Saúde: Um cerco de Aids, tuberculose e fome no Camboja

Bangcoc, 07/02/2007 – A redução dos fundos que o Programa Mundial de Alimentos (PMA) destina ao Camboja agrava o desespero das 740 mil pessoas que recebem sua ajuda, entre crianças, portadores do vírus HIV causador da Aids e tuberculosos. Os sinais da crise alimentar neste país, um dos mais pobres do sudeste da Ásia, surgiram em outubro, quando os fundos de doares internacionais começaram a se esgotar, disse o diretor do PMA para o Camboja, Thomas Keusters. Desde então, “tivemos de reduzir nossa assistência às escolas, e agora suspendemos projetos-chave até melhorar a situação dos recursos”, acrescentou.

Além de atender 650 mil crianças, o PMA, uma agência da Organização das Nações Unidas, entregava através de seus 1.800 postos de distribuição no Camboja, alimentos para 70 mil adultos afetados pelo HIV e a 18 mil tuberculosos. Porém, os gestores da iniciativa tinham a idéia de conseguir maior alcance em comunidades rurais açoitadas pela pobreza. “Fomos forçados a suspender estes projetos”, afirmou Keusters à IPS desde Phnom Penh. O PMA esperava receber dinheiro novo para seu programa neste país no final de janeiro, US$ 10 milhões para comprar 18 mil toneladas de alimentos para distribuição até meados deste ano.

Os doadores tradicionais são Austrália e Japão. As organizações não-governamentais que trabalham com o PMA para ajudar os cambojanos que vivem com o vírus da Aids se preocupam pelas conseqüências da falta de alimentos. O Camboja é um dos três países do sudeste da Ásia com maior incidência de HIV/Aids , junto com Birmânia e Tailândia. Segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Onusida), a prevalência dessa doença entre cambojanos com idade de 15 a 49 anos é, em média, de 1,6% (entre 0,9% e 2,6%, nas diversas faixas etárias).

A entrega de ajuda alimentar aos cambojanos pobres que vivem com HIV ou com o bacilo de Koch, causador da tuberculose, abriu um vínculo entre os que necessitam de remédios e os pontos de distribuição de alimentos. “Os pacientes precisam de comida antes de tomar os medicamentos. Não se pode ingerir a medicação de estômago vazio. É preciso manter um equilíbrio”, disse em uma entrevista Haidy Ear-Dupuy, diretora do escritório em Phnom Penh da World Vision, uma agência humanitária cristã. “As pessoas com HIV e tuberculose serão as mais prejudicadas com a redução dos fundos”, assegurou.

A World Vision, que trabalha em cinco províncias de predomínio rural, garantia a cada chefe de família com HIV o fornecimento regular de ajuda alimentar que incluía 15 quilos de arroz por mês, óleo para cozinhar, açúcar e sal. “Também os ajudamos a conseguir os remédios e damos assessoria psicológica”, acrescentou Ear-Dupuy. “A nutrição é uma parte essencial do pacote de assistência às pessoas que recebem tratamento para HIV e tuberculose”, disse Peter Piot, diretor da Onusida. “Os cortes no orçamento colocam em risco a efetividade destas intervenções críticas”.

As dificuldades que os pobres do Camboja enfrentam apresentam agudas perguntas em relação ao alivio, a propósito da desigual distribuição do crescimento econômico em um país que luta para se recuperar após duas décadas de uma brutal guerra civil e da destruição causada durante a Guerra do Vietnã (1964-1975). A paz foi restabelecida no começo dos anos 90, mas levou muito tempo para que todo o país se beneficiasse do fim da violência. No final do ano passado, por exemplo, o governo do primeiro-ministro, Hun Sem, anunciou planos para gastar US$ 20 milhões para melhorar a infra-estrutura em Siem Reap a fim de estimular o turismo.

Esse povoado, no Camboja ocidental, esteve marcado pelo crescimento, incluindo um aumento na quantidade de hotéis, devido à sua proximidade com os famosos templos de Angkor Vat. Funcionários cambojanos esperam que o turismo gere 360 mil postos de trabalho e US$ 2,3 bilhões em ganhos até 2010, informou o jornal Phnom Penh Post em uma notícia publicada em dezembro. Mas além de Siem Reap, Sihanoukville e Phnom Penh, os principais centros turísticos a partir de onde o país parece se recuperar em um ritmo sustentável, existem vastas áreas nas províncias onde a pobreza é enorme.

“Os benefícios do crescimento não chegaram às áreas rurais. O Camboja tem níveis muito elevados de pobreza e insegurança alimentar”, disse Keusters. O Instituto Internacional de Pesquisa sobre Políticas Alimentares (Ifpri) recordou ao governo de Hun Sen o quanto era crítica a situação em 2006, quando essa organização de especialistas com sede nos Estados Unidos colocou o Camboja entre os 12 pontos de maior fome do mundo em seu Índice global da Fome. Os outros 11 países pertenciam à África subsaariana.

O Ifpri usou três indicadores para elaborar o índice: desnutrição infantil, mortalidade infantil e estimativas sobre as pessoas com deficiências calóricas. Na ocasião o instituto disse que os países mais afetados compartilham uma história em comum: foram “afetados por guerras civis ou conflitos violentos”. Quase 35% dos 11,5 milhões de habitantes do Camboja vivem abaixo da linha de pobreza, e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) o situou no 129º lugar entre 177 países em seu anual Informe de Desenvolvimento Humano. A expectativa de vida no país é de 56 anos, uma das menores da região, diz o Informe. (IPS/Envolverde)

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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