Coréia do Norte-EUA: Quem dá o primeiro passo?

Pequim, 13/02/2007 – As árduas negociações para acabar com a crise nuclear que envolve a Coréia, patrocinadas pela China, não se mostram animadoras, embora alguns aguardassem um acordo histórico. O otimismo que na quinta-feira acompanhou o início das conversações se desfez no fim de semana, quando ficou evidente que o governo norte-coreano exigia uma enorme assistência energética como condição para encerrar seu programa nuclear. O novo obstáculo neste tortuoso caminho é determinar como as nações participantes do diálogo assumirão essa ajuda após o fechamento do principal reator nuclear da Coréia do Norte.

Outro obstáculo é decidir qual será o primeiro passo: a ajuda ou a interrupção do programa nuclear. “É o velho problema do ovo e da galinha. A chave é quem se comprometerá primeiro, se a Coréia do Norte ou os Estados Unidos”, disse Li Dunqiu, especialista em questões da península coreana da Academia Chinesa de Ciências Sociais. A insistência de Pyongyang para que “primeiro ocorra a assistência, e depois a desnuclearização” foi uma das razões para a prematura interrupção de negociações anteriores, também patrocinadas por pela China.

Quatro vizinhos da Coréia do Norte (China, Japão, Rússia e Coréia do Sul) e os Estados Unidos mantêm há três anos um entrecortado diálogo multilateral com as autoridades norte-coreanas, com a esperança de convencer o regime de Kim Jong-II a renunciar às suas aspirações armamentistas nucleares. Porém, Pyongyang aposta seu arsenal para reclamar assistência e garantias de segurança e, portanto, não dá nenhum passo rumo ao desarmamento. Ao contrário, realizou testes balísticos em julho e uma detonação nuclear subterrânea em outubro para arrancar mais concessões da China, seu principal sócio comercial, e da Coréia do Sul, seu maior contribuinte em matéria de ajuda humanitária.

Analistas consideram que as provocações de Pyongyang também obrigaram Washington a aceitar determinadas concessões que antes se negava a considerar, como manter conversações bilaterais com o regime de Kim Jong-II, inclusive sobre o congelamento de fundos norte-coreanos. Em 2005, os Estados Unidos irritaram a Coréia do Norte ao obrigar o Banco Delta Ásia, da região administrativa especial chinesa de Macau, a encerrar seus negócios com o governo de Kim por causa de denúncias de lavagem e falsificação de dinheiro. Pyongyang contra-atacou boicotando as conversações com suas cinco contra-partes até dezembro, o que forçou os norte-americanos a considerarem a maneira de levantar as sanções.

As negociações que os Estados Unidos mantiveram no mês passado com Pyongyang em Berlim propiciaram o regresso do país asiático à mesa de negociações. O jornal japonês Asahi, favorável à Coréia do Norte, informou no domingo que nesse intercâmbio Washington prometeu levantar as sanções econômicas em 30 dias, se em troca os norte-coreanos dessem o primeiro passo para o desmantelamento, em 60 dias, de seu programa de armas atômicas. Entretanto, o representante norte-americano nas conversações, Christopher Hill, negou a existência de um memorando assinado por ele e pelo norte-coreano Kim Hye-gwan na reunião realizada na Alemanha.

Segundo a versão do acordo desmentida por Hill, a Coréia do Norte havia se comprometido a fechar seu reator nuclear em Yongbyon, 90 quilômetros ao norte da capital, e concordado com uma inspeção internacional em troca de assistência humanitária e energética. O entanto, um rascunho elaborado pela China, e distribuído a todas as delegações no começo da atual rodada de conversações, coincidiu bastante com os termos do acordo apresentados pela imprensa. O projeto estipula que a Coréia do Norte congelaria suas principais instalações nucleares em dois meses em troca de fornecimentos alternativos de energia.

Enquanto os Estados Unidos pretendem que a Coréia do Norte abandone de forma definitiva seu programa nuclear, vários especialistas dizem que Pyongyang insiste no “congelamento” de sua capacidade atômica, medida que pode reverter-se rapidamente caso fracassem as negociações. Essa situação aconteceu em 2002, quando acabou frustrado o Acordo marco de 1994, entre o governo do então presidente Bill Clinton (1993-2001) e o regime de Kim Jong-II. Na oportunidade, Pyongyang expulsou os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

No contexto desse histórico acordo, a Coréia do Norte havia concordado em “congelar” seu programa de armas nucleares em troca do fornecimento gratuito de petróleo e à doação de dois reatores de água leve, ao custo de US$ 4,5 bilhões. “Compreendemos que não se pode fazer tudo de um só vez. São necessários vários passos e estamos dispostos a dá-los”, afirmou Hill no último domingo. “Queremos contribuir com sua economia e, em especial, queremos ajudar o povo norte-coreano, que já sofreu bastante. Porém, a forma de fazer isso é levá-los a renunciar ao armamento nuclear”, acrescentou o negociador norte-americano.

A Coréia do Norte havia solicitado uma ajuda em matéria energética equivalente a dois milhões de toneladas de combustível por ano, entre outras exigências, em troca de começar a desmantelar seu programa nuclear. Porém, esse número supera amplamente as 500 mil toneladas de combustível pesado previstas no acordo de 1994, uma “demanda excessiva”, afirmou o negociador japonês, Kenichiro Sasae. (IPS/Envolverde)

Antoaneta Bezlova

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