Nações Unidas: Pedras no caminho de Ban

Nova York, 07/02/2007 – O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, realizou em seu primeiro mês no cargo uma intensa campanha pela reforma do fórum mundial, mas chocou-se com a forte oposição de boa parte dos países que o integram. “Por favor, tenham a certeza de que nas últimas semanas considerei vossas preocupações”, disse Ban na segunda-feira perante a Assembléia Geral, dominada pelo ceticismo. “Cada um de vocês tem o direito de ser ouvido sem importar o tamanho de seu país, sua participação no orçamento ou qualquer que seja o hemisfério onde se encontra”, disse o secretário-geral aos delegados em uma reunião de três horas a portas fechadas. Dessa forma, Ban respondeu aos que lhe atribuíam a intenção de acelerar as reformas passando por cima dos comitês financeiros e administrativos da ONU, que devem analisar exaustivamente esses tipos de proposta antes de serem levadas à Assembléia Geral para aprovação final. “Permitam-me assegurar-lhes que nosso diálogo informal a este respeito, até agora, foi o primeiro passo do processo”, disse aos delegados. Também destacou que se envolverá pessoalmente no diálogo com os Estados-membros, “e pedirei aos meus assessores que consultem especialistas para elaborar, o mais rápido possível, um conjunto de propostas”.

Ban Ki-Moon anunciou formalmente que pretende dividir o Departamento de Operações de Manutenção da Paz em um de Apoio no Terreno e outro denominado Operações de Paz. Também deseja modificar o status atual do Departamento de Assuntos de Desarmamento substituindo por um novo Escritório para Assuntos de Desarmamento dirigido por um alto representante ou um representante especial do secretário-geral, em lugar de um subsecretário-geral. Governos e ativistas atribuem a proposta à intenção de diminuir a importância das gestões pelo desarmamento.

Com o fim de dissipar esses temores, Ban disse que o novo organismo terá “uma ligação direta” com o próprio secretário-geral, “para, assim, garantir uma interação mais freqüente”. O representante do Paquistão, Munir Akram, disse que, a princípio, preocupa-se com a degradação desse Departamento. Mas, na realidade, a proposta do secretário-geral é “fortalecê-lo”. “Isso está certo. Mas, não se deve pedir-lhe que assuma tarefas que não tenham a aprovação dos órgãos legislativos da ONU, especialmente assuntos específicos de um país”, afirmou Akram. O Paquistão também se opõe à universalização de certo tipo de tratados internacionais, afirmou seu representante.

Já o delegado iraniano, Mehdi Danesh-Yazdi, expressou sua oposição à degradação do Departamento de Assuntos de Desarmamento e sua vontade de que continue como está, um departamento independente a cargo de um subsecretário-geral. “Nomear um representante especial do secretário-geral não é uma solução nem um caminho na direção correta”, afirmou. Também se perguntou o que motivou a proposta de dividir o Departamento de Operações de Manutenção da Paz a cargo de dois novos subsecretários-gerais.

“Isso o tornará mais eficiente e coerente? Com o atual representante especial do secretário-geral e dos subsecretários-gerais mais o secretário-geral-adjunto envolvidos no assunto temo que a cúpula esteja atestada”, afirmou em tom de sarcasmo. Não surpreende que o maior apoio às propostas do secretário-geral partam dos Estados Unidos, cujo governo atual não considera o desarmamento entre suas prioridades. O representante norte-americano, Alejandro Wolff, disse que Ban, na qualidade de condutor da organização, é responsável perante os países-membros.

“Porém, necessita de flexibilidade e autoridade para sua tarefa. O julgaremos por seus resultados”, disse Wolff. O representante de Washington também disse que colocar o Departamento de Assuntos de Desarmamento diretamente sob comando do secretário-geral “soa como elevar de categoria, e não como uma degradação”. Quando à reforma do Departamento de Operações de Manutenção da Paz, Wolff afirmou que “se nos perguntarem, terá 192 idéias diferentes. O elegemos por aclamação, portanto, devemos deixar que se ocupe de sua reforma”. Mas as duas coalizões políticas mais importantes da ONU, o Grupo dos 77, com 130 países, e o Movimento de Países Não-Alinhados (Noal), com 117, expressaram publicamente suas reservas a respeito da reestrutura proposta por Ban Ki-Moon.

Representando o Noal, a delegada cubana, Ileana Nuñez Mordoche, disse que não é nenhum segredo que esse bloco coloca o desarmamento entre suas prioridades. “Consideramos que seria extremamente importante que o Departamento de Assuntos de Desarmamento continue sendo independente e sob o mando de um subsecretário-geral, e que não seja apenas um escritório”, acrescentou Mordoche, destacando a subordinação direta desse órgão ao secretário-geral. “Para nós, isso contribuiria em boa medida com o objetivo estabelecido pelo secretário-geral de dar uma nova ênfase às funções essenciais deste departamento por meio de um compromisso de alto nível e um apoio institucional apropriado”, afirmou.

Por sua vez, o Gupo dos 77 declarou que “não deseja discordar publicamente do secretário-geral”. Mas também assinalou em uma carta dirigida aos membros que “não apóia nenhum prazo artificial” para discutir a reestrutura.

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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