Estados Unidos: Um falcão no caminho de Rice

Washington, 23/02/2007 – Se a secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleeza Rice, realmente está decidida a avançar rumo a uma solução de dois Estados no conflito palestino-israelense, deverá enfrentar um sério adversário dentro da própria Casa Branca. Seus únicos inimigos não são o vice-presidente, DickCheney e os sobreviventes da camarilha neoconservadora que cercava a ele e ao ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld durante o primeiro mandato do presidente George W. Bush.

O escritório de Cheney continua sendo uma formidável força contra qualquer concessão a um eventual governo palestino de unidade – e que inclua, portanto, o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) -, sem importar os esforços da Arábia Saudita para conseguir um acordo nesse sentido feito na semana passada em Meca. Elliott Abrams, o próprio assessor de Rice quando ela era conselheira de segurança nacional, se constitui no principal inimigo aos seus atuais esforços no processo de paz.

Até a reunião de Rice em Jerusalém, na semana passada, com o primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, e com o presidente palestino, Mahmoud Abbas, o processo de paz estava congelado desde os tempos do governo de Bill Clinton (1993-2001). A influência pessoal de Abrams sobre Bush não se iguala com a de Rice, mas suas habilidades burocráticas e ligações políticas, em particular com o chamado “lobby israelense” de organizações judias e da Direita Cristã lhe dão considerável poder.

Segundo diversas fontes, Abrams trabalha sistematicamente para torpedear as esperanças de Rice – bem como as impacientes demandas do rei saudita Abdullah bin Abdul Aziz al-Saud – de dar aos palestinos um “horizonte político” para uma solução definitiva ao conflito. “O governo Bush nada fez para pressionar Israel a assumir compromissos, além da retórica vazia de Washington sobre o ‘horizonte político’ dos Estados, escreveu na semana passada no International Herald Tribune o analista Henry Siegman, diretor do Projeto Estados Unidos-Oriente Médio no influente Conselho de Relações Exteriores.

“Cada vez que aparece a menor insinuação de que os Estados Unidos poderiam, finalmente, participar seriamente de um processo de paz, Abrams se reúne em segredo com enviados de Olmert na Europa ou em qualquer outro lugar para dar tranqüilidade de que tal perigo não existe”, afirmou Siegman. Após a renúncia do ex-chefe de equipe de Cheney, Lewis Libby, e da saída do Pentágono há quase dois anos de Paul Wolfowitz, agora presidente do Banco Mundial, Abrams se converteu no neoconservador mais influente da administração, sobretudo em políticas para o Oriente Médio, por ser vice-conselheiro de Segurança Nacional para a Estratégia de Democracia Global.

Como seus companheiros “falcões” (ala mais belicista de Washington), Abrams nunca confiou nos processo de paz, não apenas entre Israel e Palestina. Quando foi assessor para América Latina no governo de Ronald Reagan (1981-1989) se esforçou em arruinar todas as iniciativas regionais para por fim à campanha dos Estados Unidos contra a guerrilha sandinista na Nicarágua, bem como à guerra civil em El Salvador. Também resistiu a qualquer negociação com a China.

“Opôs-se às conversações de paz regionais, às conversações bilaterais entre Washington e Manágua, e às conversações com Cuba”, disse à IPS o analista William LeoGrande, decano da Escola de Assuntos Públicos da Universidade Norte-americana e autor de “In our backyard” (Em nosso quintal dos fundos), um estudo sobre a política de Washington na América Central. “Ele não negociaria com adversários, mesmo se as negociações prometessem salvaguardar os interesses norte-americanos. Sempre insistiu em uma vitória total, como se a política externa fosse uma cruzada moral na qual assumir compromissos é um anátema”, afirmou o especialista.

Com sua imagem severamente afetada após ser condenado sem prisão pela Justiça por ter ocultado informação ao Congresso sobre o caso Irã-Contras – a venda encoberta de armas ao Irã e o uso desse dinheiro para financiar a contra-revolução na Nicarágua -, Abrams, como muitos falcões, deixou o governo sob a administração realista de George W. Bush (1989-1993), pai do atual presidente. Na década de 90 integrou vários centros acadêmicos. Quando Bush pai convidou o então primeiro-ministro israelense Yitzhak Shamir para uma conferência de paz em Madri depois da primeira guerra do Golfo, em 1991, Abrams e dezenas de outros neoconservadores criaram o Comitê sobre Interesses dos Estados Unidos no Oriente Médio, para contrapor-se a essa iniciativa.

Nos anos 90, Abrams condenou o processo de paz de Oslo nos termos mais duros e, quando os palestinos iniciaram sua segunda intifada (revolta popular contra a ocupação israelense) em setembro de 2000 responsabilizou pela violência os grupos judeus norte-americanos que apoiaram o diálogo de paz. “Os líderes palestinos não querem a paz com Israel, e não haverá paz”, escreveu na época. Inabilitado para integrar o Departamento de Estado ou de Defesa por causa da condenação judicial, entrou na atual administração Bush em 2001 com a missão de promover a democracia no mundo. Em 2002 recebeu a incumbência de criar políticas para o Oriente Médio. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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