Nações Unidas: A paz dividida

Nações Unidas, 05/02/2007 – A Índia, terceiro maior fornecedor de tropas para missões da Organização das Nações Unidas, expressou fortes reservas sobre uma proposta do secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, para dividir em duas entidades o Departamento de Operações de Manutenção da Paz. “Se as propostas sobre o Departamento prosperarem, serão nossos soldados que enfrentarão grandes riscos e perigos”, disse o embaixador da Índia perante a ONU, Nirupam Sem. No ano passado, Nova Délhi forneceu 7.340 soldados às forças de paz das Nações Unidas, atrás de Bangladesh, com 10.154, e Paquistão, com 9.516.

Em reunião fechado do Grupo dos 77 (G-77), que reúne 132 países em desenvolvimento, Sem disse que o Departamento foi criado pela Assembléia Geral em 1992 após uma detalhada análise de seu papel, suas tarefas e funções. Também lembrou que houve “um processo intensivo” que teve como resultado o estabelecimento de funções e mandatos específicos do Departamento. “Não podemos jogá-los fora sem passar por procedimentos relevantes, meticulosa e rigorosamente”, disse Sem.

“Para usar uma metáfora da cerimônia de casamento cristão, aqueles aos quais a Assembléia Geral uniu que o homem não separe”, acrescentou o representante indiano, destacando que a Secretaria não tem direito de desmantelar ou realinhar um departamento da ONU sem realizar consultas adequadas com os Estados-membros e comitês orçamentários. Segundo propostas apresentadas na semana passada pelo secretário-geral em dois “não-documentos”, o Departamento seria dividido em dois: um Departamento de Operações e Paz e um Departamento de Apoio de Campo, ambos presididos por um subsecretário-geral, terceiro posto hierárquico das Nações Unidas.

Mas já existem teorias conspiratórias e rumores não confirmados de que um dos departamentos poderia ser presidido por um cidadão norte-americano, possivelmente com antecedentes militares. “Nada nos surpreende, particularmente depois que o governo do presidente George W. Bush pressionou para que o ex-subsecretário de Defesa dos Estados Unidos Paul Wolfowitz, responsável por algumas das falidas políticas no Iraque, fosse nomeado presidente do Banco Mundial. E Bush teve sucesso em sua empreitada”, disse à IPS um delegado do G-77,

Wolfowitz, trabalhou na órbita do então secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, destituído após crescentes reclamações de legisladores e ex-oficiais militares dos Estados Unidos por causa do papel que teve em levar seu país a um atoleiro militar no Iraque, que continuou absorvendo recursos norte-americanos – tanto financeiros quanto militares – nos últimos quatro anos. “Se Wolfowitz pode ser presidente do Banco Mundial, talvez o governo Bush esteja buscando um posto de manutenção da paz na ONU para Rumsfeld. Nunca se sabe”, brincou o delegado do G-77.

A presidente da Assembléia Geral, de 192 membros, a xeque Haya Rashed Al Khalifa, manteve uma série de consultas, não somente com membros do G-77, mas também com integrantes do Movimento dos Não-Alinhados, formado por 116 países. Entre as 14 delegações com as quais manteve contato estavam a União Européia, o Grupo Africano e, também, países que não integram nenhum dos grupos regionais, como Noruega e Suíça. Sem disse não compreender a pressa para tal divisão, porque espera-se que o Escritório de Serviços de Controle Interno da ONU apresente em breve um relatório sobre a estrutura administrativa do Departamento, particularmente concentrado em sua relação com outros departamentos na Secretaria das Nações Unidas, incluindo o de Assuntos Políticos.

“Que necessidade há de se adiantar os acontecimentos?”, perguntou Sem. O representante indiano também alertou que a divisão do Departamento pode colocar em risco a vida dos soldados, entre eles os da Índia. “Em uma operação militar um comandante precisa, sobretudo, ter este tipo de unidade de comando, bem como ter a capacidade de contar com recursos que considere necessários e manter a logística sob controle”, acrescentou. Em caso de separar-se a logística, “isso prejudicaria muito a eficiência funcional e exporia nossos soldados a um grande risco”, afirmou Sem. “Não se trata de encontrar rapidamente certa fase de compromisso, mas, é algo que afeta a segurança e a vida dos soldados. Por isso que isto reforça ainda mais o ponto de um exame muito cuidadoso mediante procedimentos estabelecidos pela Assembléia Geral”, afirmou.

O embaixador Ronaldo Sardenberg, representante na ONU do Brasil, País que forneceu mais de 1.270 soldados para missões de manutenção da paz no ano passado, também criticou as mudanças propostas. O diplomata diz que o conteúdo destas reformas é tão importante que “gostaria de ter o tempo necessário para estudá-los em detalhe em um informe regular e para ter o conselho especialista do Comitê assessor sobre Questões Administrativas e Orçamentárias e o Quinto Comitê, que trata das implicações financeiras das novas propostas de reestrutura”.

“Minha delegação acredita que a proposta do secretário-geral deveria seguir procedimentos estabelecidos. Ao aderir a eles, os Estados-membro terão tempo para alcançar mais facilmente o consenso sobre os méritos da proposta”, disse o representante brasileiro. De outro modo, advertiu Sardenberg, “experimentaremos uma vez mais disputas com países-membro e entre Estados-membro e a Secretaria. Não há razão para mudar os procedimentos estabelecidos”. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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