Ambiente-Antártida: O cruzeiro do medo

Buenos Aires, 06/02/2007 – O acidente com um cruzador norueguês na Antártida, que encalhou e espalhou combustível em águas geladas, reavivou o debate entre quem defende maior atividade turística nesta região e os partidários de regulamentações e restrições mais rígidas. “O turismo na Antártida é uma atividade lícita e não pode ser proibida”, disse à IPS Patricia Ortúzar, do Programa de Gestão Ambiental e turismo da Direção Nacional do Antártico. Mas advertiu que o negócio deve ser severamente regulamentado para que sejam cumpridas normas de segurança.

A preocupação surgiu devido ao acidente com o navio Nordkapp, que na terça-feira passada encalhou na região de rochas Fossas do Netuno, na costa da ilha Decepção, ao noroeste da península Antártica e cerca de mil quilômetros a sudeste da Terra do Fogo, a província mais austral da Argentina.

O acidente forçou a transferência de combustível do tanque afetado para outra embarcação, manobra durante a qual caíram no mar entre 500 e 750 litros de óleo combustível, segundo a empresa Hurtigruten que operava o navio. Isso produziu uma mancha contaminante de cinco quilômetros quadrados de mar, que chegou até a costa, na zona de habitat de pingüins, orcas e cormorões (corvo marinho), entre outras espécies.

O Tratado Antártico, assinado em 1º de dezembro de 1959 e em vigor desde 1961, estabelece que esse continente de 14 milhões de quilômetros quadrados e com temperaturas que chegam a 30 graus negativos na costa e até 70 graus abaixo de zero em seu interior, deve ser usado apenas com fins pacíficos. Os 28 membros consultivos do tratado estabeleceram neste compromisso que a Antártida, onde, por exemplo, os ventos chegam aos 200 quilômetros por hora, deve servir para promover a cooperação científica internacional e não para abrigar bases militares ou ser usado para testes nucleares. O objetivo é a preservação desta gigantesca reserva de água cuja extensão duplica no inverno por causa do gelo, e a proteção da diversificada fauna que vive em seu litoral.

Ortúzar explicou que pelo Protocolo do Tratado Antártico sobre Proteção do Meio Ambiente de 1991, mais conhecido como Protocolo de Madri, foi aprovado há dois anos um novo anexo de “responsabilidade”, que impõe penalidades a operadores turísticos que descumprem normas ou provoquem danos. Porém, este anexo ainda não está em vigor por falta de ratificação parlamentar dos países signatários. Quando entrar em vigor, este mecanismo fixará penas pecuniárias para quem causar danos, e o dinheiro arrecadado será administrado pela Secretaria do Tratado Antártico. No entanto, a funcionária recordou que existem diretrizes que os operadores devem seguir e que estão obrigados a apresentar um plano de resgate para casos de acidente e outras medidas de segurança.

A questão, admitiu Ortúzar, está cada vez mais presente nas periódicas reuniões de membros do Tratado Antártico. No caso do navio Nordkapp, o titular da Direção Nacional do Antártico, Mariano Memolli, revelou que suas autorizações estavam em dia, mas encalhou quando realizou manobras em um pequeno istmo para entrar na baía e desembarcar passageiros. Segundo a Associação Internacional de Operadores Turísticos para a Antártida, organização criada em 1991 para reunir empresas do setor, desde as primeiras viagens, no final dos anos 60, até agora, o número de visitantes aumentou de algumas centenas para quase 30 mil ao ano, sendo que o maior crescimento ocorreu nos últimos 15 anos. Enquanto no verão austral 1992-93 somaram 6.700 turistas que navegaram nas costas da Península Antártica e por sua ilhas, 10 anos depois esse número chegou a 16 mil, e para está temporada prevê-se cerca de 30 mil passageiros distribuídos em 200 viagens.

Os visitantes chegam principalmente dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha, Alemanha e, em menor medida, de Austrália, Canadá, Suíça, Holanda e Japão. Um dos locais preferidos é justamente Decepción, uma ilha de origem vulcânica com águas termais onde os turistas podem banhar-se cercado por neve. O percurso também costuma levar a outras ilhas, com Paulet e 25 de Maio, e a bases situadas na península. Em alguns casos, os cruzeiros podem desembarcar passageiros por algumas horas para uma caminhada sobre o gelo. A atividade principal sempre é o avistamento da incomparável fauna local.

Daniel Leguizamón, coordenador da Comissão Organizadora do Ano Polar na Terra do Fogo, disse à IPS que o acidente com o Nordkapp “vai avivar uma discussão já presente entre os países do Tratado Antártico”, que ultimamente estava “aplacada” pela normalidade da operação dos cruzeiros. “Os que querem a preservação total vão aproveitar isto para propor maior restrição à atividade, e outros continuarão insistindo em aumentar as viagens”, acrescentou. Entre estes últimos, o principal incentivador do turismo na Antártida são os Estados Unidos, membro pleno do Tratado Antártico, ressaltou.

Leguizamón, que foi secretário de Turismo da província de Terra do Fogo, reconheceu que as viagens desde Ushuaia, capital provincial, até a Antártida aumentaram de forma “impressionante” nos últimos 20 anos, e que há fortes pressões para permitir que navios com maior capacidade operem na região. A regulamentação estabelece que se a embarcação levar mais de 500 pessoas entre passageiros e tripulantes não deve desembarcar, mas, apenas fazer avistamento. O limite foi fixado para facilitar os trabalhos de evacuação em caso de acidente.

Porém, há barcos maiores ávidos para entrar no negócio deste destino exótico, destacou Leguizamón. Um deles é o cruzador Golden Princess, que transporta 2.600 passageiros e 1.123 tripulantes. A imponente embarcação, que chegou nesta segunda-feira a Ushuaia, realiza percursos pelas águas que rodeiam a Antártida, sem aproximar-se da costa e sem promessa de desembarques, pelo menos por enquanto. (IPS/Envolverde)

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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