Rio de Janeiro, 01/02/2007 – Não faltam previsões de morte, ou, pelo menos, de crise, do Fórum Social Mundial, realimentados pelos informes sobre problemas organizacionais e a grande queda no número de participantes em sua sétima edição, realizada em janeiro em Nairóbi, capital do Quênia. Os defensores do FSM, às vezes, também caem no exagero do contrário, atribuindo triunfos, como uma decisiva contribuição à chegada da esquerda ou centro-esquerda ao governo de oitos países da América Latina e à presença dos temas sociais na agenda internacional.
Mas este encontro da sociedade civil, nascido em janeiro de 2001 no sul do Brasil, não pode ter a influência que lhe dão sobre essa corrente política agora vencedora na região, pois, em geral, é produto de processos de décadas anteriores, nas quais proliferaram experiências populares e movimentos sociais que fizeram aumentar o eleitorado de esquerda. Também essa primeira edição do FSM, em Porto Alegre, foi posterior às grandes conferências da Organização das Nações Unidas sobre meio ambiente, direitos humanos, desenvolvimento social, população, mulheres, habitat e até da que aprovou os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, que mobilizaram dezenas de milhares de governantes, diplomatas e especialistas entre 1992 e 2000, incorporando pela primeira vez de maneira maciça nas discussões delegados da sociedade civil.
Os costumeiros críticos do FSM, por sua vez, esquecem essa história última de diversificação ou fragmentação dos movimentos sociais e políticos, que tiraram do sindicalismo a luta de classes e dos partidos políticos o monopólio do combate contra as injustiças do capitalismo, agregando as variadas discriminações e desigualdades como alvos.
O FSM responde à necessidade de superar a dispersão, de articular internacionalmente essa diversidade de iniciativas e forças que representam a sociedade, embora sem cumprir os mecanismos tradicionais de representatividade por via eleitoral ou sindical, e vão fortalecendo novas formas de fazer política, em favor de uma democracia mais participativa. Por essa razão, o encontro social poderá mudar seus métodos, a organização de seus encontros e, inclusive, seu nome e idéias centrais, mas, a sociedade civil mundial já não poderá privar-se de um fórum para articular e dinamizar suas lutas, trocar experiências e refletir de maneira conjunta entre representantes de todo o mundo.
Trata-se de um novo ator no cenário mundial, de organização difusa, que em determinados momentos pode conseguir consensos que causem mobilização, como nas manifestações de 2003 contra a guerra o Iraque. Veio para ficar e exercer um papel democratizante. E busca identificar os melhores meios para proporcionar-lhes poder e manifestar-se.
O encontro, que surgiu como contrapartida ao Fórum Econômico Mundial, provou responder a essa necessidade ao conseguir adesões maciças, promover amplos debates e o surgimento de novas redes e campanhas internacionais, além de reuniões locais, nacionais e regionais. Entretanto, nada assegura a perenidade de sua forma atual e, menos ainda, que será único. Há pressões para convertê-lo em um instrumento político que adote resoluções e programas.
Decisões e ações, reclamam muitos ativistas e, inclusive, membros do próprio Conselho Internacional do FSM, argumentando que a fórmula atual imobiliza. No FSM de 2005, em Porto Alegre, um grupo de 19 conhecidos intelectuais tentou um golpe divulgando um manifesto como pretendido “Consenso”. Mas, caiu no vazio.
Como “espaço aberto” da sociedade civil, sem hierarquias e com total respeito à diversidade, como defendem seus fundadores brasileiros, o FSM absorve dimensões, manifestações e propostas de todo tipo. Os movimentos e organizações participantes são livres e estimulados a se unirem e se mobilizarem em torno das propostas comuns.
Francisco Whitaker, um dos fundadores, defende essa metodologia em seu livro “Desafio do Fórum Social Mundial: um modo ver”, ao justificar a Carta de Princípios que desde 2001 o define como um “espaço de encontro”, não-representativo nem deliberativo, contrário ao uso da violência e à globalização neoliberal. Mas as ambições contidas no FSM, de articular e movimentar a sociedade civil na construção de “outro mundo possível”, implicam enormes desafios. A repercussão de seus megaencontros na imprensa caiu muito em relação à novidade inicial, revelando a necessidade de uma outra forma de comunicação com a população.
A reunião de Nairóbi, entre 20 e 25 de janeiro, teve menos de 50 mil participantes, apenas a metade da meta e da quantidade registrada em cada uma das quatro edições anteriores. O alto preço da taxa de inscrição limitou a presença dos delegados pobres do Quênia, agravando as críticas ao “elitismo” interno, um dos moinhos de vento com que lutam os “altermundistas”, pretendendo popularizar a concorrência para não continuar reproduzindo desigualdades da sociedade.
Porém, pesquisas comprovaram que três quartos dos participantes desses encontros realizados no início de ano são estudantes, graduados ou pós-graduados em universidades, indicando que se trata de uma elite econômica. Essa é uma realidade conseqüente das caras viagens e de tratar-se principalmente do chamado terceiro setor. O Conselho Internacional do FSM decidiu adiar para 2009 a próxima reunião mundial, diante de dificuldade de autofinanciar encontros anuais, outro fator que alimenta epitáfios.
Por outro lado, em janeiro de 2008 serão promovidas jornadas de protesto em todas as cidades, durante a reunião do Fórum Econômico Mundial, o encontro anual da elite financeira e governante do planeta na localidade suíça de Davos, com o desafio de mobilizar muitos milhões de manifestantes. Um desafio maior do FSM é superar a diversidade ainda caótica de seus temas. Em Nairóbi aconteceram 1.200 seminários, painéis, diálogos e atos. É muito, mesmo sendo a metade dos registrados nos fóruns anteriores, o que indica uma insuficiente articulação de ações e programas.
O ideal seria cerca de 500 encontros, afirma Cândido Grzybowski, outro coordenador brasileiro do processo. Apesar dessa variedade, faltam visões sistêmicas e várias lutas seguem caminhos paralelos. Os ambientalistas, por exemplo, sentem-se “periféricos” no processo do FSM, apesar da urgência de seus temas, e desenvolvem suas próprias vias de articulação internacional. Também há pouca preocupação com a viabilidade política e econômica das numerosas propostas e bandeiras, embora o lema do FSM seja “outro mundo é possível”. (IPS/Envolverde)

