Coréia do Norte: Mudança de planos, não de regime

Pequim, 15/02/2007 – O acordo pelo qual a Coréia do Norte concordou em desmantelar seu programa de desenvolvimento nuclear jogou por terra os planos dos Estados Unidos de procurar uma “mudança de regime” nesse “reino ermitão” da Ásia Pacífico. O acordo, redigido pela China e aprovado terça-feira em Pequim, marca o primeiro grande avanço em três anos de tortuosas negociações na mesa das Seis Partes (China, Coréia do Norte, Coréia do Sul, Estados Unidos, Japão e Rússia).

Sob seus termos, Pyongyang se comprometeu a desativar seu principal reator atômico, no complexo de Yongbyon, pôr fim ao seu programa de desenvolvimento de armas nucleares e permitir a entrada de inspetores internacionais para que verifiquem suas ações em troca de receber assistência energética. Embora descrito como um documento muito semelhante ao rascunho de um acordo anterior, de 2005, o atual convênio é mais especifico e contém um calendário preciso.

Pyongyang tem 60 dias para lacrar a usina de Yongbyon, admitir os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica e revelar todos seus programas nucleares. Em contrapartida, receberá 50 mil toneladas de combustível ou ajuda econômica de igual valor. A próxima fase, que não tem prazo, obriga o regime norte-coreano a desmantelar todas suas instalações nucleares e elaborar uma lista de todas suas reservas de plutônio, elemento químico que lhe permitiu realizar testes atômicos em outubro passado. Em troca disto, receberá outras 950 mil toneladas de combustível.

O acordo estabelece que os Estados Unidos e o Japão darão os primeiros passos para normalizar as relações com Pyongyang. Washington aceitou iniciar um processo para eliminar a Coréia do Norte de sua lista de países que patrocinam o terrorismo. O governo norte-americano também se comprometeu a levantar em 30 dias o congelamento das contas de Pyongyang no Banco Delta Asia de Macau. O presidente George W. Bush comemorou o acordo como “um primeiro e importante passo” para a implementação de um plano para fazer com que a península coreana fique livre de armas nucleares.

“As conversações (das Seis Partes) representam a melhor oportunidade para usar a diplomacia com a finalidade de abordar os programas nucleares da Coréia do Norte. Estas refletem o compromisso comum dos participantes de tornar a península livre de armas atômicas”, afirmou Bush. A China, sede das conversações por mais de três anos, considerou o resultado um “grande passo à frente” em um processo muito árduo, e o considerou resultado de uma “poderosa diplomacia”.

“Não faz muito tempo havia muitas duvidas quanto às conversações superarem a paralisação. O sucesso da quinta rodada superou a confiança da comunidade internacional no mecanismo”, disse nesta quarta-feira o jornal oficialista chinês China Daily. Apesar de tanto os Estados Unidos quanto a China comemorarem o sucesso das conversações multilaterais, alguns observadores coreanos dizem que este resultado teria sido impossível sem um diálogo direto entre o governo de Bush e o de Kim Jong II.

No mês passado, altos funcionários norte-americanos mantiveram encontros com seus colegas norte-coreanos em Berlim e discutiram vias para acabar com a paralisação em que as conversações caíram em 2005, quando Washington impôs sanções financeiras contra Pyongyang. “Os progressos importantes alcançados durante essas reuniões bilaterais em Berlim reduzem a necessidade de um fórum multilateral como as Seis Partes”, disse o analista chinês Li Dunqiu, especialista em assunto da península coreana na Academia Chinesa de Ciências Sociais.

A China esteve disposta a usar qualquer ferramenta diplomática para resolver a crise com a Coréia do Norte. Depois que Pyongyang realizou os testes nucleares subterrâneos em outubro, Pequim demonstrou uma incomum solidariedade com os países mais ameaçados pela crise, votando a favor de sanções militares contra o governo norte-coreano no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. A resolução ordenava à Coréia do Norte abandonar todo plano de desenvolvimento nuclear e fabricação de armas de destruição em massa de maneira “completa, verificável e irreversível”.

O acordo alcançado esta semana na capital chinesa é menos integral e especifico neste ponto, já que omite referências aos planos norte-coreanos para fabricar armas biológicas e químicas. Também adia uma resolução do suposto programa clandestino de enriquecimento de urânio de Pyongyang. Pequim rapidamente se comprometeu a trabalhar para que o novo acordo efetivamente seja colocado em prática. “O governo chinês apóia firmemente o documento e não poupará esforços para assumir suas responsabilidades”, afirmou Tang Jiaxuan, conselheiro do Estado chinês, ao fim das conversações, segundo a agência de notícias governamental Xinhua.

Entretanto, outros criticam o acordo porque preserva o status quo do regime norte-coreano, isolado da comunidade internacional. Ativistas documentaram uma longa história de violações dos direitos humanos cometidas pelo regime contra seu próprio povo. entre outras coisas, o governo da Coréia do Sul é acusado de deter doentes mentais e incapacitados em campos especiais, bem como realizar perseguições políticas. Calcula-se que mais de dois milhões de coreanos morreram vítimas de uma grande fome no final dos anos 90, causada pelas práticas econômicas do governo de Kim Jong II. (IPS/Envolverde)

Antoaneta Bezlova

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