as chamas. “Não devemos nos sentir impotentes pelos grandes problemas que enfrentamos. Não importa o quão pequenos sejamos, podemos fazer uma diferença para criar um mundo melhor para todas as pessoas, para a África”, afirmou.
O FSM de Nairóbi foi o primeiro realizado em um país africano. Criado em oposição ao Fórum Econômico Mundial que reúne na localidade suíça de Davos governos e a elite financeira e empresarial internacional, o FSM reúne quase simultaneamente organizações e ativistas da sociedade civil que, entre outras coisas, se opõem à dominação global por parte do capital. As três primeiras edições aconteceram em Porto Alegre, em 2004 mudou-se para Mumbai, na Índia,; no ano seguinte voltou à capital gaúcha e em 2006 se dividiu entre Bamako, Caracas e Carachi, no chamado fórum policêntrico.
“Os governos estão excluídos da participação, mas estão incluídos na organização. Eles sabem de que se trata o FSM, podem aprender e fazer o que pensam que deve ser feito para construir um mundo melhor”, disse a IPS o brasileiro Chico Whitaker, do Conselho Internacional do Fórum. Os participantes aprendem muito uns com outros. O ativista brasileiro Ramos Filho apresentou no encontro uma original iniciativa na luta contra a aids. Este professor de Direito de Santa Catarina já distribuiu desde 1998 mais de cem mil camisinhas no País, acompanhados de um poema com informação sobre a doença para conscientizar as pessoas.
Na África subsaariana estão 64% da população mundial com HIV (vírus da deficiência imunológica adquirida, causador da aids). Mas oprimidos pela carga de sua dívida externa, os governos dos países pobres não podem cobrir as necessidades sanitárias básicas de seus cidadãos. (IPS/Envolverde)

