Johannesburgo, 12/02/2007 – O cólera e a malária recrudesceram severamente na África austral por causa das devastadoras inundações. As torrenciais chuvas que caem desde janeiro em Angola, Zâmbia, Moçambique e Malawi deixam um rastro de destruição e doenças alerta a Federação Internacional de Sociedades da Cruz Vermelha e da Meia Lua Vermelha. “Mais de 120 mil pessoas foram afetadas. Destas, 52.700 tiveram que abandonar suas casas temporariamente, sendo, aproximadamente 27.400 em Moçambique, 13.800 em Madagascar, seis mil em Angola e 5.500 em Malawi” informou o Escritório de Coordenação dos Assuntos Humanitários da Organização das Nações Unidas, (Ocha). Este órgão calcula que houve 84 mortes, a maioria em Angola, e que muitas outras pessoas estão desaparecidas desde o final de janeiro.
As inundações destruíram centenas de hectares de terras cultivadas e escolas, edifícios públicos, redes viárias, pontes e infra-estrutura de comunicação, diz o informe. As autoridades de Moçambique “ainda não declararam o estado de emergência”, mas “pediram aos moradores das zonas afetadas que se dirijam a regiões mais altas para fugirem das inundações”, disse por telefone à IPS, desde Harare, Tamuka chitemere, encarregado regional de manejo de desastres da Cruz Vermelha. “A população é vulnerável. Não vivem em casas de concreto. Cada vez que chove forte suas casas são destruídas”, disse à IPS, também por telefone, Chris McIvor, diretor de programa da Save the Children UK (Salvem as Crianças-Grã-Bretanha) em Moçambique.
Aproximadamente 46.500 moçambicanos podem ser vítimas das inundações, disse o diretor do Instituto Nacional de Manejo de Desastres, Paulo Zucula, informou na quinta-feira a BBC de Londres. Pelo menos 29 pessoas morreram e 4.600 casas, uma centena de salas de aula e quatro centros de saúde foram destruídos pelas tempestades e inundações, segundo a rede britânica de rádio e televisão. A situação não é melhor em Angola, país que não consegue se livrar das conseqüências de décadas de sangrenta guerra civil. “Na região angolana de Cacuaco morreram, pelo menos, 71 pessoas e 184 famílias perderam seus pertences pessoais”, informou a Cruz Vermelha na quinta-feira, em um comunicado. “As estradas estão submersas e as pontes danificadas”, acrescentou.
As fortes chuvas também agravaram o foco de cólera que começou no ano passado. Desde 1º de janeiro, foram registrados 3.868 novos casos em 15 das 18 províncias angolanas. Luanda, Cabinda e Benguela foram as mais atingidas”, acrescentou a organização. “Os membros de nossa equipe em Angola estão distribuindo artigos de emergência, com barracas de campanha e pastilhas de cloro para purificar a água e panelas às pessoas afetadas”, disse Chitemere. Segundo a Cruz Vermelha, 180 mil famílias se beneficiaram desses equipamentos, bem como de aconselhamentos sobre higiene.
Uma campanha semelhante de conselhos sanitários está programada para Moçambique, país muito vulnerável às inundações. “Em breve distribuiremos panfletos nos idiomas locais e transmitiremos mensagens para preparar a população para novas inundações”, disse McIvor. As inundações que deixaram um milhão de refugiados e mataram 70 pessoas entre 2000 e 2001 em Moçambique ficaram conhecidas no mundo todo pela imagem de uma mulher que foi obrigada a dar à luz na copa de uma árvore. A cobertura da televisão mostrou na oportunidade pessoas traumatizadas, incluindo mulheres com bebes presos às costas, ilhadas em aldeias isoladas e resgatadas por helicópteros. “Para Zâmbia enviaremos materiais para abrigo, para consertar telhados destruídos pelas chuvas”, disse Chitemere.
Em geral, as chuvas começam em novembro e terminam em março, na maioria dos 14 Estados-membros da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (Sadc). Além do cólera – que já fez, pelo menos, 143 vítimas fatais em Moçambique, Angola, Zâmbia e Zimbábue – a malária também afeta determinadas áreas da região. Está enfermidade é transmitida por mosquitos que se reproduzem em águas paradas. McIvor informou que Save The Children doou mosquiteiros e cobertores para ajudar a prevenir a doença, que é endêmica em Malawi, Moçambique, Angola e Zâmbia. As inundações deste ano começaram antes do tempo normal e estão muito longe do fim.
“Os principais rios da região, como o Pungwe, o Lucite, o Licungo, o Mutumba, o Shire e o Zambezi, estão com o nível de suas águas próximo do limite de alerta, especificamente o Zambezi e seus afluentes. Estão previstas mais inundações”, afirmou a Ocha. Françoise Le Goff, diretora do escritório regional da Cruz Vermelha em Harare, disse que sua organização destinou mais de US$ 216 mil para conseguir um alivio em Angola, Malawi, Moçambique e Zâmbia. (IPS/Envolverde)

