Clima-Bolívia: Inundados e isolados

La Paz, 23/02/2007 – “Necessitamos com urgência de alimentos, remédios, barracas e água potável”, disse Alcides Vargas, diretor do Centro de Operações de Emergência Departamental de Santa Cruz, no leste da Bolívia. A região noroeste boliviana, formada pelos departamentos de Santa Cruz e Beni, é a mais castigada pelas intensas chuvas que desde dezembro superam a média histórica de precipitação pluvial, segundo dados fornecidos à IPS pelo chefe da unidade de climatologia do Serviço Nacional de Meteorologia e Hidrologia (Senamhi), Gualberto Carrasco.

Mais de 350 mil desabrigados, 34 mortos, danos materiais que apenas começam a ser calculados, estradas interrompidas e desespero humano formam o quadro dramático diante do qual o governo opera com limitados recursos de transporte, que o obrigam a pedir ajuda externa. A Organização das Nações Unidas pediu na quarta-feira à comunidade internacional uma assistência urgente de US$ 9,2 milhões para a Bolívia, o país mais pobre da América do Sul, que corre risco de ver agravadas a pobreza, a insegurança alimentar, a desnutrição e as doenças.

Imagens aéreas feitas pela televisão mostram extensas áreas da planície oriental cobertas de água, onde apenas sobressaem alguns trechos de moradias, as copas das árvores altas e torres para armazenar água potável, enquanto embarcações rústicas sulcam o enorme lago transportando gente e seus bens para regiões mais altas. Desde a capital de Santa Cruz, mil quilômetros a leste de La Paz, Vargas disse por telefone à IPS que das 15 províncias desse departamento, 14 foram afetadas pelas inundações. “Estamos voltados a salvar vidas, essa é a primeira prioridade, e depois cuidamos da boa saúde das pessoas”, explicou a respeito do trabalho de militares e voluntários com apenas dois helicópteros de resgate.

Uma dessas aeronaves deixou de funcionar, passou por revisão e voltou nesta quinta-feira às operações de salvamento, mas ainda são necessárias outras duas, e o ministro da Defesa, Walker San Miguel, não descartou a possibilidade de pedir ajuda ao Brasil e à Argentina. Desde o novo comando de emergências instalado na cidade de Trinidad, capital do departamento de Beni, o diretor de Defesa Civil, Gonzalo Lora, contou à IPS sobre os trabalhos de assistência e distribuição de alimentos. Concordando com Vargas, citou as necessidades urgentes, uma lista que começa com barracas, colchonetes, mosquiteiros e remédios.

O Centro de Operações de Emergência Departamental de Beni acaba de ser criado para enfrentar o avanço das águas que estão prestes a vencer o anel de defesa construído ao redor de Trinidad, habitada por 89.613 pessoas. Em cada temporada de chuvas chegam à cidade dezenas de embarcações fabricadas com madeiras tropicais trazendo a bordo homens, mulheres e crianças procedentes de povoados indígenas que buscam proteção. Mas este ano o número de vítimas se multiplicou, e não estão sendo suficientes as escolas e os prédios públicos para abrigá-los enquanto esperam por alimentos e cuidados médicos.

O nível das águas subiu entre 5,50 e nove metros nos leitos dos rios do leste boliviano, explicou Lora, que teme a repetição da inundação de 1992, que alagou Trinidad, localizada em uma planície a 400 metros sobre o nível do mar e 700 quilômetros a noroeste de La Paz. As províncias de Moxos, Marbán e Cercado – à qual pertence Trinidad – concentram a maior parte dos 406.982 habitantes do amazônico departamento de Beni e são as mais afetadas, segundo a Defesa Civil.

A região é cortada pelo caudaloso rio Mamoré, que nasce na região do departamento de Cochabamba, centro do país, e se projeta até o norte, na fronteira com o Brasil. A pista de pouso de Trinidad recebeu nesta quinta-feira uma aeronave enviada pelo governo venezuelano com 11 toneladas de alimentos, e outra procedente do Peru, com 16 toneladas. Porém, o maior obstáculo é a falta de estradas para distribuir as doações aos povoados distantes.

Esta dificuldade impedirá o transporte de carne bovina desde os centros produtores de Beni até as principais capitais departamentais, como La Paz, Cochabamba, Oruro e Potosí, onde já se anuncia desabastecimento desse alimento básico e conseqüente aumento de preço. Além disso, a morte de 20 mil cabeças de gado causou perdas de, aproximadamente, US$ 20 milhões, segundo cálculos preliminares que ainda não consideram outros prejuízos no setor agrícola. Um informe da Administradora Boliviana de Estradas indica que cerca de 849 quilômetros de vias principais em vários departamentos estão danificados pelas águas.

Das 68.746 famílias que ficaram sem teto em toda a república, Beni tem a maior quantidade, 17.296, enquanto Santa Cruz registra 17.092 famílias, segundo dados do Ministério da Defesa. Na região semitropical do Chapare, Cochabamba, indígenas yukis e yuracarés pediram ajuda imediata. Cerca de 250 famílias que habitam nas margens do rio Ichilo, nos limites com Beni, expuseram a dramática situação que vivem por falta de assistência governamental.

O Senamhi assegura que o excesso de chuvas é parte do fenômeno climático El Nino, cujas repercussões locais desde o início do ano afetaram 350 mil pessoas neste país de 9,2 milhões de habitantes. El Nino-Oscilação Sul é um processo cíclico e errático que se manifesta quando a temperatura da superfície da água varia em mais de meio grau acima do normal durante pelo menos cinco meses seguidos no Pacífico ocidental, central ou oriental. Dos nove departamentos bolivianos, apenas Pando ficou livre de problemas climáticos, segundo o Ministério da Defesa.

Na zona altiplana e ocidental de La Paz, Oruro e Potosi, as “mazamorras” (enxurradas de lama e pedras) granizadas e geladas destruíram plantações de batata, horliças e quinua. Os departamentos no vale de Cochabamba e Chuquisaca e a chaquena Tarija, entre o centro e o sul, sofrem os efeitos de transbordamentos de rios e deslizamentos de terras. O especialista em meteorologia Carrasco estima que as chuvas continuarão até março, embora reduzindo sua intensidade. (IPS/Envolverde)

Franz Chávez

Franz Chávez es corresponsal de IPS en Bolivia desde noviembre de 2003. En busca de una cobertura adecuada de la compleja realidad boliviana, en especial para una audiencia internacional, Chávez se focaliza en esos temas en general ignorados por los grandes medios, poniendo esfuerzo en el contexto de uno de los países más pobres de América Latina. Nacido en La Paz, Franz trabajó para Radio Cristal entre 1985 y 1990, y luego formó parte del equipo editorial de los canales de televisión 2, 4, 7 y 11. Fue uno de los fundadores de los diarios La Razón, en el que se desempeñó entre 1990 y 1995, La Prensa (1998-201), y La Prensa-Oruro. Estudió sociología y comunicación en la Universidad Mayor de San Andrés en La Paz.

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