América do Sul: A diplomacia dos negócios

Caracas, 22/02/2007 – Em pé sobre o maior depósito de petróleo pesado do mundo, o presidente argentino, Néstor Kirchner, enviou na última quarta-feira uma mensagem a Washington: não irá “conter” seu colega venezuelano, Hugo Chávez. “Dizem que alguns países devem conter outros, que Lula e eu temos de conter Chávez. É um erro absoluto. Construímos com o irmão-presidente Chávez o espaço de integração na América do Sul para a dignidade de nossos povos”, afirmou Kirchner.

Os dois presidentes assistiram, perto da localidade de San Tomé, 450 quilômetros a sudeste de Caracas, a primeira perfuração do projeto conjunto das empresas de petróleo estatais Enarsa (Argentina) e PDVSA (Venezuela) para quantificar as reservas de um dos blocos da Faixa Petrolífera do Orenoco. Depois da assinatura de acordos bilaterais nas áreas de agricultura, tecnologia, petróleo e finanças, Kirchner destacou que “somos e seremos absolutamente respeitosos, ambos, das relações e situações internas de nossos países”. Chávez, por seu lado, disse que “muitas vezes conversamos, entre nós, em particular, mas com respeito sagrado pela soberania da Argentina e da Venezuela. Por isso fracassaram e fracassarão os viajantes que vêm do Norte”.

A visita de Kirchner ocorreu enquanto a região espera pela do presidente George W. Bush ao Brasil, Uruguai (sócios da Argentina, Paraguai e Venezuela no Mercosul), Colômbia, Guatemala e México, entre os dias 8 e 14 de março. Na semana passada visitaram Brasília e Buenos Aires dois enviados norte-americanos, Nicholas Burns, número três no Departamento de Estado, e Thomas Shannon, secretário de Estado-adjunto para Assuntos do Hemisfério Ocidental.

Foi precisamente na Argentina onde Shannon disse que a relação com a Venezuela é “péssima”, que levou Burns, subsecretário de Estado para Assuntos Políticos, qualificou como a “agenda negativa” de Chávez, enquanto que com Buenos Aires “as diferenças ficaram para trás”. Informações procedentes da Casa Rosada, sede do governo argentino, que chegaram à imprensa indicavam que Kirchner buscaria transmitir a Chávez preocupações apresentadas por Washington, o que o levou a fazer as afirmações nos discursos de quarta-feira.

Kirchner “deveria mover-se como um equilibrista entre o impulso que buscou para os acordos econômicos e a veemência política de seu anfitrião”, disse à IPS o especialista político Alberto Garrido, autor de uma dúzia de livros sobre Chávez e seu projeto político. Se na superfície brilham os entendimentos, no fundo vibra a diferença “porque Argentina e Brasil chegaram a um limite quanto às suas posições frente aos Estados Unidos, pois já demarcaram territórios e esferas de atividade com acentos nacionalistas, e, por outro lado, Chávez lançou este ano um programa de radicalização”, disse Garrido.

Essa radicalização “no plano interno se expressa em buscar um socialismo, e no externo segue empurrando por uma integração sul-americana mais agressiva, politicamente antiimperialista. Mas nem Brasil nem Argentina vão por esse caminho”, acrescentou o analista. Alguns aspectos seguramente tratados foram deixados claros publicamente pelos presidentes, como as relações com o Irã e as supostas atitudes anti-semitas de Chávez. A respeito do Irã a diferença é óbvia, porque Chávez estabeleceu uma “aliança estratégica” com Teerã, cujo programa nuclear e discurso antinorte-americano apóia, enquanto iniciam operações na Venezuela empresas iranianas de metalurgia, mineração, agricultura, automotiva e transporte aéreo.

O Estado argentino, por seu lado, tem um contencioso acentuado com Teerã porque sua justiça acusa vários iranianos, incluindo o ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani (1989-1997), pelo ataque terrorista de 1994 contra a sede de uma entidade judia em Buenos Aires, no qual morreram 85 pessoas. Por outro lado, diretores da Confederação de Associações Israelitas da Venezuela e do Conselho Judeu Mundial se entrevistaram na noite de terça-feira com Kirchner em Puerto Ordaz, às margens do rio Orenoco, para tratar do que consideram atitudes anti-semitas de Chávez.

O presidente venezuelano afirmou que algumas de suas expressões sobre a história da comunidade judia foram distorcidas, embora na guerra entre Israel e Líbano no ano passado tenha censurado duramente o governo israelense e reduzido ao mínimo as relações bilaterais.

Kirchner e Chávez, por outro lado, se congratularam em público neste “dia histórico”, no dizer do mandatário venezuelano, cheio de “passos transcendentais para a integração”, segundo seu colega argentino. A Enarsa (Energia Argentina Sociedade Anônima), associada à PDVS (Petróleos da Venezuela Sociedade Anônima), “renasce como fênix das cinzas que nos deixaram” na década passada, disse Kirchner.

A Enarsa é “uma companhia de papel”, pois seus ativos se reduzem aos direitos de prospecção e exploração na plataforma continental argentina, disse a IPS o opositor ex-ministro de Energia, Humberto Calderón.

A Faixa do Orenoco, de aproximadamente 55 mil quilômetros quadrados, pode conter 1,2 trilhão de barris de petróleo, principalmente pesados, dos quais 235 bilhões seriam recuperáveis. O lote que será analisado conteria 21 bilhões de barris, e 20% forem recuperáveis – 4,8 bilhões, disse Kirchner – seria possível produzir em alguns anos 300 mil barris por dia. Chávez e Kirchner também anunciaram a emissão de um novo Bônus do Sul, por US$ 1,5 bilhão, adquiríveis em moeda local na Venezuela a partir da próxima semana, o que levará dinheiro novo aos cofres de Buenos Aires.

Caracas comprou cerca de US$ 3,7 bilhões em bônus argentinos desde 2005 – e revendeu a maior parte a bancos privados – e no final de 2006 os dois governos colocaram com sucesso um primeiro Bônus do Sul, paritário, no valor de US$ 1 bilhão. Também foi assinado em San Tomé um memorando de entendimento para criar um Banco do Sul, “que começa bilateral, mas, aberto a outros países, baseado em critérios de solidariedade, voltado ao investimento produtivo, obras de infra-estrutura e desenvolvimento de projetos estratégicos”, disse Kirchner.

Um terceiro convênio facilitará um empréstimo de US$ 135 milhões do Estado venezuelano à cooperativa láctea Argentina SanCor, com o qual essa entidade poderá enfrentar suas dívidas e fazer novos negócios, e que pagará com remessas de leite em pó e tecnologia para pequenas fábricas de produtos lácteos no sudoeste da Venezuela. Também foi acertada a compra de 10 mil toneladas de carne bovina e cinco mil de frango para atender uma conjuntura de escassez em Caracas, que será seguida, segundo os acordos assinados, de uma assistência argentina para incrementar a pecuária venezuelana.

A Argentina também fornecerá assistência técnica em saúde pública, para o uso de gás liquefeito como combustível de veículos e, por fim, foi acertado um intercambio de informação entre as agências governamentais de informação Telam da Argentina, e a Agência Bolivariana de Noticas (ABN), da Venezuela. (IPS/Envolverde)

Humberto Márquez

Humberto Márquez fue corresponsal de IPS en Venezuela entre 1994 y 1996, y retomó esa labor en 2002. Fue corresponsal de Agence France Presse para Venezuela y el Caribe entre 1977 y 1992, y redactor de la sección internacional del diario El Nacional de Caracas entre 1997 y 2002. Periodista venezolano, graduado en Comunicación Social (1982) por la Universidad Central de Venezuela, durante más de 30 años ha cubierto y descrito el acontecer político y económico de Venezuela, su sociedad y su condición de encrucijada en procesos de integración y cambio en América Latina y el Caribe.

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